
Num momento em que Moçambique enfrenta os efeitos devastadores das cheias, o Presidente sobrevoou a Província de Gaza numa só área especifica, a zona do Limpopo com intuito de avaliar os estragos das cheias e inundações, uma avaliação de uma aérea simbólica esquecendo se do resto do país. O Presidente da República assumindo riscos enquanto Chefe de Estado, gerando custos operacionais adicionais, uma operação que levanta questões sobre eficiência logística e transparência. Esta operação ocorreu numa altura em que drones adquiridos com fundos provinciais de Nampula, destinados a situações de emergências (insurgência?), que não foram mobilizados para o resgate ou para apoiar a supervisão presidencial no vale do Limpopo.
Recolha de opinião sobre intervenção da Sala de Operações sobre as Inundações em Moçambique (2026).
1. Faz sentido, na sua análise, a existência de uma sala presidencial de operações em detrimento do INGD?
A tendência esmagadora de rejeição foi de 87,5% à sala presidencial de operações afirmando que a mesma reflecte uma crítica à duplicação institucional e à centralização do poder executivo. Os inquiridos percecionam a sala presidencial não como reforço da coordenação, mas como esvaziamento simbólico e funcional do INGD, órgão legalmente mandatado para a gestão de desastres. Segundo Osborne e Gaebler (1992), sistemas administrativos eficazes dependem da clareza de funções e da valorização das instituições técnicas existentes. Esta leitura enquadra-se na teoria da hiperpresidencialização, frequente em regimes africanos pós-coloniais (Van de Walle, 2003).
2. O actual Chefe de Estado acumula diversas funções. na sua óptica, isto é, boa governação ou concentração da gestão das coisas públicas?
Os inqueridos numa tendência de 71,4%, uma evidencia clara que interpreta a acumulação de funções como concentração do poder, e não como boa governação. Esta leitura dominante dos inquiridos sugere uma perceção de enfraquecimento das instituições em benefício do líder, fenómeno amplamente discutido na literatura sobre neopatrimonialismo africano (Bayart, 2009). Isso confirma que a população associa centralização política a riscos de arbitrariedade e ineficiência administrativa. Max Weber (1978) alerta que a personalização excessiva do poder fragiliza a racionalidade burocrática e compromete a previsibilidade das decisões públicas.
3. Na sua opinião, a decisão sobre o aluguer de meio aéreo presidencial para esta avaliação foi uma decisão acertada?
A predominância das respostas negativas foi de 62,5% face à positiva de 37,5%, revelando um juízo crítico da opinião pública quanto à racionalidade do uso de recursos estatais em contexto de calamidade. A reprovação maioritária sugere que os inquiridos percebem o sobrevoo presidencial como um acto simbólico de poder, e não como uma intervenção funcional orientada para a mitigação do desastre.
Este resultado pode ser interpretado à luz da teoria da racionalidade administrativa, segundo a qual as decisões públicas devem maximizar eficiência e utilidade social, sobretudo em cenários de escassez (Simon, 1997). E esta leitura está alinhada aos estudos sobre governação performativa em contextos de crise, onde a imagem política tende a sobrepor-se à eficácia operacional (Hood, 2011). Enquanto drones patrocinados pelo governo de Nampula permanecem invisíveis no terreno, a população de centro e sul de Moçambique poderá se questionar sobre para onde foram os recursos investidos que não servem a urgências presidenciais e do país.
4. Olhando para o apoio que o país vem recebendo em calamidades desde 2000, acredita que Moçambique estará livre destes desastres nos próximos anos?
A tendência quase linear rumo à descrença foi de 87,5% que afirmam que Moçambique não estará livre de desastres) traduz um sentimento colectivo de vulnerabilidade estrutural. Isso revela que os inquiridos não interpretam os desastres como eventos excepcionais, mas como um fenómeno sistémico e previsível, associado à incapacidade institucional de planear a longo prazo. Segundo Ulrich Beck (1992), sociedades marcadas por riscos recorrentes desenvolvem uma consciência social de insegurança permanente, especialmente quando o Estado falha na prevenção e adaptação. O que reforça a tese de que a gestão de riscos em países em desenvolvimento é percebida mais como reação do que como prevenção (UNDRR, 2015).
5. Em desastres passados, como as Cheias de 2000 ou os ciclones Idai e Kenneth, houve recomendações internacionais que não foram implementadas. O que explica esta situação?
Cerca de 75% dos inqueridos relatam claras tendências que apontam a corrupção enraizada no Estado como principal explicação para o incumprimento das recomendações internacionais, superando largamente a justificação da falta de fundos. Esta perceção encontra respaldo na literatura sobre falhanço do Estado (state failure), onde a corrupção é considerada um obstáculo central à transformação de ajuda técnica em políticas públicas efectivas (Rose-Ackerman, 1999). Estes dados demonstram que a população distingue entre limitações financeiras legítimas e desvios estruturais de governação, evidenciando um nível de consciência política relevante para estudos de accountability e transparência em África Subsaariana (Bratton & Van de Walle, 1997).
6. O Ministro dos Transportes tem falado em nome do Ministro das Obras Públicas, levantando questões sobre a nomeação ministerial. Na sua opinião, o que está por trás?
As opiniões dos inqueridos apresentaram múltiplas linhas de tendência distribuídas, mas convergentes na ideia de subordinação ministerial ao poder central. A soma das respostas relacionadas com ordens presidenciais, ingerências institucionais e relações de poder ultrapassa largamente explicações de natureza técnica. Segundo Peters (2010), quando ministros deixam de actuar com autonomia funcional, ocorre um fenómeno de captura política da administração pública, reduzindo a qualidade da governação. Podendo se concluir que há uma percepção social de que as decisões ministeriais não obedecem a critérios institucionais claros, mas a lógicas informais de poder, aspecto central nos estudos sobre governação fraca e informalidade estatal.
No seu conjunto das interpretações, as opiniões demonstram consistência interna das percepções, reforçando a validade interpretativa do inquérito. Conforme Bardin (2016), a repetição de sentidos críticos em diferentes categorias analíticas indica a presença de um discurso social estruturado, e não meras opiniões isoladas. Assim, os dados revelam uma opinião pública marcada por desconfiança institucional, consciência do risco e crítica à centralização do poder, oferecendo base sólida para análises académicas sobre governação, gestão de calamidades e legitimidade do Estado em Moçambique. Por outro lado, os resultados reflectem um claro ceticismo da população perante a gestão de desastres e a estrutura de poder. A predominância de respostas que apontam para corrupção, concentração de funções e ineficiência logística sugere uma desconexão entre as acções do governo e as necessidades reais das comunidades afectadas.
A avaliação Presidencial na operação cheias/2026 sobrevoa se críticas e se expõe falhas na Gestão de Calamidades. A presidência moçambicana parece cada vez mais afastada da realidade concreta do povo que governa, enquanto o país mergulha em crises naturais, sociais e morais. A Presidência que deveria ser o símbolo de liderança próxima ao povo, não como uma figura quase espectadora dos dramas que assolam o país. A sensação é de que temos um Presidente em funções, mas não em presença de alguém que “está” sem “ser” efectivamente. O país não precisa de mais viagens e promessas internacionais, precisa de liderança, presença e compromisso real com o sofrimento do povo. Enquanto a presidência continuar entre o ser simbólico e o estar aparente, o povo continuará a pagar a conta de um Estado que parece governar-se a si mesmo, deixando os moçambicanos entregues aos improvisos e à fé.
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