Jornalismo em risco: SNJ propõe centro de estágio para travar exploração e elevar qualidade da informação

Num contexto em que a qualidade da informação e as condições de trabalho dos profissionais da comunicação social estão sob crescente pressão, o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) avança com uma proposta considerada estratégica: a criação de um centro de estágio para estudantes finalistas, com vista a reforçar a formação prática e pôr fim à exploração no sector.

A iniciativa foi apresentada em Maputo, pelo secretário-geral do SNJ, Jeremias Mondlane, durante as celebrações do Dia do Jornalista Moçambicano. Segundo o dirigente, a realidade actual em várias redacções é preocupante, com estagiários a assumirem responsabilidades de produção jornalística sem orientação adequada, o que compromete seriamente a qualidade das notícias.

Mondlane denuncia que muitos órgãos de comunicação social recorrem à mão-de-obra estudantil como solução barata, atribuindo-lhes tarefas exigentes sem o devido acompanhamento profissional. O resultado, alerta, são conteúdos frequentemente mal elaborados e um ciclo contínuo de precariedade. “Há necessidade urgente de estruturar o estágio, garantindo supervisão e qualidade”, defendeu.

Para viabilizar o projecto, o SNJ está a mobilizar parcerias internacionais, incluindo contactos com embaixadas como as dos Estados Unidos, Ucrânia e Itália, na expectativa de assegurar financiamento. A proposta também já foi apresentada ao presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, que recomendou a realização de um estudo técnico no prazo de 30 dias.

Entretanto, o sindicato enfrenta limitações estruturais, como a falta de instalações próprias, o que fragiliza o seu funcionamento e capacidade de intervenção.

As celebrações do Dia do Jornalista foram igualmente marcadas por debates nos meios de comunicação social, centrados na liberdade de imprensa e na urgência de regulamentar a lei vigente. Neste âmbito, o SNJ defende a criação de um memorando de entendimento com o município, com o objectivo de facilitar a cobertura das actividades municipais.

Outro ponto crítico levantado pelo sindicato prende-se com as condições laborais no sector. A ausência de contratos formais, o pagamento por peça/notícia e a falta de direitos básicos continuam a marcar a realidade de muitos jornalistas. Mondlane critica duramente esta prática, sublinhando que alguns órgãos alegam dificuldades financeiras para justificar modelos precários de remuneração.

A regulamentação da nova lei de imprensa deverá envolver instituições-chave como o Conselho Superior de Comunicação Social, o capítulo moçambicano do Media Institute of Southern Africa e o próprio SNJ, numa tentativa de reorganizar o sector.

Para o sindicato, é imperativo que os órgãos com capacidade financeira assumam a responsabilidade de garantir salários dignos e vínculos formais. A persistência de práticas como a não inscrição de jornalistas nos sistemas legais é vista como uma estratégia deliberada para evitar encargos laborais.

Num tom firme, o SNJ reforça o apelo: é preciso pôr fim à exploração dos recém-formados e construir um jornalismo mais ético, profissional e sustentável em Moçambique.

Fonte : Carta de Moçambique

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