
Há muito que o cidadão moçambicano vem sendo submetido a um teste de paciência que parece não ter fim. Num mundo onde a internet se tornou uma ferramenta essencial para a educação, para o trabalho, para a saúde e para a participação cívica, em Moçambique continua a vigorar uma realidade absurda: comunicar custa caro, navegar custa caro, estudar online custa caro, e muitas vezes tudo isso custa caro para um serviço que simplesmente não funciona como deveria. Por isso, este é um momento de mostrar um claro e firme cartão amarelo às operadoras de telefonia móvel que dominam o mercado nacional , Vodacom, Movitel e Mcel, mas também a todo o sistema que permite que esta situação continue a existir quase sem contestação institucional séria.
A crítica não surge do vazio. Surge da realidade diária de milhões de moçambicanos que compram pacotes de dados e rapidamente percebem que aquilo que lhes foi prometido não corresponde ao que recebem. A velocidade prometida raramente se materializa. As páginas demoram a abrir. Os vídeos travam constantemente. As chamadas feitas através de aplicações digitais caem com frequência. Em muitas zonas do país, simplesmente tentar enviar um documento ou abrir uma página de notícias transforma-se numa tarefa frustrante. No entanto, apesar de todas essas limitações, os preços continuam altos, muitas vezes escandalosamente altos, quando comparados com a realidade económica do país.
Moçambique não é uma economia rica. Pelo contrário, grande parte da população vive com rendimentos limitados, lutando diariamente para garantir o essencial para a sobrevivência. Ainda assim, o acesso à internet é cobrado como se fosse um produto de luxo destinado a consumidores com elevado poder de compra. A consequência é evidente: milhões de cidadãos ficam excluídos do mundo digital ou são obrigados a sacrificar uma parte significativa do seu rendimento para se manterem minimamente conectados.
Relatórios internacionais têm vindo a confirmar aquilo que os cidadãos já sentem no bolso. Moçambique aparece frequentemente entre os países onde a internet é mais cara em relação ao rendimento médio da população. Em alguns estudos, o país surge como um dos mais caros de África e até entre os mais caros do mundo no que diz respeito ao custo proporcional da conectividade. Em termos simples, um pacote básico de internet pode consumir uma parcela significativa do rendimento mensal de um cidadão comum. Para muitas famílias, pagar internet significa abdicar de outras necessidades igualmente importantes.
O mais inquietante é que este custo elevado não corresponde a uma qualidade de serviço que justifique tais preços. Em vários índices internacionais de desempenho digital, as velocidades médias de internet em Moçambique continuam relativamente baixas quando comparadas com muitos países africanos. A estabilidade da rede também é frequentemente questionada, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Ou seja, o cidadão paga caro, mas recebe pouco em troca.
Quando se observa o que acontece noutros países com desafios económicos comparáveis, a situação torna-se ainda mais revoltante. No Quénia, por exemplo, a internet tornou-se um instrumento central da economia digital, com preços mais acessíveis e uma rede relativamente robusta que sustenta serviços financeiros móveis, comércio digital e inovação tecnológica. Na Bolívia, apesar das dificuldades estruturais que o país enfrenta, os pacotes de dados são mais generosos e mais acessíveis para o consumidor médio. No Nepal, um país com enormes desafios geográficos, a concorrência entre operadoras levou a uma redução significativa dos preços ao longo dos anos. Na Albânia, que há pouco tempo apresentava indicadores económicos modestos, o acesso à internet tornou-se amplamente acessível graças a políticas que incentivaram a expansão da infraestrutura e protegeram o consumidor.
Perante estas comparações, torna-se evidente que a situação moçambicana não é inevitável. Ela resulta de escolhas, de decisões políticas, de modelos de regulação e de estratégias empresariais que, no conjunto, acabam por penalizar o consumidor.
As operadoras de telecomunicações têm certamente responsabilidade directa neste cenário. O mercado parece funcionar de forma confortável para quem vende os serviços, mas profundamente injusta para quem os compra. Os preços mantêm-se elevados, os pacotes de dados muitas vezes são estruturados de forma pouco transparente e as campanhas promocionais raramente se traduzem em reduções reais e sustentáveis de preços. O cidadão compra gigabytes que evaporam rapidamente, muitas vezes sem compreender exactamente como foram consumidos.
Mas seria igualmente errado ignorar o papel das instituições públicas neste processo. O Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique deveria actuar como garante do equilíbrio no sector, protegendo os consumidores e assegurando que o mercado funciona de forma justa e competitiva. No entanto, ao longo dos últimos anos, a percepção de muitos cidadãos é que o regulador tem sido incapaz de impor mudanças significativas que beneficiem o público.
Houve inclusive momentos em que se discutiram propostas para agravar tarifas relacionadas com serviços de dados, medidas que foram recebidas com forte contestação popular. A reacção dos cidadãos mostrou que existe uma consciência crescente sobre a importância estratégica da internet. As pessoas sabem que aumentar artificialmente o custo da conectividade significa limitar o acesso à informação, restringir oportunidades económicas e aprofundar desigualdades sociais.
Apesar da oposição pública, muitas mudanças tarifárias acabam por surgir de forma gradual, quase imperceptível, introduzidas através de diferentes mecanismos regulatórios ou fiscais. O resultado final é sempre o mesmo: o cidadão paga mais.
É impossível analisar esta realidade sem considerar também o contexto financeiro do próprio Estado. Moçambique enfrenta há vários anos dificuldades orçamentais significativas, e o governo tem procurado novas fontes de receita para equilibrar as contas públicas. Infelizmente, muitas vezes a solução parece passar por tributar sectores que já são essenciais para a vida económica e social, como é o caso das telecomunicações.
Quando o acesso à internet começa a ser visto principalmente como uma oportunidade de arrecadação fiscal, perde-se completamente a visão estratégica que deveria orientar as políticas públicas de desenvolvimento. Em vez de ser tratada como uma infraestrutura fundamental para o progresso económico e social, a conectividade passa a ser encarada como um produto do qual se pode extrair mais impostos.
Esta lógica é profundamente limitada e perigosa. No século XXI, a internet não é um luxo. É uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento. É através da internet que estudantes podem aceder a plataformas educativas, que profissionais podem trabalhar remotamente, que pequenas empresas podem encontrar novos mercados e que comunidades podem partilhar informação vital.
Em muitas situações de emergência, a conectividade digital pode ser a diferença entre a vida e a morte. Durante desastres naturais, epidemias ou crises humanitárias, a internet permite coordenar respostas rápidas, divulgar informações de segurança e manter comunidades informadas sobre riscos e medidas de protecção. Limitar ou encarecer excessivamente esse acesso significa enfraquecer a capacidade de resposta da sociedade.
Ainda mais preocupante é o facto de começarem a surgir debates sobre possíveis mecanismos legais que permitiriam limitar o acesso à internet em determinados momentos considerados politicamente sensíveis. A história recente de vários países demonstra que cortes de internet são frequentemente utilizados para controlar narrativas públicas, dificultar a organização social e restringir o fluxo de informação.
A sociedade moçambicana tem demonstrado crescente vigilância perante esse tipo de propostas. Activistas, jornalistas e organizações da sociedade civil têm lembrado repetidamente que o acesso à informação é um direito fundamental e que qualquer tentativa de restringir esse acesso representa um retrocesso democrático.
O cidadão moçambicano está cada vez mais consciente do papel que a internet desempenha no mundo moderno. E é precisamente por isso que a indignação cresce quando percebe que paga caro por um serviço que, em muitos casos, não corresponde minimamente às expectativas.
Este cartão amarelo é, portanto, mais do que uma crítica. É um aviso claro. Um aviso às operadoras para que compreendam que a confiança do consumidor não pode ser explorada indefinidamente. Um aviso às instituições reguladoras para que assumam plenamente o seu papel de defesa do interesse público. E um aviso ao próprio governo, que precisa urgentemente de perceber que o desenvolvimento digital do país não pode ser construído sobre um modelo que transforma a conectividade num privilégio para poucos.
Os moçambicanos já suportam custos elevados em quase todos os sectores da vida quotidiana. Energia cara, transporte caro, combustível caro, serviços públicos frequentemente deficientes. Acrescentar a essa lista uma das internets mais caras do mundo é um peso que poucos conseguem suportar.
Hoje ergue-se o cartão amarelo. É um gesto de alerta, de indignação e de esperança de que algo possa mudar. Mas a história mostra que, quando os avisos são ignorados e as injustiças persistem, a pressão social cresce inevitavelmente.
E quando um povo começa a sentir que está a pagar demais por quase tudo e a receber muito pouco em troca, a questão deixa de ser apenas económica. Torna-se política, social e moral. Porque nenhuma sociedade pode prosperar quando o acesso ao conhecimento, à informação e à comunicação é tratado como um luxo reservado a poucos.
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