
“Não Haverá Justiça numa sociedade onde as Leis são desenhadas por criminosos”
As instituições públicas não são avaliadas apenas pela extensão das competências que a lei lhes atribui, mas sobretudo pela confiança que conseguem inspirar na sociedade que servem. Essa confiança constitui um património de natureza política e moral, construído lentamente através da coerência, da imparcialidade, da transparência e da capacidade de prestar contas. Quando uma instituição como a COTE assume responsabilidades particularmente sensíveis para a vida pública, cresce igualmente a expectativa de que a sua actuação seja não apenas legalmente correcta, mas também insuficientemente clara para responder aquilo que é o mote para a sua criação e o descontentamento dos cidadãos perante a COTE sugere que estes compreendem a mesma como um mecanismo vazio e pouco claro se olharmos os critérios que orientam as suas bases de analise.
É neste contexto que a ideia de um «cartão amarelo» deve ser entendida. Não se trata de uma condenação nem de um juízo definitivo sobre a COTE, mas antes de uma metáfora que exprime a necessidade de reflexão institucional. Tal como no desporto, o cartão amarelo representa um aviso para corrigir procedimentos antes que se comprometa a confiança de quem acompanha o jogo. Transportada para a esfera pública, essa imagem sugere a importância de aperfeiçoar práticas de comunicação, de reforçar mecanismos de transparência e de consolidar uma cultura de responsabilidade perante os cidadãos.
Precisamos contudo, compreender que nas democracias contemporâneas, a legitimidade institucional deixou de depender exclusivamente da observância das normas jurídicas ou de narrativas românticas. Embora o respeito pela lei permaneça indispensável, a percepção pública acerca da independência, da imparcialidade e da abertura das instituições tornou-se igualmente determinante sendo que a melhoria no acesso a informação e as tecnologias colocam os cidadãos comuns em posições privilegiadas diante dos governantes demandando a estes uma profunda prestação de contas e um escrutínio rigoroso sobre suas acções. Em suma, é razoável considerar que a confiança dos cidadãos em relação aos seus governantes não resulta apenas daquilo que é feito; resulta também da forma como as decisões são explicadas, justificadas e submetidas ao escrutínio público.
A COTE, pela natureza das funções que desempenha, encontra-se inevitavelmente sujeita a esse escrutínio e embora inicialmente percebida como pertinente, na ultima fase de suas actividades tem sido alvo de importantes dúvidas ou questionamentos na sociedade, e esta claro que a resposta mais eficaz para esta dissonância consiste em fortalecer os canais de esclarecimento, divulgar informação de forma acessível e demonstrar, com serenidade e rigor, os fundamentos das opções adoptadas e envolver mais actores, sendo que a despartidarização dos debates deve ser perceptível e escurtinavel. Essas medidas por si só, não são suficientes enquanto faltar a vontade genuína dos organizadores de encontrar consensos que contribuam para a reduzir as profundas clivagens sociais e reformular a relação entre os cidadãos e as instituições como parte de um amplo projecto que visa reestruturar os alicerces da cidadania que vem se deteriorando nos últimos tempos. Uma instituição segura da sua actuação não vê o escrutínio como uma ameaça, mas como parte integrante do processo democrático e como oportunidade para reforçar a sua credibilidade.
Importa reconhecer que a comunicação institucional deixou de ser uma actividade secundária, sendo que num contexto marcado pela rápida circulação de informação, a ausência de esclarecimentos pode favorecer interpretações divergentes e alimentar percepções de distanciamento entre as instituições e os cidadãos. Mesmo quando os procedimentos observados respeitam integralmente a lei, a insuficiência de explicações públicas pode afectar a confiança, precisamente porque a legitimidade também se constrói através da compreensão social das decisões.
Outro aspecto relevante prende-se com a prestação de contas. Este princípio não significa que as instituições devam justificar cada acto perante a opinião pública de forma permanente; significa, antes, que devem cultivar uma cultura de abertura, disponibilizando informação, respondendo às preocupações relevantes e criando condições para que os cidadãos compreendam o exercício das suas atribuições. Está claro que neste requisito a COTE responde a um sistema montado que aliás obedece a lógica da administração da justiça fortemente partidarizada e minada pelo sistema político. A COTE esqueceu que uma administração pública transparente tende a fortalecer a confiança e a reduzir espaços para especulações e dúvidas desnecessárias, agindo no sentido contrário, como uma caixa de ressonância, uma forma subtil do governo e do partido que o sustente de resgatar a confiança perdida e justificar uma aparente mudança constitucional que os favoreça sob pretexto de um hipotético consenso nacional forjado nas inúteis auscultações pelo território nacional.
Ao mesmo tempo, importa evitar que a crítica institucional seja confundida com hostilidade. Em qualquer Estado de Direito consolidado, a crítica fundamentada constitui um elemento normal da vida democrática. Ela permite identificar fragilidades, incentivar melhorias e promover uma cultura de aperfeiçoamento contínuo. Instituições robustas não se definem pela ausência de críticas, mas pela capacidade de responder a elas com serenidade, rigor técnico e compromisso com o interesse público.
Por conseguinte, o verdadeiro significado deste «cartão amarelo» reside no apelo ao fortalecimento das boas práticas institucionais. Quanto maior for a relevância das funções exercidas por uma entidade pública, maior deverá ser a exigência de transparência, imparcialidade, responsabilidade e comunicação. Estes valores não diminuem a autoridade das instituições; pelo contrário, constituem o fundamento da sua legitimidade perante a sociedade.
Em última análise, o prestígio de qualquer instituição pública depende da relação de confiança que consegue estabelecer com os cidadãos. Essa confiança renova-se diariamente através da consistência das decisões, da clareza dos procedimentos, do respeito pelos princípios do Estado de Direito e da disponibilidade para prestar contas. É nesse espírito que uma reflexão crítica pode assumir um papel construtivo: não para fragilizar as instituições, mas para incentivar o seu aperfeiçoamento permanente e contribuir para uma cultura pública cada vez mais assente na transparência, na responsabilidade e na confiança mútua.

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