Cartão Amarelo ao Presidente Chapo: diplomacia sem produção — a escolha de uma comitiva que espelha o fracasso da nossa visão económica

Num país estruturalmente dependente de importações, onde até os bens mais básicos que sustentam a vida quotidiana são adquiridos no exterior, muitos deles provenientes da China, qualquer deslocação presidencial com propósitos económicos deveria representar um momento de afirmação estratégica, um sinal inequívoco de que o Estado compreende as suas fragilidades e está disposto a enfrentá-las com seriedade. A recente visita do Presidente Chapo à China, acompanhada por uma comitiva de supostos empresários nacionais, em vez de materializar essa expectativa, expõe com clareza desconfortável o grau de desorientação que continua a marcar a nossa abordagem ao desenvolvimento económico. Não se trata apenas de uma viagem. Trata-se de um espelho que reflecte, sem filtros, o modo como o país ainda confunde diplomacia com estratégia e presença com impacto, onde as prioridades acabam pendendo para os lobistas e uma casta de empresários predadores ligados ao partido no poder e suas células.

 A China é, indiscutivelmente, uma referência mundial em matéria de industrialização, inovação produtiva e capacidade de transformar recursos em riqueza e o que levanta o problema é sem dúvida a incoerência entre o objectivo proclamado da missão e o perfil dos indivíduos seleccionados para dela fazerem parte. Quando se afirma que a viagem tinha como finalidade explorar oportunidades de negócios na maior economia produtiva do mundo, cria-se a expectativa de que os participantes sejam agentes económicos com capacidade real de absorver conhecimento, estabelecer parcerias e, acima de tudo, replicar no país aquilo que observaram. No entanto, o que se observa é uma comitiva composta, em larga medida, por indivíduos cuja actuação económica se concentra na prestação de serviços, muitos deles orientados para o próprio Estado, e não na produção de bens ou no desenvolvimento de cadeias de valor.

Esta escolha não é neutra. Ela revela uma lógica profundamente enraizada em que o sucesso económico está mais associado à proximidade ao poder do que à capacidade de produzir. São empresários que prosperam num ambiente onde o Estado é o principal cliente, onde os contratos públicos substituem a competitividade e onde o risco produtivo é evitado em favor de rendas relativamente seguras. Não se trata de negar a importância do sector dos serviços. Trata-se de reconhecer que, num país que praticamente não produz o suficiente para satisfazer as suas necessidades básicas, a prioridade deveria ser outra. A prioridade deveria ser identificar, apoiar e projectar aqueles que estão dispostos a investir na produção, mesmo enfrentando condições adversas.

A incoerência torna-se ainda mais evidente quando se considera a realidade económica do país. Moçambique possui terra arável em abundância, recursos minerais significativos e uma força de trabalho numerosa. No entanto, continua a importar alimentos que poderia produzir, bens industriais que poderia fabricar e produtos que, em condições normais, deveriam ser resultado de uma economia minimamente estruturada. Esta dependência não é apenas um problema económico. É uma vulnerabilidade estratégica. E, perante essa realidade, a decisão de levar à China um grupo que não está directamente ligado à produção levanta questões sérias sobre a compreensão que se tem do problema.

É legítimo perguntar. Quem são, de facto, os representantes do empresariado produtivo nacional. Onde estão os industriais emergentes. Onde estão os agricultores com capacidade de expansão. Onde estão os empreendedores que lutam diariamente para transformar matéria-prima em produto final, enfrentando falta de financiamento, infraestruturas precárias e um ambiente de negócios pouco favorável. A ausência desses actores numa missão desta natureza não pode ser vista como um detalhe. É um sinal claro de exclusão e, ao mesmo tempo, um indício de que o país continua a privilegiar circuitos fechados de acesso a oportunidades.

Essa exclusão tem consequências profundas. Quando os verdadeiros produtores são sistematicamente afastados dos espaços onde se constroem parcerias e se estabelecem contactos internacionais, o país perde a oportunidade de criar uma base produtiva sólida. Perde também a possibilidade de garantir que o conhecimento adquirido no exterior seja efectivamente aplicado no território nacional. Em vez disso, reforça-se um modelo em que poucos têm acesso a oportunidades e muitos permanecem à margem, independentemente do seu mérito ou potencial.

A presença de figuras cuja relevância económica é, no mínimo, questionável, apenas agrava essa percepção. Quando se inclui numa comitiva empresarial indivíduos que não têm ligação directa com sectores produtivos, a mensagem que se transmite é de banalização da própria missão. Não se trata de desvalorizar outras áreas de actividade. Trata-se de reconhecer que cada contexto exige critérios específicos. Uma missão voltada para a exploração de oportunidades industriais e comerciais deveria ser composta por agentes capazes de actuar nesses sectores. Qualquer desvio dessa lógica compromete a credibilidade da iniciativa.

Outro elemento que não pode ser ignorado é o custo associado a este tipo de deslocações. Levar mais de quarenta empresários para uma visita internacional implica despesas significativas. Envolve transporte, alojamento, logística e outros encargos que, directa ou indirectamente, recaem sobre o Estado ou sobre recursos que poderiam ser utilizados de forma mais eficiente. Num país onde sectores essenciais enfrentam limitações severas de financiamento, cada decisão de gasto deve ser acompanhada de uma expectativa clara de retorno. E é precisamente aqui que surgem as dúvidas mais inquietantes.

Qual é o retorno concreto desta missão. Que acordos foram firmados. Que investimentos estão previstos. Que parcerias estruturantes foram estabelecidas. E, sobretudo, quantos desses resultados estão ao alcance dos membros da comitiva. Sem respostas claras a estas perguntas, a viagem corre o risco de se transformar num exercício de visibilidade sem substância. Num contexto de escassez, isso não é apenas ineficiência. É irresponsabilidade.

Mais preocupante ainda é o efeito que este tipo de decisão tem sobre o comportamento económico no país. Ao privilegiar indivíduos cuja actividade não está directamente ligada à produção, o Estado reforça um sistema de incentivos que desencoraja o investimento produtivo. Envia-se a mensagem de que o caminho mais seguro para o sucesso não passa pela criação de valor, mas pela proximidade ao poder. Isso distorce o funcionamento da economia, reduz a competitividade e perpetua a dependência.

Se o objectivo é transformar Moçambique numa economia produtiva, é necessário romper com este padrão. É necessário criar mecanismos transparentes de selecção para missões económicas. É necessário garantir que os critérios sejam baseados na capacidade, na experiência e no potencial de impacto. É necessário, acima de tudo, reconhecer que o desenvolvimento não se constrói com improviso nem com decisões que ignoram a realidade do país.

A relação com a China pode e deve ser estratégica. Mas essa estratégia só será eficaz se for orientada para a transferência de conhecimento, para a criação de capacidade produtiva interna e para o fortalecimento de sectores que possam gerar emprego e riqueza de forma sustentável. Isso exige preparação. Exige visão. Exige escolhas difíceis. E, sobretudo, exige coragem para romper com práticas que já demonstraram ser ineficazes.

O Presidente e a sua equipa têm a responsabilidade de liderar esse processo. Isso implica não apenas identificar oportunidades externas, mas também garantir que o país esteja preparado para aproveitá-las. Implica seleccionar os interlocutores certos, criar condições internas favoráveis e acompanhar de forma rigorosa os resultados das iniciativas. Sem isso, qualquer missão internacional corre o risco de ser apenas um episódio isolado, sem impacto real.

Este cartão amarelo não é um ato de hostilidade. É um apelo à reflexão. É um convite a repensar prioridades. É um alerta para o facto de que o tempo das decisões simbólicas já passou. O país precisa de resultados concretos. Precisa de políticas consistentes. Precisa de liderança que compreenda a diferença entre estar presente e fazer a diferença.

Porque, no final, o desenvolvimento não se mede pelo número de viagens realizadas nem pelo tamanho das comitivas. Mede-se pela capacidade de produzir, de inovar e de criar valor. Mede-se pela redução da dependência externa e pelo fortalecimento da economia interna. Mede-se pela inclusão daqueles que realmente trabalham para transformar o país.

E, à luz desses critérios, a missão em causa levanta mais perguntas do que respostas.

Fica, portanto, o cartão amarelo. Um sinal claro de que algo precisa de mudar. Um aviso de que o país não pode continuar a confundir aparência com substância. E uma ironia final que a própria realidade sugere. Num contexto em que grande parte do sector produtivo nacional é liderado por estrangeiros, muitos deles chineses, talvez tivesse sido mais coerente levar esses mesmos produtores à China para reforçar as suas ligações e expandir os seus negócios, em vez de deslocar um grupo que, até agora, demonstrou maior afinidade com os corredores da administração pública do que com as linhas de produção.

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