CARTÃO AMARELO A OSSUFO MOMADE: ENTRE A GANACIA E O DECLÍNIO DA RENAMO

A Postura egocêntrica de Ossufo Momade chega a ser um insulto para as milhares de almas que tombaram no processo tortuoso rumo a Democracia em Moçambique (Alípio Freeman)

 

A política moçambicana atravessa um dos seus momentos mais delicados desde a introdução do multipartidarismo nos anos 1990. Num contexto em que a confiança nas instituições é progressivamente testada e a alternância democrática continua a ser uma aspiração por concretizar, a fragilização da oposição representa não apenas um problema partidário, mas um risco sistémico para o equilíbrio do Estado. É neste quadro que se impõe um cartão amarelo político a Ossufo Momade, actual presidente da RENAMO e sucessor do carismático Afonso Dhlakama.

Este cartão amarelo não nasce de animosidade pessoal, mas da análise de um percurso político que, aos olhos de muitos observadores e apoiantes históricos, tem contribuído para a erosão interna da RENAMO e para o enfraquecimento da oposição em Moçambique. A acusação central é grave: sob a liderança de Momade, a RENAMO estaria a perder as suas bases sociais, a sua capacidade mobilizadora e, sobretudo, a sua relevância estratégica como principal contraponto à hegemonia da FRELIMO.

Para compreender o presente, é preciso revisitar o passado recente. Afonso Dhlakama não era apenas o líder histórico da RENAMO; era o símbolo de resistência política num sistema dominado pela FRELIMO desde a independência. Com todas as suas contradições, Dhlakama construiu uma base de apoio sólida, particularmente no centro e norte do país, transformando a RENAMO no que muitos consideravam o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da FRELIMO após a abertura ao multipartidarismo.

A FRELIMO, por sua vez, sempre se mostrou um partido de organização interna robusta e disciplina férrea. Mesmo em momentos de contestação ou fragilidade, revelou notável capacidade de recomposição estratégica. Historicamente, soube jogar no xadrez político com visão de longo prazo, neutralizando adversários não apenas nas urnas, mas também no terreno institucional e social.

Durante a liderança de Armando Guebuza, por exemplo, assistiu-se a uma estratégia clara de esvaziamento das bases da RENAMO, sobretudo no norte. Líderes tradicionais que outrora apoiavam a oposição foram progressivamente cooptados, integrados na administração pública e reinvestidos de autoridade formal que havia sido retirada no período pós-independência. Essa reconfiguração do poder local enfraqueceu profundamente a capacidade mobilizadora da RENAMO.

Paralelamente, sectores religiosos, incluindo comunidades muçulmanas que haviam nutrido ressentimentos históricos contra a FRELIMO marxista do pós-independência, foram também alvo de aproximação estratégica. O partido no poder mostrou pragmatismo: onde antes havia tensão ideológica, passou a haver integração e reconciliação tática.

É neste cenário já fragilizado que Ossufo Momade ascende à liderança da RENAMO, num momento de luto e transição emocional profunda. A morte de Dhlakama deixou o partido órfão de uma figura carismática e agregadora. Momade, apoiado por sectores militares e por generais influentes, assume o controlo numa fase em que a prioridade deveria ser reconstruir confiança interna, consolidar unidade e renovar o projecto político.

Contudo, desde cedo surgiram críticas quanto à sua falta de carisma, capacidade mobilizadora e visão estratégica. Para muitos, tratava-se de um líder mais burocrático do que político, mais preocupado com a manutenção do cargo do que com a reinvenção da oposição.

Um dos momentos mais simbólicos da sua liderança foi o processo de desarmamento e reintegração dos antigos guerrilheiros da RENAMO. Embora o processo de paz fosse desejável e necessário para a estabilidade nacional, a forma célere como certos “dossiers delicados” foram encerrados levantou dúvidas. As armas que durante décadas funcionaram como instrumento de pressão política e moeda de negociação foram entregues num contexto em que a FRELIMO consolidava cada vez mais a sua hegemonia institucional.

Para muitos analistas, esse gesto representou o princípio do fim da capacidade negocial da RENAMO. Sem força militar residual, sem mobilização popular robusta e sem liderança carismática, o partido viu-se reduzido a uma oposição formal, mas politicamente esvaziada.

Nas eleições subsequentes, Momade apresentou-se como candidato num ambiente em que já partia como derrotado à partida. A percepção pública era de que faltava energia, estratégia e narrativa mobilizadora. A campanha não galvanizou o eleitorado emergente urbano nem reacendeu as bases tradicionais.

Mais preocupante ainda é a ideia, amplamente difundida entre críticos internos, de que a condição de candidato derrotado passou a ser confortável. As benesses associadas ao estatuto de líder do principal partido da oposição — incluindo regalias institucionais, visibilidade e protecção, teriam criado um ambiente de acomodação.

Enquanto isso, a FRELIMO mantinha-se estrategicamente confortável. Um adversário fraco, previsível e pouco mobilizador serve melhor à estabilidade de quem governa há quase cinquenta anos do que uma oposição vibrante e reformista. A percepção de proximidade excessiva entre a liderança da RENAMO e sectores do poder alimentou suspeitas de conivência ou, no mínimo, de complacência.

Com o tempo, a insatisfação interna tornou-se evidente. A RENAMO começou a revelar fracturas: de um lado, críticos da liderança; de outro, um círculo de lealdade quase monárquica ao presidente. Nesse contexto emergiu a figura de Venâncio Mondlane, visto por muitos como portador de uma energia reformista capaz de dialogar com o eleitorado jovem e urbano.

Mondlane simbolizava, para uma parte significativa da sociedade, a possibilidade de uma revolução democrática sob a bandeira da RENAMO. Contudo, em vez de integrar essa força emergente, a elite partidária optou por marginalizá-la. O resultado foi a perda de uma oportunidade histórica de renovação.

As eleições seguintes confirmaram o desastre anunciado: resultados catastróficos, desmobilização das bases e crescente descrença entre apoiantes ferrenhos. A percepção generalizada era de que o partido havia desperdiçado a última grande oportunidade de se afirmar como alternativa credível de poder.

Um dos argumentos mais recorrentes entre críticos é o facto de Momade continuar a usufruir das benesses associadas à liderança do principal partido da oposição, mesmo num contexto em que novos actores políticos reclamam protagonismo. A ausência de reconfiguração institucional proporcional aos resultados eleitorais alimenta suspeitas sobre o conforto da FRELIMO com a sua permanência.

Quando um partido que sempre foi visto como ameaça estrutural ao poder estabelecido passa a ser percebido como domesticado, algo está profundamente errado. A democracia depende de tensão saudável entre governo e oposição. Sem isso, instala-se a apatia e a resignação.

Mais recentemente, declarações de figuras outrora leais a Momade revelam um ambiente de tensão interna. Em várias províncias, as bases mostram sinais de revolta e desorganização. A instabilidade não é apenas discursiva; é orgânica. A militância sente-se desorientada, sem projecto claro e sem liderança inspiradora.

A acusação mais dura, a de que Momade teria como “missão” matar a RENAMO por dentro, pode soar excessiva, mas reflecte o nível de frustração acumulada. Quando um líder é visto como mais próximo do adversário histórico do que da própria base, a crise de confiança atinge o seu ponto máximo.

O cartão amarelo aqui proposto não é apenas dirigido a Ossufo Momade, mas também àqueles que, por ambição, conveniência ou cálculo, sustentam um modelo de liderança que parece priorizar sobrevivência pessoal em detrimento da vitalidade institucional.

Moçambique precisa de uma oposição forte, organizada e estrategicamente competente. A FRELIMO, com toda a sua solidez histórica, só será desafiada por uma alternativa igualmente disciplinada e visionária. Se a oposição se autodestrói, a hegemonia transforma-se em quase inevitabilidade.

Quando tanto no partido governante quanto na oposição emergem sinais de ambição desmedida, pragmatismo excessivo e distanciamento das bases, a democracia torna-se refém de elites fechadas sobre si mesmas. O pluralismo perde substância e a esperança de alternância transforma-se em retórica vazia.

O cartão amarelo é um aviso, não uma sentença definitiva. É um chamado à reflexão e à responsabilidade histórica. Ossufo Momade ainda pode escolher entre dois caminhos: persistir numa liderança marcada pela contestação interna e pela percepção de complacência, ou promover uma verdadeira reforma partidária, abrindo espaço à renovação, reconquistando bases e reafirmando a independência estratégica da RENAMO.

A história política moçambicana mostra que nenhum partido é inabalável, mas também que nenhum sobrevive sem ligação orgânica ao seu povo. Se a RENAMO sucumbir por implosão interna, não será apenas uma derrota partidária, será um empobrecimento do próprio sistema democrático.

Este cartão amarelo, portanto, é um apelo à lucidez. A democracia moçambicana não pode continuar a ser refém de cálculos pessoais, acomodações silenciosas e lideranças que inspiram mais resignação do que esperança. O futuro do pluralismo exige coragem, visão e compromisso genuíno com o país , valores que precisam urgentemente de ser resgatados no seio da oposição.

Veja nossas noticas por categoria

Anuncie

aqui

Conversar

Ligue: +258 845 784 731