Cartão Amarelo: As Mentiras da Verdade — O Presidente Chapo e o Diálogo que Nunca Aconteceu

Nenhum Presidente na história de Moçambique tinha ousado lançar - se ao exterior a busca de soluções para o desenvolvimento do país como tem se esgueirado o presidente Chapo, num cenário de quase mendicidade diplomática. Contudo essas viagens desenfreadas não são acompanhadas de uma política externa coerente, sendo que a indefinição abre espaço para varias interpretações e os players internacionais estão muito atentos a essa postura camaleônica. Entretanto, o cartão amarelo desta edição deve - se a postura do Presidente diante de uma realidade que preocupa o mundo, a sua relação com Venâncio Mondlane e o papel deste na estabilização do país. Este cartão surge precisamente num momento em que a distância entre a narrativa política e a realidade se torna demasiado evidente para continuar a ser ignorada. Foi o que aconteceu durante a recente visita do Presidente Daniel Chapo a Portugal, quando, confrontado sobre a relação política com Venâncio Mondlane e sobre a possibilidade de um diálogo directo entre ambos, o Chefe do Estado encontrou-se perante uma questão simples, concreta e do conhecimento de todos os moçambicanos. No entanto, em vez de esclarecer o país e a comunidade internacional sobre o estado real dessa relação, preferiu remeter-se à Comissão Técnica para o Diálogo Nacional (COTE) e ao Conselho de Estado, como se esses mecanismos fossem, por si só, a materialização do diálogo político que continua a faltar. E é precisamente aí que reside a inquietação: porque há momentos em que a forma como um líder responde é tão importante quanto aquilo que efectivamente decide fazer. É difícil compreender a necessidade de se faltar à verdade sobre um assunto cuja realidade é amplamente conhecida. Não existe, até ao momento, qualquer evidência pública de um diálogo político directo entre Daniel Chapo e Venâncio Mondlane. Existem mecanismos institucionais, existem fóruns, existem plataformas e existem iniciativas diversas, mas nenhuma delas substitui aquilo que o país, há muito tempo, espera: uma conversa política séria, frontal e assumida entre actores que representam sensibilidades distintas e que possuem influência real sobre os destinos nacionais. Transformar a COTE ou o Conselho de Estado em sinónimos de diálogo directo é, no mínimo, colocar o boi em frente da carroça, porque antes de se falar de reconciliação, de entendimento ou de inclusão, é necessário reconhecer honestamente que o diálogo ainda não aconteceu nos termos em que a sociedade o reclama.

A pergunta que se impõe é inevitável: porquê esta fuga para a frente? Por que razão insistir numa narrativa que dificilmente resiste aos factos? O que leva um Presidente da República a transmitir ao exterior a ideia de uma aproximação política que, internamente, continua por acontecer? São perguntas legítimas, sobretudo porque Daniel Chapo tem procurado afirmar-se, desde o início do seu mandato, como um líder comprometido com a inclusão, com a escuta e com a construção de consensos. Porém, entre a imagem cuidadosamente construída e as acções concretas, permanece uma contradição que se torna cada vez mais difícil de ignorar. Com demasiada frequência, o discurso oficial continua a obedecer a uma lógica excessivamente partidarizada, incapaz de reconhecer que a crise política e social que o país atravessa possui causas profundas e acumuladas, algumas delas anteriores às manifestações e outras relacionadas com a própria incapacidade das instituições em responder às inquietações dos cidadãos. A insistência em responsabilizar quase exclusivamente os protestos pelo atraso no desenvolvimento económico, pelo abrandamento dos investimentos ou pelas dificuldades do país constitui uma simplificação perigosa, porque ignora deliberadamente os factores estruturais que alimentam a instabilidade e acaba por transformar cidadãos descontentes em bodes expiatórios de problemas muito mais complexos. As manifestações não nasceram por capricho. Não surgiram do nada. Elas resultam de tensões acumuladas, de desconfianças persistentes e de uma percepção crescente de afastamento entre governantes e governados. Ignorar essa realidade não fará com que ela desapareça. Pelo contrário, poderá apenas aprofundá-la. E é precisamente nesse contexto que a recusa em dialogar directamente com actores políticos relevantes deixa de ser um problema partidário para se tornar um risco para a própria coesão nacional. Venâncio Mondlane não pode ser tratado como um actor político irrelevante ou circunstancial. Independentemente das simpatias ou antipatias que desperta, existe uma realidade objectiva que nenhuma narrativa conseguirá apagar: trata-se de uma das figuras políticas mais influentes da actualidade moçambicana. A sua popularidade, a capacidade de mobilização que demonstrou e o capital político que acumulou ao longo de mais de duas décadas de vida pública exigem seriedade na forma como é encarado pelos seus adversários e, sobretudo, pelas instituições do Estado. Os processos de estabilização política raramente se constroem ignorando aqueles que representam parcelas significativas da sociedade. A História demonstra exactamente o contrário. As grandes reconciliações nacionais ocorreram quando os líderes compreenderam que a legitimidade política não pertence exclusivamente a quem governa, mas também àqueles que conseguem mobilizar, representar e interpretar as aspirações de sectores relevantes da população. Negar essa realidade nunca produziu estabilidade; apenas prolongou conflitos.

É por isso que a ausência de diálogo directo preocupa. Não porque o diálogo seja uma solução mágica capaz de resolver todas as divergências, mas porque a sua inexistência impede qualquer possibilidade séria de construção de consensos. A estabilidade política não nasce do silêncio. Não nasce da exclusão. Não nasce da tentativa de reduzir artificialmente a importância de determinados actores. Ela nasce da capacidade de reconhecer diferenças e criar pontes, mesmo quando essas pontes exigem desconforto político.

Entretanto, o Presidente Daniel Chapo continua a percorrer capitais estrangeiras, procurando restaurar a imagem de Moçambique nos círculos económicos e diplomáticos internacionais. É um esforço legítimo e necessário. Nenhum país pode prosperar isolado, e a confiança dos investidores continua a ser importante para o crescimento económico. Contudo, existe uma realidade que não pode ser ignorada: as sociedades civis desses países estão cada vez mais atentas ao desenrolar político moçambicano. Universidades, organizações internacionais, meios de comunicação social e parlamentos acompanham com atenção os acontecimentos do país e formulam perguntas que não desaparecem apenas porque as respostas oficiais procuram contornar os factos.

Quando um Presidente transmite uma versão dos acontecimentos que contradiz aquilo que é amplamente conhecido, o problema deixa de ser apenas interno. Passa a ser também uma questão de credibilidade externa. E a credibilidade é um recurso político extremamente valioso, porque uma vez fragilizada torna-se muito difícil recuperá-la.

A perniciosidade de uma narrativa falsa reside exactamente aí. Ela pode produzir ganhos momentâneos de comunicação política, mas cobra um preço elevado no futuro. Corrói a confiança dos cidadãos, alimenta suspeitas entre os parceiros internacionais e enfraquece a autoridade moral de quem governa. A verdade, por mais desconfortável que seja, continua a ser muito menos onerosa do que a manutenção de versões que os factos insistem em desmentir. Estamos perante uma situação delicada. Quase dois anos depois do início da profunda crise política que abalou o país, Moçambique continua sem alcançar a estabilidade política necessária para uma governação tranquila e previsível. E sem estabilidade política dificilmente existirão condições duradouras para a concretização dos objectivos económicos e sociais que o próprio Presidente afirma perseguir.

É neste contexto que a COTE merece uma reflexão particularmente séria. O que foi apresentado como um instrumento de reconciliação nacional corre o risco de se transformar num embuste político fadado ao fracasso. Não porque o diálogo seja desnecessário, mas porque o processo parece evitar precisamente aquilo que divide os moçambicanos. Em vez de colocar no centro do debate as questões relacionadas com a confiança nas instituições, os processos eleitorais, a credibilidade dos mecanismos de justiça e as razões profundas da polarização política, opta-se por introduzir agendas paralelas, muitas delas revestidas de um discurso aparentemente consensual, mas profundamente marcadas por interesses partidários obscuros e cuidadosamente camuflados.

A sensação que fica é a de um presente envenenado: oferece-se ao país um processo de diálogo, mas evita-se discutir o essencial. E quando o essencial é permanentemente adiado, o resultado dificilmente poderá ser reconciliação. Daniel Chapo ainda tem tempo para corrigir esta trajectória. Nenhum líder é diminuído por reconhecer dificuldades. Nenhum Presidente sai enfraquecido por dizer a verdade. Pelo contrário, é precisamente a capacidade de reconhecer a realidade, por mais incómoda que seja, que distingue a liderança autêntica da simples gestão de narrativas. Moçambique não precisa de um diálogo imaginado. Precisa de um diálogo verdadeiro. Não precisa de uma inclusão proclamada. Precisa de uma inclusão praticada. E não precisa de discursos destinados a convencer o mundo de que tudo está bem quando o próprio país continua à procura da estabilidade que lhe foi prometida. Porque a verdade pode causar desconforto momentâneo, mas a ausência dela tem o poder de comprometer o futuro inteiro de uma nação.

Veja nossas noticas por categoria

Anuncie

aqui

Conversar

Ligue: +258 845 784 731