"Peixe e Mar" - Nosso Pão e Vida

Numa altura em que a sobre pesca, a poluição e as alterações climáticas ameaçam a costa moçambicana, o investigador e especialista em recursos marinhos, Dr. Atanásio Brito, defende uma visão clara: a segurança alimentar do país não se resolve apenas nos campos, mas também no mar. Em entrevista ao nosso jornal, o autor do artigo "Segurança Alimentar em Moçambique começa com comunidades costeiras capacitadas" explica por que razão capacitar os pescadores artesanais e proteger o ecossistema marinho é uma questão de sobrevivência nacional.

Acompanhe a entrevista abaixo com Dr. Atanásio Brito e conduzida por Alexandre Mabasso.

J&B: O peixe representa cerca de 50% da proteína animal que os moçambicanos consomem. Porque é que este dado é tão relevante para a segurança alimentar?

AB: Este número revela a dependência profunda do país em relação ao mar. Para as famílias costeiras e rurais, o peixe não é um complemento; é a principal fonte de proteína acessível. Para além das proteínas, fornece vitaminas e gorduras essenciais para o desenvolvimento infantil e a saúde materna. Quando protegemos os recursos pesqueiros, não estamos apenas a salvar uma espécie, estamos a salvar a saúde, o emprego e o sustento de milhares de moçambicanos.

JP&B: Há um conflito claro entre a pesca artesanal e a industrial. Enquanto os grandes barcos esgotam o mar, o pequeno pescador não consegue ir para alto-mar. Qual deve ser a prioridade do Governo?

AB: A prioridade não deve ser simplesmente empurrar o artesanal para o alto-mar, pois isso seria arriscado sem embarcações seguras, motores, combustível e formação. A chave está em três eixos: fiscalização rigorosa para impedir que a indústria invada as zonas proibidas; combate à pesca ilegal e ao uso de artes destrutivas; e recuperação dos habitats (mangais e recifes) onde o peixe se reproduz. Além disso, o pescador artesanal precisa de mais do que capturar peixe; precisa de gelo, crédito e mercados para que um peixe bem conservado gere mais rendimento, sem aumentar a pressão sobre o oceano.

JP&B: Muita gente associa a poluição do Oceano Índico ao aquecimento global e à intensidade dos ciclones. Esta relação é directa?

AB: Não é directa, mas é perigosa. A poluição por plásticos e esgotos não causa o aquecimento global (isso deve-se aos gases de efeito estufa), mas enfraquece os ecossistemas que nos protegem, como mangais e recifes. Por outro lado, o aquecimento global torna o oceano mais quente, e essa energia extra alimenta ciclones mais intensos e chuvosos. Quando juntamos a destruição ambiental com o clima mais agressivo, as comunidades costeiras ficam duplamente vulneráveis.

JP&B: A União Europeia alerta para o excesso de plástico nos oceanos. Se o peixe ingere esse plástico, os microplásticos chegam ao nosso prato? Devemos preocupar-nos?

AB: Sim, essa possibilidade é real. Os plásticos degradam-se em microplásticos que são ingeridos por peixes e mariscos. Embora a maior parte fique no aparelho digestivo (que retiramos), o risco é maior em espécies consumidas inteiras, como camarões ou mexilhões. A Organização Mundial da Saúde considera este um contaminante emergente, mas os benefícios do consumo de peixe ainda superam os riscos conhecidos. A solução está na origem: reduzir o uso de plásticos descartáveis, melhorar o tratamento de resíduos e responsabilizar a indústria, em vez de penalizar o consumidor de peixe.

JP&B: Diz-se que o oceano é o "regulador do clima". Como funciona esse mecanismo e o que significa para Moçambique?

AB: O oceano é o grande ar condicionado do planeta. Ele absorve calor e dióxido de carbono, distribui temperatura através das correntes e é a principal fonte de chuva para os continentes. O que acontece no mar afecta a agricultura e os rios no interior do país. No entanto, este serviço tem um custo: ao absorver tanto CO2, o oceano torna-se mais ácido e perde oxigénio, afetando os corais e os peixes. Proteger o oceano é, portanto, proteger o sistema climático que garante a nossa própria existência.

JP&B: Alguns especialistas dizem que o peixe criado em tanques (aquacultura) é mais seguro do que o peixe capturado no mar. Concorda?

AB: Não se pode generalizar. A segurança depende do maneio, não da origem. Um peixe de tanque pode ser seguro se tiver água de qualidade e ração controlada, mas pode ser perigoso se houver excesso de animais ou uso indevido de medicamentos. O peixe do mar é saudável se for de águas limpas e bem conservado. Em Moçambique, a aquacultura tem um potencial enorme, mas deve ser feita com regras ambientais rigorosas, evitando a destruição de mangais e a poluição da água.

JP&B: Deixe uma mensagem final sobre o futuro do mar em Moçambique.

AB: A minha mensagem é simples: o mar pode alimentar-nos por gerações, mas apenas se cuidarmos dele hoje. Não basta pedir às comunidades que conservem; é preciso dar-lhes direitos, conhecimento e meios de fiscalização. Precisamos de reconhecer o papel vital das mulheres na cadeia de valor do pescado. A segurança alimentar começa no mar, mas inclui conservar o peixe, reduzir perdas e garantir preços justos. O oceano não é inesgotável. É como uma machamba: se só retirarmos e nunca cuidarmos, um dia deixará de produzir. Se protegermos os locais de reprodução e combatermos a pesca ilegal, o mar continuará a ser o nosso maior aliado.

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