
Desde a independência nacional, Moçambique convive com um paradoxo sanitário: oficialmente, o país não possui aterros sanitários devidamente estruturados, mas sim "locais de deposição de resíduos" sem qualquer critério técnico ou ambiental. Esta realidade torna-se mais evidente na capital, Maputo, onde as antigas lixeiras de Hulene e Malhapswene se transformaram em verdadeiros mercados paralelos de produtos impróprios para o consumo.
Durante a reportagem que realizamos no âmbito do exercício ambiental nestes locais, ficou claro que os catadores de lixo têm acesso livre e irrestrito a todo o tipo de resíduos. Entre os materiais recolhidos, destacam-se produtos vencidos ou fora do prazo de validade, como é o caso das patinhas de frango e outros alimentos perecíveis.
O mais alarmante é que, por caminhos paralelos, estes produtos regressam ao circuito comercial e são vendidos à população como se estivessem em perfeitas condições. Assim sendo, todo o lixo depositado nestes aterros informais acaba, por outras vias, a voltar para as nossas casas.
Consequentemente, a saúde pública fica severamente comprometida, uma vez que não existe qualquer restrição ou fiscalização eficaz naqueles espaços. A falta de controle permite que animais infectados sejam abatidos e comercializados ali mesmo, à porta da lixeira, a preços apetecíveis – um negócio que ignora por completo os riscos biológicos e toxicológicos para a vida humana.
De acordo com uma fonte que acompanhou a nossa equipa, “Moçambique não tem lixeiras, mas sim lugares considerados possíveis destinos de lixo”. Isto porque, segundo a mesma fonte, os resíduos deveriam obedecer a uma hierarquia rigorosa: seriam segregados, classificados e encaminhados de acordo com o nível de perigo que representam para a sociedade.
Contudo, na prática, nada disso acontece. Os locais deviam estar vedados e preparados para impedir a entrada de qualquer indivíduo, sob pena de se assistir à pouca vergonha de ver comida estragada a ser reabilitada para o consumo.
Perante este cenário, torna-se urgente que o Governo adopte medidas estruturais. Para além da construção de aterros controlados, defende-se a introdução de cadeiras escolares dedicadas ao ensino de questões ambientais, desde os primeiros anos de escolaridade. A educação ambiental é vista como a chave para consciencializar a sociedade e quebrar este ciclo vicioso que transforma o lixo numa ameaça silenciosa, mas fatal, para todos os moçambicanos.
Enquanto isso não acontece, o lixo continua a viajar – dos contentores improvisados para os carrinhos de mão, dos carrinhos para as bancas dos mercados e, finalmente, para a mesa do cidadão. Um percurso que devia ser interdito, mas que, infelizmente, se tornou rotina.

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