Maputo à beira do colapso: crise de combustível transforma comboios em latas de sardinha humanas

A crise global de combustível, que se intensifica em Moçambique, já ultrapassou as filas intermináveis nos postos de abastecimento, em Maputo, o problema ganhou uma dimensão alarmante, transformou o dia-a-dia de milhares de cidadãos num verdadeiro cenário de sobrevivência urbana.

Na capital, onde se concentram ministérios, bancos, escolas, hospitais e creches, a escassez de gasolina e gasóleo desmontou completamente a rotina de quem depende do transporte para viver. Para muitos residentes das zonas periféricas como Marracuene, Matola Gare, Boane e Cidade da Matola, a viatura própria deixou de ser opção. Tornou-se um luxo inacessível da noite para o dia.

Sem alternativas, a população correu para os comboios dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), o que parecia ser uma solução emergencial rapidamente se transformou num fenómeno caótico e perigoso.

A dependência histórica do automóvel privado sempre foi um problema silencioso em Maputo. Com o aumento do custo de vida, milhares de famílias foram empurradas para as zonas ao longo das estradas EN1, EN2 e EN4, tornando o carro uma necessidade básica até 2024. Nesse período, estimava-se a circulação de mais de 564 mil viaturas na região. Hoje, esse cenário ruiu.

Enquanto tensões geopolíticas no Médio Oriente envolvendo potências como os Estados Unidos e o Irão dificultam o fluxo global de combustível, Moçambique sofre os efeitos indirectos. Apesar dos preços controlados, o abastecimento tornou-se escasso e irregular. O resultado? Filas quilométricas, mercado paralelo em expansão e um clima crescente de desespero social.

Sem combustível, a cidade deslocou-se para os carris.

Os comboios dos CFM, que oferecem serviços a preços acessíveis, sessenta meticais na segunda classe e cinquenta na Automotora, passaram a ser o único refúgio possível. Porém, a procura explodiu muito além da capacidade, hoje, os comboios circulam em níveis extremos de superlotação.

A Automotora, concebida como projecto piloto, tornou-se símbolo da crise: carruagens abarrotadas, passageiros espremidos, porta abertas durante o trajecto e um risco constante de tragédia. As imagens são chocantes, corpos comprimidos, rostos cansados e uma cidade inteira dependente de um sistema à beira do limite.

Fonte dos CFM admite que o serviço nunca foi pensado como solução estrutural, a empresa, cujo foco principal é o transporte de carga, trata o transporte de passageiros como responsabilidade social agora, diante do colapso iminente, já se fala em privatização uma medida que, mesmo avançando, não resolverá a crise no curto prazo.

Como se não bastasse, o MetroBus que poderia aliviar a pressão falhou em responder. Problemas mecânicos constantes e falhas operacionais afastaram os utentes, deixando o sistema ferroviário sozinho para suportar uma procura esmagadora.

E é aqui que surge a pergunta que inquieta Maputo:

O que acontecerá no dia em que a Automotora parar?

Porque esse dia pode chegar, seja por avaria, falta de manutenção ou paralisação. E quando isso acontecer, a crise deixará de ser um transtorno para se tornar num colapso total da mobilidade urbana.

Maputo está em movimento… mas por um fio.

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