Moçambicanos deixam tudo para trás para escapar à onda de xenofobia na África do Sul

A crescente onda de violência xenófoba na África do Sul continua a afectar centenas de cidadãos moçambicanos, muitos dos quais estão a regressar ao país em condições precárias, depois de terem sido obrigados a abandonar casas, empregos, negócios e bens acumulados ao longo de vários anos de trabalho.

No posto fronteiriço de Ressano Garcia, o movimento de entrada de moçambicanos tem vindo a aumentar nas últimas semanas. Homens, mulheres e crianças chegam carregando apenas algumas malas e, em muitos casos, apenas a roupa que trazem vestida. O regresso acontece num contexto marcado pelo medo, pela insegurança e pela incerteza quanto ao futuro.

Entre os repatriados encontram-se cidadãos que viviam há mais de uma década na África do Sul. Muitos afirmam que construíram a sua vida naquele país, investiram em pequenos negócios, adquiriram bens e sustentavam familiares em Moçambique através das remessas enviadas regularmente. Contudo, perante as ameaças e os episódios de violência dirigidos contra estrangeiros africanos, viram-se obrigados a abandonar tudo para preservar a própria vida.

"Deixei a minha casa, os móveis e o pequeno negócio que tinha. Não consegui vender nada nem levar os meus bens. Saí apenas com os meus filhos porque temíamos ser atacados", contou um dos cidadãos regressados à província de Maputo.

Outro moçambicano relatou que viveu durante mais de 12 anos na África do Sul e nunca imaginou regressar nestas circunstâncias. "Trabalhei muitos anos para construir alguma estabilidade, mas hoje volto sem nada. O mais importante era salvar a minha família", afirmou.

As autoridades moçambicanas acompanham a situação através dos serviços de migração e de assistência social, procurando prestar apoio aos cidadãos que regressam ao país. No entanto, os desafios de reintegração continuam a ser significativos, sobretudo para aqueles que perderam as suas fontes de rendimento e regressam sem meios para reconstruir a vida.

Organizações da sociedade civil têm igualmente manifestado preocupação com o agravamento da situação, apelando ao reforço da protecção dos direitos dos migrantes e à adopção de medidas que garantam a segurança das comunidades estrangeiras residentes na África do Sul.

Especialistas alertam que a xenofobia não afecta apenas as vítimas directas dos ataques, mas também as famílias que dependem do apoio financeiro enviado pelos emigrantes. O fenómeno acaba por gerar impactos económicos e sociais tanto nos países de acolhimento como nos países de origem.

Enquanto aguardam por soluções mais duradouras, muitos dos moçambicanos que regressam enfrentam o desafio de recomeçar do zero. Alguns procuram apoio junto de familiares, enquanto outros tentam encontrar novas oportunidades de emprego para reconstruir as suas vidas.

A situação continua a ser acompanhada com preocupação pelas autoridades dos dois países, numa altura em que se multiplicam os apelos ao respeito pela dignidade humana, à convivência pacífica e à protecção dos direitos dos cidadãos migrantes em toda a região da África Austral.

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