
A libertação de Moçambique foi uma das maiores conquistas da nossa história. Foi construída com coragem, sacrifício e vidas humanas. Ninguém de boa-fé pode negar esse legado. Mas a história também ensina que nenhuma conquista é um cheque em branco e que nenhum partido pode reivindicar um direito eterno de governar apenas porque libertou uma nação. Cinquenta anos depois da independência, impõe-se uma pergunta desconfortável, mas necessária: até quando continuará o povo moçambicano a pagar uma dívida histórica que parece nunca terminar? Quantos rios ainda terá de atravessar para que a liberdade deixe de ser apenas uma memória gloriosa e se transforme numa realidade concreta de dignidade, justiça, prosperidade e esperança?
A libertação serviu para expulsar o colonialismo, não para substituir uma lógica de poder por outra em que o Estado seja frequentemente percebido como excessivamente dependente dos interesses da elite política. Um povo não luta para trocar um senhor por outro. Luta para ser dono do seu próprio destino. E é precisamente aqui que reside a grande interrogação do Moçambique contemporâneo: estará o país a caminhar para uma democracia cada vez mais robusta ou para um sistema em que a permanência no poder se tornou um fim em si mesmo?
A FRELIMO, enquanto partido que governa o país desde a independência, deve aceitar uma verdade elementar: o tempo transforma feitos históricos em responsabilidade política. Quem governa durante décadas deixa de poder explicar os problemas do presente apenas com os erros do passado. Chega um momento em que as dificuldades acumuladas pertencem integralmente a quem continua a dirigir o Estado.
Hoje, muitos moçambicanos olham para o país com uma mistura de frustração e resignação. A pobreza persiste. O desemprego continua elevado. O custo de vida cresce. Os jovens terminam a escola sem perspectivas claras. Famílias inteiras vivem numa permanente luta pela sobrevivência. Em demasiados casos, o talento deixou de ser visto como caminho seguro para o progresso, enquanto cresce a percepção de que proximidade ao poder, influência e redes de interesses abrem portas que permanecem fechadas ao cidadão comum. Mesmo quando essa percepção não corresponde integralmente à realidade, ela corrói a confiança nas instituições e enfraquece a coesão nacional.
A saúde pública representa um dos rostos mais dolorosos desta crise. Profissionais do sector têm denunciado repetidamente carências de medicamentos, equipamentos, consumíveis, recursos humanos e melhores condições de trabalho. Hospitais sobrecarregados, filas intermináveis e dificuldades de atendimento afectam diariamente milhares de cidadãos. Cada atraso na resposta a problemas estruturais tem consequências humanas. Quando um sistema de saúde deixa de oferecer respostas adequadas aos mais vulneráveis, o preço não se mede apenas em estatísticas, mas em sofrimento evitável.
Na educação, os desafios permanecem igualmente profundos. Há escolas sem condições básicas, turmas numerosas, falta de professores e infra-estruturas insuficientes. Professores continuam a reclamar melhores condições laborais e maior valorização profissional. Uma nação que não investe de forma consistente na educação compromete a qualidade da sua democracia, da sua economia e da sua capacidade de inovar. Não há discurso patriótico que substitua uma sala de aula equipada, um professor motivado e um aluno com reais oportunidades de aprender.
Enquanto isso, uma geração inteira cresce observando um país rico em recursos naturais, mas onde a prosperidade continua distante para muitos. Essa contradição alimenta um sentimento perigoso: o de que o futuro será sempre melhor para poucos do que para todos. Nenhuma sociedade permanece estável quando a esperança deixa de ser um projecto colectivo.
Também a vida política inspira preocupação. Uma democracia vive do debate, da crítica e da alternância de ideias. Sempre que surgem denúncias de intimidação, violência política, restrições ao espaço cívico ou preocupações sobre a liberdade de expressão, o Estado tem o dever de responder com transparência, respeito pela lei e garantia dos direitos fundamentais. A confiança dos cidadãos depende da certeza de que todos podem participar da vida pública sem medo.
Outro tema incontornável é a actuação das forças de defesa e segurança em contextos de protesto social. Em qualquer Estado democrático, a manutenção da ordem pública deve ser acompanhada por critérios de legalidade, necessidade e proporcionalidade. Sempre que existam alegações credíveis de uso excessivo da força ou de mortes de civis, é indispensável que haja investigações independentes e responsabilização quando forem identificadas violações. A autoridade do Estado fortalece-se quando actua dentro da lei, não quando se afasta dela.
A sucessão de greves, paralisações, reivindicações e manifestações em diferentes sectores da sociedade não deve ser interpretada apenas como um problema de disciplina administrativa. É, acima de tudo, um sinal de desgaste da relação entre Estado e cidadãos. Quando médicos, professores, funcionários públicos e outros trabalhadores recorrem repetidamente ao protesto para fazer ouvir as suas preocupações, isso revela problemas estruturais que exigem diálogo e soluções, não apenas gestão de crises.
Paralelamente, continuam a surgir debates públicos sobre corrupção, tráfico de influências e transparência na gestão dos recursos públicos. Casos de grande repercussão relacionados com o crime organizado, incluindo apreensões significativas de droga em território nacional, reforçam a necessidade de instituições fortes, independentes e capazes de investigar todos os envolvidos, sem distinções. Quanto maior a confiança na imparcialidade das instituições, maior será a confiança dos cidadãos no próprio Estado.
Talvez o maior problema de Moçambique não seja apenas económico. É moral e institucional. Quando um cidadão deixa de acreditar que a lei protege igualmente todos, instala-se uma crise silenciosa que nenhum indicador macroeconómico consegue esconder. Um Estado existe para servir a República; nunca para ser confundido com um partido, um grupo ou uma geração política.
A FRELIMO desempenhou um papel histórico incontornável na luta pela independência. Esse facto merece reconhecimento. Mas precisamente por isso deveria ser a primeira a compreender que nenhuma legitimidade histórica substitui a necessidade permanente de prestar contas. A autoridade conquistada no passado não dispensa a responsabilidade no presente.
O patriotismo não consiste em evitar críticas ao Governo. Consiste em colocar o interesse nacional acima de qualquer conveniência política. Amar Moçambique é exigir melhores hospitais, melhores escolas, instituições mais credíveis, uma economia mais inclusiva e um ambiente político em que a divergência seja tratada como parte da democracia, e não como um obstáculo.
Chegou o momento de reconhecer que governar durante décadas implica aceitar um nível proporcional de responsabilidade pelos resultados alcançados. Os cidadãos não pedem perfeição. Pedem honestidade, competência, transparência e capacidade de corrigir erros. Pedem um Estado que funcione para todos e não apenas para quem está mais próximo dos centros de decisão.
A pergunta que dá título a este Cartão Amarelo permanece, por isso, em aberto: quanto custou a libertação do país? Não apenas em vidas perdidas na luta, mas também em expectativas adiadas, oportunidades desperdiçadas e gerações que continuam à espera de um futuro compatível com o potencial de Moçambique. E quantas pessoas devem morrer, quantas vidas devem se degradar pela divida histórica de libertação?
A história não será simpática com os heróis da libertação e nem com a nova geração de seguidores que se tornou perigosamente mais gananciosa que seus mentores. Não é apenas pelo que prometeram e se esqueceram, mas sobretudo pelo presente envenenado que entregaram ao povo. A independência foi uma conquista extraordinária, mas preservar a mesma passa por garantir instituições fortes e uma vida digna para os cidadãos. É esse compromisso que deviam manter com o presente, e não apenas na memória do passado e não há duvidas que esta é a formula para o calculo da verdadeira grandeza de qualquer projecto político.
Este é, por isso, um Cartão Amarelo dirigido ao Governo: um alerta de que a confiança pública precisa de ser reconquistada com resultados, diálogo, responsabilidade e respeito pelas instituições. Porque nenhum país vive apenas das glórias da sua história. Vive, acima de tudo, da forma como trata os seus cidadãos no presente e da esperança que consegue oferecer para o futuro.

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