Tensão em Salamanga: Conflito entre Comunidade e Fiscais da Reserva do Maputo

Uma onda de violência e protestos abalou a localidade de Salamanga, no distrito de Matutuine, Moçambique, expondo um conflito latente entre comunidades locais e a administração da Reserva Especial do Maputo. O incidente, que já provocou uma morte e vários feridos, teve origem em dezembro e escalou nesta semana, resultando em confrontos com a UIR e na paralisação de uma via crucial.

Os eventos remontam a 10 de dezembro, quando fiscais da reserva abordaram um suposto caçador furtivo. O homem abandonou o veículo e fugiu para o mato. Mais tarde, ao regressar à sua residência na comunidade de Xidzukuine, foi surpreendido na madrugada de 23 de dezembro por uma acção dos fiscais. Segundo relatos, ao perceber a presença dos agentes e não de um amigo que o teria contactado via celular, o indivíduo de 34 anos tentou escapar pela janela. Foi então baleado na perna pelos fiscais.

Embora inicialmente não fosse considerado em risco de vida, o homem após perder muito sangue, acabou por falecer no Hospital Distrital de Matutuine, em Belavista. Os fiscais abandonaram o corpo no local, que foi posteriormente conduzido à morgue pelas autoridades hospitalares.

A notícia da morte gerou profunda indignação. No dia 24 de dezembro, a população de Salamanga cercou as instalações do parque, exigindo explicações dos responsáveis. Apesar da detenção de alguns fiscais pela Polícia da República de Moçambique (PRM), a comunidade desconfiou da sinceridade da acção.

Os ânimos acalmaram temporariamente durante o Natal, mas a tensão voltou a explodir durante o velório do falecido, quando o Chefe da Fiscalização do Parque foi severamente espancado pela multidão, escapando do linchamento por intervenção do irmão da vítima e da PRM.

Para tentar resolver a crise, foi marcada uma reunião tripartida para 6 de janeiro, envolvendo o governo local, representantes do parque e a comunidade. No entanto, a assembleia foi cancelada de última hora devido à agenda do Chefe da Localidade, o que inflamou ainda mais os moradores.

Frustrados pela falta de diálogo, os manifestantes decidiram, como forma de pressão, bloquear a movimentação na estratégica Estrada Nacional que liga Maputo a Ponta de Ouro, sobre a Ponte do Rio Maputo. A interdição paralisou o tráfego por várias horas.

A resposta não demorou. A Unidade de Intervenção Rápida (UIR) chegou ao local disparando balas reais e gás lacrimogéneo. Pelo menos duas pessoas foram baleadas: um adulto e uma criança de 10 anos que se encontrava na oficina dos pais, próxima ao protesto. Várias outras pessoas foram maltratadas e detidas.

Parte dos manifestantes, em fuga dirigiu-se para o interior da Vila de Salamanga, onde atearam fogo no edifício da localidade e à casa de um suposto informante do parque, que se encontra foragido desde 23 de dezembro.

Salamanga é um ponto vital para o comércio e transporte da região, conectando áreas como Machangulo a Maputo e sediando uma importante feira semanal. Actualmente, a situação está aparentemente calma, mas o clima permanece carregado e imprevisível. O conflito, que segundo fontes locais se arrasta há mais de uma década devido a tensões entre a comunidade, a fauna e os métodos operacionais da reserva, assemelha-se a um cenário de crise pós-eleitoral, exigindo uma intervenção urgente e decisiva do governo para restabelecer a paz e a justiça.

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