CARTÃO AMARELO À ADMINISTRADORA DO DISTRITAL DE XAI-XAI: ROUBAR DONATIVOS DEVE SER UM CRIME CONTRA HUMANIDADE

Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. Momentos em que calar equivale a aceitar que o sofrimento colectivo seja transformado em oportunidade privada. É exactamente nesse ponto em que hoje se encontra a consciência pública moçambicana.

As cheias voltaram a atingir o país. Casas destruídas. Campos agrícolas arrasados. Crianças sem alimento. Famílias inteiras reduzidas à dependência da solidariedade nacional e internacional. Na província de Gaza, particularmente no distrito de Xai-Xai, milhares de cidadãos viram desaparecer, em poucos dias, aquilo que levaram anos a construir.

Quando a natureza castiga, espera-se que o Estado proteja.
Quando o povo cai, espera-se que os dirigentes estendam a mão.
Mas o que acontece quando essa mesma mão é suspeita de retirar aquilo que deveria salvar vidas?

As denúncias que recaem sobre a administradora distrital, Argelência Francisco Chissano Unguana, relativas ao presumível desvio de produtos alimentares e bens destinados às vítimas das cheias, não são apenas mais um episódio administrativo. São um símbolo doloroso de algo muito mais profundo: a falência moral de uma parte da liderança pública.

Mesmo admitindo o princípio fundamental da presunção de inocência, há algo que nenhuma investigação judicial consegue apagar, o impacto moral da suspeita quando esta envolve comida destinada a quem passa fome.

Roubar recursos públicos já é grave.
Desviar fundos do Estado já é condenável.
Mas tocar em ajuda humanitária destinada a vítimas de calamidades ultrapassa qualquer limite ético aceitável numa sociedade minimamente humana.

Que mensagem recebe o cidadão comum quando ouve que alimentos destinados aos desalojados podem ter sido desviados por quem deveria coordenar a assistência? Que confiança resta às populações quando o socorro estatal passa a ser visto como mais um circuito de enriquecimento ilícito?

Moçambique vive hoje uma crise que vai muito além das cheias, da pobreza ou das dificuldades económicas. Vive uma crise de confiança. Uma crise de liderança. Uma crise de valores.

Durante anos, o discurso oficial prometeu combate cerrado à corrupção. Prometeu transparência. Prometeu moralização da administração pública. Contudo, a realidade quotidiana continua a apresentar sucessivos escândalos que reforçam a percepção de impunidade estrutural.

E inevitavelmente surge a questão política incontornável: qual é a responsabilidade do partido governante, a FRELIMO, quando repetidos casos envolvendo gestores públicos surgem sob a sua governação?

Não se trata de atacar instituições por mero exercício político. Trata-se de exigir responsabilidade a quem governa há décadas e, portanto, moldou o funcionamento do próprio Estado. Um sistema não se degrada por acaso; degrada-se quando práticas erradas deixam de ser excepção e passam a coexistir confortavelmente com o poder.

O mais inquietante não é apenas o alegado acto em si. É a normalização social que começa a instalar-se. A ideia perigosa de que escândalos surgem, provocam indignação momentânea e depois desaparecem sem consequências reais. Na verdade essa ideia sustenta a tese de que o povo tem memoria curta e que a sentença não executa, como disse uma vez o celebre musico, Azagaia.

Enquanto isso, a justiça tarda, os processos arrastam-se e as responsabilidades diluem-se até desaparecem por completo.
E o povo aprende, dolorosamente, que existem dois países: um onde pequenos delitos são rapidamente punidos e outro onde grandes suspeitas raramente produzem consequências políticas imediatas.

É neste contexto que o gesto mais digno, mais responsável e mais moralmente aceitável seria claro: a administradora Argelência Francisco Chissano Unguana deveria colocar o cargo à disposição.

Não como confissão de culpa, mas como demonstração de respeito pelas vítimas.
Como sinal de que o cargo público não é propriedade pessoal, mas confiança temporária concedida pelo povo. A permanência no cargo sob forte contestação pública apenas aprofunda o desgaste institucional e transmite a mensagem errada, a de que o poder protege os seus independentemente da gravidade das suspeitas.

Governar exige mais do que autoridade administrativa. Exige exemplo. Num país onde mães caminham quilómetros em busca de farinha, onde idosos dormem em centros de acomodação improvisados e onde crianças dependem de doações para sobreviver, qualquer dirigente suspeito de interferir na ajuda humanitária perde automaticamente a autoridade moral necessária para liderar. E aqui reside a ferida mais profunda: a distância crescente entre governantes e governados. Enquanto o cidadão luta diariamente pela sobrevivência, parte da elite política parece viver num universo paralelo, protegido por cargos, protocolos e silêncio institucional. Essa desconexão alimenta frustração, revolta e descrença nas instituições democráticas.

Uma sociedade não colapsa apenas por falta de recursos. Colapsa quando perde a esperança de justiça. Quantos escândalos mais serão necessários para que a responsabilização política deixe de ser excepção? Quantas denúncias terão de surgir até que a ética pública deixe de ser discurso e passe a ser prática?

O problema já não é apenas individual. É sistémico. Quando dirigentes permanecem nos cargos apesar de polémicas graves, cria-se um precedente perigoso: o de que a moral pública é negociável. O de que a sensibilidade social pode ser sacrificada em nome da conveniência política. E é precisamente contra essa cultura que este cartão amarelo se levanta.

Porque o povo moçambicano não merece ver a sua dor transformada em oportunidade de enriquecimento. Não merece assistir à politização da ajuda humanitária. Não merece que calamidades naturais sejam seguidas por calamidades morais.

A história ensina que regimes não caem apenas por crises económicas, mas pela erosão lenta da legitimidade moral. Quando os cidadãos deixam de acreditar na honestidade dos seus líderes, o contrato social começa a desfazer-se.

Hoje, Xai-Xai não pede discursos, mas pede responsabilidade, pede responsabilização e sobre tudo pede verdade, pede respeito por aqueles que perderam tudo e que a solidariedade deve alentar de modo a recomeçar e voltar a sonhar.

Este cartão amarelo não é apenas dirigido a uma administradora distrital. É dirigido a todo um modelo de governação que continua a permitir que suspeitas graves convivam com a permanência confortável no poder.

Se as instituições pretendem recuperar credibilidade, devem agir com firmeza, transparência e rapidez. Investigar, esclarecer e responsabilizar, seja quem for o envolvido.

Porque cada saco de arroz desviado representa uma família com fome, cada caixa de mantimentos perdida representa uma criança sem refeição e cada acto de corrupção em contexto humanitário representa uma traição ao próprio sentido de humanidade.

Moçambique precisa urgentemente de reencontrar a sua bússola moral, sendo que enquanto dirigentes confundirem poder com privilégio, enquanto a impunidade continuar a ser percebida como regra e enquanto o sofrimento popular for tratado como estatística administrativa, a sociedade continuará a sangrar, silenciosamente, diariamente, perigosamente.

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