
O académico e investigador da Universidade Eduardo Mondlane, Osvaldo Das Neves, afirmou, em participação num programa televisivo, que Moçambique tem sistematicamente marginalizado os seus melhores intelectuais e alimentado uma cultura de “lambebotismo” que considera o maior cancro para a nação. Criticando a nomeação do Reitor pelo Chefe de Estado e a partidarização do pensamento, o pesquisador alertou que o país precisa de combater a traição aos propósitos da pátria, e não os cérebros que produzem ciência e inovação.
Foi com um tom de indignação e lucidez crítica que o conceituado académico e pesquisador da Universidade Eduardo Mondlane, Osvaldo Das Neves, participou, num programa televisivo, numa reflexão profunda sobre o actual estado da nação moçambicana. Para o investigador, o País tem sistematicamente marginalizado os seus melhores cérebros, num padrão que, segundo ele, remonta aos tempos dos primeiros heróis da independência.
De acordo com Osvaldo Das Neves, a lista de intelectuais e líderes visionários que foram silenciados ou assassinados é extensa e dolorosa: desde o próprio fundador da FRELIMO, Eduardo Chivambo Mondlane, passando por Siba-Siba Macuacua, até Samora Moisés Machel, entre outros. Para o académico, essa sucessão de perdas não foi um mero acaso, mas sim um reflexo de uma cultura política que teme o pensamento livre e a inovação.
“Ficamos aqui a nos enganar e a alimentar os lambe-botas, afirmou, referindo-se àqueles que, em sua visão, se curvam ao poder em troca de favores e regalias. E acrescentou, com veemência: “Esse lambebotismo é o maior cancro para esta nação”.
Dirigindo-se directamente aos governantes, o pesquisador alertou: “Se estão a me ouvir, combater o Osvaldo Das Neves não é a solução. Pelo contrário, os que devem ser combatidos, em Moçambique, não são os cérebros, nem os que dão as melhores aulas nas universidades ou produzem artigos científicos de excelência. Deviam, sim, ser combatidos aqueles que traem os propósitos da pátria para satisfazer, de forma urgente, as suas necessidades pessoais, no âmbito do lambebotismo”.
Para Das Neves, o grande desafio que o País enfrenta é o predomínio das “mentes partidarizadas”. Ou seja, quando alguém produz ideias inovadoras ou apresenta propostas, a primeira preocupação é saber qual a sua cor partidária — o que, na sua opinião, é profundamente errado e limitador.
A título de exemplo, o académico partilhou a sua própria experiência burocrática: “Eu, que estou aqui a falar, tenho um documento há mais de três meses numa repartição pública e, até agora, não foi despachado. Suspeito que haja uma orientação vinda do nível mais alto. Qual é o meu pecado? É porque sou cérebro? Por ter sido um estudante competente e ter um projecto brilhante?”.
Com estas palavras, o investigador deixou claro que Moçambique possui intelectuais e cientistas capazes de produzir resultados transformadores para salvar a pátria. No entanto, lamentou que, em muitos espaços de decisão, prevaleçam indivíduos cujo único objectivo é “satisfazer os seus problemas estomacais”, em detrimento do bem comum e do desenvolvimento sustentável do País.

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