Moçambique afirma liderança cultural e criativa na 8.ª edição do LUJU festival

A presença de Moçambique na 8.ª edição do Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival, realizada nos dias 1 e 2 de Agosto, no emblemático recinto de House On Fire, em Malkerns, Eswatíni, voltou a demonstrar que a relação entre os dois países ultrapassa a proximidade geográfica e os laços históricos, afirmando-se hoje como uma parceria estratégica para o fortalecimento da cultura, do turismo e das indústrias criativas da África Austral.

Sob o lema "Um Regresso ao Futuro Africano" A Return to the African Future, o festival reuniu mais de dez mil visitantes provenientes de diversos cantos do mundo, numa celebração que fez da gastronomia, da moda, da música e das tradições africanas instrumentos para repensar o futuro do continente a partir do seu património cultural.

A edição de 2026 propôs uma reflexão sobre a recuperação dos conhecimentos pré-coloniais, valorizando as formas africanas de produzir, vestir, alimentar-se e criar. Ao longo de dois dias, o público foi convidado a revisitar práticas ancestrais como inspiração para uma África contemporânea, inovadora e culturalmente soberana.

O festival foi oficialmente inaugurado pelo Primeiro-Ministro do Reino de Eswatíni, Russell Mmiso Dlamini, numa cerimónia que reuniu representantes governamentais, patrocinadores, parceiros internacionais e dirigentes de instituições culturais de Moçambique, África do Sul, Botswana e Zimbabwe.

A abertura incluiu uma visita guiada ao recinto conduzida pelo Director-Geral do Festival, Jiggs Thorne, durante a qual foram apresentados os diferentes espaços que fazem do Luju um dos maiores festivais de "food & lifestyle" do continente africano.

Mais do que um festival de entretenimento, o Luju consolidou-se como uma plataforma de diplomacia cultural, desenvolvimento económico e promoção do turismo regional.

A participação moçambicana revelou-se uma das mais abrangentes de toda a programação.

Desde a moda à música, passando pela produção técnica, pelas instituições públicas e pelos operadores culturais, Moçambique esteve presente em praticamente todos os sectores estratégicos do evento.

No palco dedicado à moda, os estilistas King Levy e Lizete Chirime inauguraram as apresentações com colecções inspiradas no tema da edição, destacando-se a proposta Ndomba, assinada por King Levy, que reinterpretou elementos identitários africanos através de uma linguagem contemporânea, demonstrando como a moda pode funcionar como veículo de preservação da memória colectiva.

Ao longo do recinto, centenas de expositores participaram na feira gastronómica, mercado de artesanato, espaços de vinhos, demonstrações culinárias, programas infantis e experiências ligadas ao património alimentar africano, numa programação que procurou integrar diferentes dimensões da cultura.

Um dos momentos mais simbólicos da programação musical foi protagonizado pelo Ka-tembe connexion, projecto que reúne artistas moçambicanos e swazis numa proposta artística que cruza sonoridades tradicionais dos dois países.

A fusão entre Marrabenta, Xigubo, harmonias corais, percussão corporal e ritmos ancestrais transformou o espetáculo numa celebração das raízes comuns dos povos da região.

Mais do que uma actuação musical, o concerto representou a continuidade das ligações históricas entre Moçambique e Eswatíni, marcadas por relações familiares, comerciais, linguísticas e culturais que atravessam gerações.

Um dos pontos altos do festival foi a actuação da cantora moçambicana Neyma, que subiu ao palco principal empunhando a bandeira nacional ao som de "Xitilu Xa Neyma", gesto que foi recebido com entusiasmo por milhares de espectadores.

Ao longo do espectáculo interpretou alguns dos seus maiores sucessos, entre os quais "A Hi Dzimene", "Lirandzu" e outras composições que encerraram numa celebração da Marrabenta.

Em entrevista concedida durante o festival, a artista explicou que a preservação da identidade africana constitui um dos pilares do seu trabalho.

"Eu celebro esta herança africana através das minhas composições. Um dos maiores exemplos é 'A Hi Dzimene' e tantas outras canções. Canto em Xangana precisamente para preservar a nossa herança."

Neyma destacou igualmente a forte receptividade do público internacional. "Percebi que o nosso país é conhecido internacionalmente. Durante a actuação vi uma enorme legião de pessoas a cantar e a dançar, incluindo muitos que nunca me tinham visto actuar."

A cantora fez ainda questão de valorizar outro aspecto frequentemente invisível ao grande público: o papel desempenhado pelos profissionais moçambicanos responsáveis pela componente técnica do festival.

Se os artistas levaram Moçambique aos palcos, foi nos bastidores que o país voltou igualmente a afirmar a sua capacidade técnica.

Grande parte da infra-estrutura do palco principal foi assegurada por uma empresa e técnicos moçambicanos, incluindo sistemas de som, iluminação, geradores, ecrãs LED, montagem do palco e equipas de apoio operacional.

Este trabalho foi executado pela empresa Logaritmo, conhecida no sector igualmente pela marca Marrabenta, responsável há vários anos pela componente técnica do festival.

Segundo Paulo Sitoe, conhecido no sector como Litho, esta parceria representa uma relação construída desde as primeiras edições.

"O Luju tornou-se uma escola para todos nós. Cada experiência adquirida aqui é aplicada posteriormente em Moçambique, nomeadamente na realização do Festival Marrabenta e de outros grandes eventos. A qualidade continua a ser o nosso maior compromisso."

A consistência desta colaboração demonstra que Moçambique já não exporta apenas artistas, mas também conhecimento técnico especializado capaz de responder aos padrões internacionais de produção de grandes espetáculos.

O segundo dia começou com uma sessão de networking que reuniu programadores culturais, festivais e representantes governamentais de Moçambique, Eswatíni, África do Sul, Botswana, Lesotho e Zimbabwe.

Durante o encontro foram discutidas oportunidades de circulação artística, intercâmbio cultural e criação de redes permanentes entre festivais da África Austral.

Em representação de Moçambique, o Director Nacional de Artes e Cultura, Ivan Bonde, apresentou o panorama dos principais festivais nacionais, sublinhando o seu papel enquanto instrumentos de valorização cultural e promoção turística.

Na sua intervenção destacou iniciativas realizadas em diferentes províncias do país, entre elas os festivais do Wimbe, em Cabo Delgado; Xigubo, em Matutuíne; Timbila e Tofo, em Inhambane; Zalale, na Zambézia, culminando com a Bienal Nacional de Cultura.

A apresentação permitiu posicionar Moçambique como um dos países da região com maior diversidade de festivais culturais distribuídos pelo território nacional.

Entre os momentos mais marcantes estiveram os espetáculos de homenagem a Abdullah Ibrahim, através do projecto The Kyle Shepherd Xahuri Trio Plays the Music of Abdullah Ibrahim, e a Hugh Masekela, protagonizada pela Masekela Band.

O cartaz integrou ainda actuações de Ka-tembe connexion, Neyma, Fela Kuru, Liquideep e Zakes Bantwini, encerrando o festival com uma forte celebração da diversidade musical africana.

A participação moçambicana na edição de 2026 demonstrou que a relação entre Moçambique e Eswatíni continua profundamente enraizada na história comum dos dois povos.

As ligações construídas ao longo de décadas — através da circulação de pessoas, do comércio, da música, das línguas e das tradições — continuam hoje a traduzir-se em novas formas de cooperação económica e cultural.

No Luju, essa relação tornou-se visível não apenas através da presença dos artistas moçambicanos, mas igualmente pelo contributo das instituições públicas, dos operadores culturais, das empresas técnicas e dos profissionais que asseguraram o funcionamento de um dos mais prestigiados festivais da África Austral.

Num momento em que o continente procura construir um futuro sustentado na valorização do seu património, Moçambique voltou a afirmar-se como um parceiro incontornável da integração cultural regional, demonstrando que a exportação de talento, conhecimento técnico e criatividade pode ser um dos mais sólidos instrumentos de diplomacia cultural e de desenvolvimento económico. Mais do que participar no Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival, Moçambique ajudou, uma vez mais, a construir o próprio festival.

 

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