
UM CARTAO AMARELO PARA O GOVERNO PELA FALTA DE PRESPECTIVAS DIANTE DE UM PROBLEMA CICLICO QUE DESTROI A RIQUEZA E O SONHO DE MILHARES DE MOCAMBICANOS
Em Moçambique, a expressão popular segundo a qual depois da tempestade vem a bonança deixou há muito de traduzir a realidade vivida por milhares de cidadãos. O que deveria ser um ciclo natural de recuperação e esperança transformou-se, na prática, num padrão repetitivo de sofrimento, perdas e abandono. A cada época chuvosa, o país volta a enfrentar os mesmos cenários de destruição, como se não houvesse memória institucional, como se não existisse aprendizagem, como se cada tragédia fosse um evento isolado e não parte de um problema estrutural profundamente enraizado.
As cheias que recentemente afectaram a região sul do país, com particular incidência na cidade de Maputo e zonas circunvizinhas, vieram mais uma vez expor fragilidades que já não podem ser ignoradas nem relativizadas. Não se trata apenas da intensidade das chuvas, nem de fenómenos naturais imprevisíveis. Trata-se, acima de tudo, da incapacidade persistente do Estado em antecipar, planificar e responder de forma eficaz a eventos que são, há décadas, previsíveis.
Bairros inteiros foram submersos em poucas horas. Famílias viram as suas casas invadidas pelas águas, perdendo bens acumulados ao longo de anos de esforço. Crianças ficaram privadas de condições mínimas de habitabilidade, escolas interromperam actividades, pequenos negócios desapareceram de um dia para o outro. Este cenário não é novo. Repete-se com uma regularidade preocupante, tornando-se parte de uma normalidade que não pode ser aceite.
A questão central já não é saber se vai chover muito, mas sim por que razão, sabendo disso, o país continua tão despreparado. Num contexto em que Moçambique é amplamente reconhecido como um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, seria expectável que houvesse um investimento consistente e visível em infraestruturas resilientes, em sistemas de drenagem eficientes, em ordenamento territorial adequado e em mecanismos de resposta rápida. Contudo, o que se verifica no terreno é o oposto.
A expansão urbana tem ocorrido de forma desordenada, particularmente nas zonas periféricas de Maputo. Bairros surgem sem planeamento, sem infraestruturas básicas, sem sistemas de escoamento de águas pluviais. As construções avançam sobre zonas naturalmente vulneráveis, muitas vezes sem qualquer tipo de fiscalização efectiva. O resultado é uma exposição permanente ao risco, que se materializa sempre que as chuvas se intensificam.
Em bairros como Hulene, Chamanculo, Maxaquene e diversas áreas da Matola, a chegada da chuva não é apenas um fenómeno climático, é um sinal de alerta imediato. As populações sabem que, a qualquer momento, poderão ver as suas casas inundadas. Ainda assim, permanecem nesses locais por falta de alternativas reais. O Estado, que deveria garantir soluções de reassentamento dignas e sustentáveis, revela-se incapaz de oferecer respostas que vão além de medidas pontuais e, muitas vezes, tardias.
A actuação das autoridades durante as emergências continua a ser marcada por atrasos, descoordenação e insuficiência. A assistência humanitária, quando chega, não responde plenamente às necessidades. Muitas famílias passam dias sem apoio efectivo, dependendo da solidariedade comunitária para sobreviver. Esta realidade evidencia não apenas falhas logísticas, mas uma ausência de planeamento estratégico que deveria orientar a gestão de riscos no país.
Paralelamente, persistem dúvidas legítimas sobre a gestão dos recursos destinados à prevenção e mitigação de desastres naturais. Ao longo dos anos, foram anunciados diversos programas, financiamentos e parcerias internacionais com o objectivo de reforçar a resiliência do país. No entanto, os resultados concretos dessas iniciativas são pouco visíveis para a maioria da população. Esta discrepância entre os montantes anunciados e o impacto real no terreno alimenta uma percepção generalizada de má gestão e falta de transparência.
Casos recorrentes de suspeitas de corrupção envolvendo figuras ligadas à administração pública agravam ainda mais este cenário. A ideia de que recursos destinados a apoiar populações vulneráveis possam estar a ser desviados ou utilizados de forma indevida é profundamente perturbadora. Não se trata apenas de uma questão legal, mas de uma questão ética que mina a confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.
Enquanto isso, o país parece avançar sem uma visão clara de desenvolvimento urbano sustentável. Bairros históricos, que representam parte significativa da identidade cultural e arquitectónica de Maputo, enfrentam um processo gradual de degradação e desaparecimento. A falta de manutenção, aliada à pressão das águas e à ausência de políticas de preservação, contribui para a perda de património que dificilmente poderá ser recuperado.
Nas zonas mais afastadas do centro urbano, a situação assume contornos ainda mais dramáticos. Famílias vivem em condições extremamente precárias, muitas vezes rodeadas de água durante longos períodos. A exposição a doenças aumenta, as condições de higiene deterioram-se e a insegurança alimentar torna-se uma realidade constante. A vida quotidiana passa a ser definida pela incerteza, pela necessidade de adaptação permanente a um ambiente hostil.
O impacto psicológico destas situações não pode ser ignorado. A repetição constante de perdas materiais e a ausência de perspectivas de melhoria geram um sentimento de exaustão colectiva. As pessoas perdem não apenas bens, mas também a esperança de que o futuro possa ser diferente. Esta erosão da confiança é um dos efeitos mais graves de uma governação que falha em cumprir as suas funções básicas.
Governar implica responsabilidade. Implica capacidade de antecipar problemas, de mobilizar recursos, de implementar soluções e de prestar contas à população. Quando estas funções não são cumpridas de forma consistente, instala-se um vazio que é preenchido pela frustração e pelo descrédito. O Estado deixa de ser visto como protector e passa a ser percebido como ausente ou, em alguns casos, indiferente.
É fundamental reconhecer que os eventos climáticos extremos não podem ser evitados. No entanto, os seus impactos podem e devem ser mitigados. Existem conhecimentos técnicos, experiências internacionais e recursos que podem ser mobilizados para reduzir significativamente a vulnerabilidade das populações. O que falta não é necessariamente capacidade, mas sim vontade política, coordenação e compromisso com o interesse público.
A persistência deste ciclo de destruição e resposta insuficiente coloca em causa o próprio modelo de governação. Não se trata de uma falha pontual, mas de um padrão que se repete ao longo do tempo. Cada nova época chuvosa representa um teste que o Estado continua a não conseguir superar de forma satisfatória.
Este cenário exige uma mudança profunda de abordagem. É necessário investir de forma séria e contínua em infraestruturas de drenagem, em sistemas de alerta precoce, em planeamento urbano rigoroso e em programas de reassentamento que respeitem a dignidade das populações. É igualmente indispensável reforçar os mecanismos de transparência e responsabilização, garantindo que os recursos públicos são utilizados de forma eficiente e em benefício dos cidadãos.
Mais do que discursos e promessas, o país precisa de acção concreta. Precisa de liderança que reconheça a gravidade do problema e que esteja disposta a enfrentá-lo com seriedade. Precisa de instituições que funcionem, de políticas que produzam e de uma cultura de responsabilidade que não tolere desvios nem negligência.
A atribuição de um cartão amarelo ao Governo não deve ser entendida como um gesto meramente simbólico. Trata-se de um alerta claro e fundamentado. Um sinal de que a situação actual é insustentável e de que a continuidade deste padrão terá consequências cada vez mais graves para o país e para os seus cidadãos.
Se depois da tempestade não vem a bonança, então é necessário questionar as razões dessa ausência. E, sobretudo, é necessário agir para que essa bonança deixe de ser uma promessa vazia e passe a ser uma realidade possível.
Moçambique não pode continuar refém de um ciclo que combina vulnerabilidade natural com fragilidade institucional. O futuro do país depende da capacidade de romper com este padrão e de construir um modelo de desenvolvimento que coloque, no centro, a protecção efectiva dos seus cidadãos.
Sociedade
2026-03-25

Politica
2026-03-25

Sociedade
2026-03-24
.jpg)
Sociedade
2026-03-24

Sociedade
2026-03-24
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula