Comerciantes da Av. Julius Nyerere reféns de assaltos que se intensificaram após as manifestações

O que era um problema recorrente transformou-se num pesadelo diário. Comerciantes da Avenida Julius Nyerere, uma das principais vias de acesso ao centro da Cidade de Maputo, vivem sob constante estado de alerta devido à escalada de assaltos que, segundo eles, se agravou significativamente após as manifestações pós-eleitorais. Entre a fraca iluminação pública, a patrulha policial insuficiente e a suspeita de cumplicidade com moradores de bairros vizinhos, os comerciantes veem os seus negócios ameaçados e os clientes desaparecerem.

Ao longo da Avenida Julius Nyerere, o movimento durante o dia é intenso. Carros, peões e clientes que entram e saem das lojas criam a ilusão de uma artéria comercial vibrante. Mas, quando o sol se põe, o cenário muda radicalmente – e o medo toma conta.

Os comerciantes da via, uma das mais estratégicas para o acesso ao centro da capital, denunciam uma vaga crescente de assaltos que tem transformado a sua fonte de sustento num campo de risco. A queixa é unânime: os roubos não são novos, mas atingiram níveis desesperadores desde as últimas manifestações pós-eleitorais.

A falta de iluminação pública adequada, a patrulha deficiente por parte da Polícia de Proteção e a possível conivência de moradores de conduta duvidosa dos bairros circunvizinhos são apontados como os principais factores que favorecem a acção dos criminosos. Há ainda quem suspeite que os assaltantes contam com informações vindas de dentro das próprias comunidades, o que dificulta ainda mais o trabalho das autoridades.

Para Sheila Muianga, cabeleireira, a situação já saiu do controlo. Ela conta que foi vítima de dois assaltos no ano em curso, mas o que mais a preocupa é a mudança no modus operandi dos ladrões. "Os roubos já aconteciam há bastante tempo, mas depois das manifestações pioraram. Agora os ladrões vêm de dia, fingem ser clientes, mas na verdade estão a sondar o local para voltarem à noite. Tornou-se complicado trabalhar neste local", desabafou.

O senhor Hilário (nome fictício), que prefere não se identificar por receio de represálias, diz que já não se sente seguro nem durante o dia. "Vezes sem conta, chegaram clientes aqui, supostamente à procura de produtos como os que estou a vender. Mas, numa distracção, pediam trocos aos vizinhos e, quando eu dava conta, algumas coisas já tinham desaparecido. O tal cliente também sumia e eu ficava sem a quem responsabilizar", relatou.

Morador do bairro de Laulane e trabalhador na avenida, o senhor Mário testemunha o silêncio cúmplice da noite. "Eu vivo aqui mesmo à beira da estrada. Por vezes saio a altas horas, mas nunca consigo ver ninguém a roubar, muito menos a polícia a circular. Durante o dia, são muitos os que andam de um lado para o outro, aparentemente inofensivos. Mas ao amanhecer, é sempre a mesma dor: ouço os vizinhos a chorar porque as suas lojas foram assaltadas", contou.

O impacto já se faz sentir nas carteiras e no ânimo dos comerciantes. Muitos desistem e procuram lugares mais seguros, enquanto os que resistem veem a clientela diminuir dia após dia. "Perdemos muitos clientes por causa dessa situação", lamentou o senhor Mário.

Enquanto as queixas se acumulam, os comerciantes apelam por uma intervenção urgente das autoridades – mais iluminação, patrulhas nocturnas efectivas e investigação aprofundada para desmantelar as redes que alimentam este ciclo de violência e impunidade. Até lá, a Avenida Julius Nyerere continua a ser, para muitos, uma via de mão dupla: de esperança durante o dia e de desespero quando a noite cai.

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