
Abrimos o ano como fechámos o anterior: com um cartão. Não vermelho, porque ainda acreditamos na pedagogia da advertência. Um cartão amarelo, firme, público e necessário, dirigido ao Presidente da República de Moçambique, numa altura em que o país exige mais lucidez do que aplausos fáceis, mais seriedade do que gestos simbólicos e, sobretudo, mais verdade do que rumores.
Os factos que sustentam este cartão amarelo começaram como rumores, mas rapidamente ganharam corpo no espaço mediático e nas conversas de rua: a alegada promessa presidencial de 500 mil meticais a cada jogador da Seleção Nacional de Futebol, caso Moçambique alcançasse os oitavos-de-final. A notícia correu célere, dividiu opiniões, inflamou debates e, acima de tudo, expôs uma ferida antiga da nossa governação: a confusão recorrente entre o gesto político, o interesse público e o populismo emocional.
Aqui não se questiona o apoio moral à Seleção Nacional. O futebol, em Moçambique, continua a ser um dos poucos espaços de catarse coletiva, um raro território onde o país se reconhece como nação. O problema começa quando o Chefe de Estado, símbolo máximo da unidade nacional e guardião da Constituição, entra diretamente no campo das promessas financeiras individuais, sem transparência, sem enquadramento institucional e sem clareza quanto à origem dos fundos.
De onde vêm os 500 mil meticais, Senhor Presidente? São recursos pessoais ou fundos públicos? Esta não é uma pergunta menor. Num país onde o próprio Presidente afirmou ter encontrado cofres vazios, a sociedade tem o direito de exigir explicações claras. Mesmo que juntasse todo o salário auferido desde o início do mandato, dificilmente tal valor seria coberto.
Moçambique vive um momento crítico. Hospitais de todo o país não dispõem de medicamentos essenciais nem de materiais médicos básicos. Faltam seringas, reagentes, luvas, equipamentos e até analgésicos simples. Profissionais de saúde trabalham em condições precárias, muitas vezes improvisando para salvar vidas. Em paralelo, há sectores inteiros do Estado com salários e subsídios em atraso, crianças a estudar debaixo de árvores por falta de salas de aula e carteiras escolares, e comunidades abandonadas à própria sorte.
Neste contexto, qualquer promessa financeira avultada, ainda que bem-intencionada, entra inevitavelmente no campo da comparação moral. O cidadão comum pergunta: por que há dinheiro para prémios individuais no futebol, mas não há para medicamentos nos hospitais ou condições mínimas nas escolas? Esta é uma pergunta legítima e profundamente política.
Doravante, o Presidente da República não pode querer aparecer em todas as ocasiões. Existem instituições que tutelam o desporto nacional: o Ministério da Juventude e Desportos, o Comité Olímpico Nacional e a Federação Moçambicana de Futebol. São estas entidades que devem estruturar incentivos, prémios e políticas de valorização dos atletas. Caso existam recursos extraordinários, devem ser canalizados por vias institucionais, com transparência e regras claras.
Os populismos devem ser abandonados. O desporto moçambicano enfrenta problemas estruturais profundos: ausência de um campeonato sólido, formação de base fragilizada, falta de infraestruturas e financiamento irregular. O Mocambola, por exemplo, não chegou ao fim por questões logísticas e financeiras, um retrato fiel da desorganização que persiste.
Se o Presidente fosse, de facto, pelo desporto, deveria ter intervido estrategicamente para que a LAM e a Liga Moçambicana de Futebol chegassem a um entendimento que permitisse a conclusão do Mocambola 2025. É aí que se mede o verdadeiro compromisso com o desporto nacional.
Este cartão amarelo não é contra a Seleção Nacional nem contra os jogadores, que merecem respeito e melhores condições. É um aviso ao método, à forma e à mensagem que se transmite quando se governa mais com gestos simbólicos do que com políticas públicas estruturadas.
Começamos o ano com este cartão porque o país precisa de uma nova dinâmica. Menos emoção e mais estratégia. Menos personalização e mais instituições. O cartão amarelo está mostrado. Ainda há tempo de corrigir o jogo.

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