
Cresce o número de opiniões que corroboram com a ideia de que Moçambique se transformou - se num país que deixou de caminhar rumo ao desenvolvimento para mergulhar perigosamente no retrocesso tenebroso, marcado pela destruição do tecido social e pela desconstrução dos alicerces identitários e de unidade que inspiraram a luta pela libertação. O sentimento dominante nas ruas, hospitais, escolas e mercados já não é apenas de insatisfação, mas de profunda magoa e perca de esperanças diante de um Estado capturado pela incompetência, arrogância política e ausência de visão estratégica de desenvolvimento sustentável ou se quisermos, um desligamento não só ideológico como também discursivo. A cada declaração pública, a cada alvorecer a sociedade estremece e agoniza pois a indiferença mostrada a cada parágrafo, não tem sido para minimizar os efeitos devastadores da miséria.
Sob domínio histórico da FRELIMO, o país regrediu nos ultimo 50 anos a um ritmo exponencial, como se caminhasse para um ponto zero, de onde ensaiaria um novo recomeço. E a cada eleição e presidente eleito, paira a esperança do tal recomeço que parece estar longe de acontecer. Nas mãos da Frelimo, o país vem sendo lentamente transformado num espaço onde a fidelidade partidária vale mais do que competência, onde o fracasso é frequentemente recompensado e onde a pobreza do povo parece já não provocar qualquer desconforto moral às elites governativas. O resultado tornou-se visível em todos os sectores: juventude sem perspectivas, desemprego galopante, custo de vida sufocante, serviços públicos degradados e instituições incapazes de responder às necessidades básicas da população.
Andar para trás não é apenas um recurso estilístico metafórico, é uma realidade concreta, certamente dura de se proferir. É andar para trás quando um país rico em gás natural, carvão, terras férteis e recursos minerais continua incapaz de garantir alimentação digna ao seu povo. É andar para trás quando hospitais deixam de ser locais de esperança e passam a representar sofrimento e abandono. É andar para trás quando escolas produzem diplomas sem qualidade enquanto milhares de jovens licenciados vivem condenados ao desemprego e à informalidade.
O recente episódio da nomeação de Carmelita Namashilua para o cargo de Inspectora-Geral do Estado tornou-se símbolo perfeito da decadência institucional. A sua passagem pelo Ministério da Educação ficou associada a alguns dos episódios mais embaraçosos da administração pública: erros ortográficos escandalosos em exames nacionais, falhas graves de gestão e crescente descrédito do sistema educativo.
Num país minimamente comprometido com meritocracia e responsabilidade pública, um histórico desta natureza deveria recomendar prudência. Contudo, em Moçambique, o fracasso parece frequentemente transformar-se em passaporte para promoções políticas. A nomeação de Carmelita Namashilua reforça a percepção de que o aparelho do Estado continua subordinado aos interesses partidários da Frelimo, independentemente dos resultados apresentados.
Este cenário levanta dúvidas profundas sobre a autonomia política e capacidade de liderança do Presidente Daniel Chapo. Vários círculos de opinião e média começam a questionar se o chefe de Estado governa efectivamente para o país ou apenas administra equilíbrios internos do partido. Cresce a sensação de um Presidente condicionado pelas estruturas partidárias, incapaz de romper com velhos vícios políticos e sem autoridade suficiente para promover verdadeira renovação governativa.
Os discursos presidenciais, longe de tranquilizarem a população, têm frequentemente agravado a percepção de improviso e superficialidade política. Enquanto o país enfrenta uma severa crise social e económica, o Presidente parece muitas vezes desconectado da realidade concreta vivida pelo cidadão comum. Em vez de apresentar soluções estruturais para o desemprego, para a crise do custo de vida ou para a degradação dos serviços públicos, o discurso oficial insiste em slogans vagos e medidas simbólicas.
Um exemplo tragicómico disso foi o lançamento da ideia de criação de pequenas hortas urbanas substituindo pavimentos e espaços públicos cimentados, frutos de esforços individuais de estabelecer residências condignas. A proposta, apresentada como solução para questões alimentares e económicas, acabou recebida com ironia por muitos sectores da sociedade, banalizando o Presidente que ainda teima em não se assumir como carpinteiro do destino de milhões e continua sendo a madeira prensada aos golpes de uma astuta elite predatória ou cuja credibilidade parece irrecuperável aos olhos do sofrido povo do indico. Não porque a agricultura seja desprezível, mas porque chega a soar ofensivo reduzir o debate sobre segurança alimentar à abertura de pequenas hortas improvisadas num país com milhões de hectares de terras aráveis, extensas bacias hidrográficas e condições naturais extraordinárias para produção agrícola em larga escala.
Um governo sério estaria a investir em mecanização agrícola, irrigação, assistência técnica, armazenamento, industrialização e escoamento da produção. Estaria a transformar o campo num motor económico nacional. Em vez disso, o país continua dependente de importações, convivendo com insegurança alimentar e vendo famílias incapazes de comprar produtos básicos.
Enquanto isso, a crise entre o governo e os profissionais da saúde atinge níveis alarmantes. Há mais de um ano que médicos, enfermeiros e outros profissionais denunciam salários inadequados, falta de condições de trabalho e ausência de diálogo sério por parte do governo. Segundo estes profissionais, a crise já terá contribuído para a morte de mais de duas mil pessoas cujas vidas poderiam ter sido salvas em condições normais de funcionamento do sistema nacional de saúde.
O número é assustador. Duas mil vidas perdidas representam pais, mães, filhos e cidadãos que poderiam hoje estar vivos. São mortes que expõem o fracasso de um Estado incapaz de preservar aquilo que deveria ser sagrado, a vida humana.
Mais perturbador ainda é observar a aparente indiferença do governo diante de tamanho drama de um sistema de saúde colapsado. Não se viu urgência política proporcional à gravidade da situação, não se viu verdadeira aproximação com os profissionais da saúde, não se viu humildade institucional para reconhecer erros ou estabelecer compromissos concretos. Pelo contrário, o governo parece caminhar impávido, como se duas mil mortes associadas ao colapso parcial do sistema de saúde fossem apenas detalhe administrativo.
Isto é extremamente perigoso e degradante para qualquer sociedade, quando um Estado perde milhares de cidadãos por negligência estrutural e ainda assim se recusa de sentar a mesa de diálogo com os profissionais da saúde, mostrando falta de vontade de agir com seriedade e sensibilidade, mostrando em ultima analise uma perigosa banalização da vida humana. A mensagem transmitida à população é devastadora: a vida do cidadão comum vale pouco perante a arrogância burocrática do poder.
Ao mesmo tempo, o Presidente multiplica viagens ao exterior, tentando projectar imagem diplomática internacional enquanto internamente o país mergulha numa espiral de degradação. Há uma percepção crescente de distanciamento entre o poder e a realidade nacional.
A crise dos hidrocarbonetos reforça ainda mais essa sensação de fracasso colectivo. Durante anos, o gás natural foi vendido como passaporte para prosperidade nacional. Prometeram-se empregos, industrialização, riqueza e transformação económica. Hoje, porém, o povo continua pobre, enquanto os benefícios reais parecem distantes da maioria dos cidadãos.
A pobreza alastra, o desemprego destrói sonhos, o custo de vida sufoca famílias e o desespero cresce silenciosamente entre os jovens. E quando uma juventude perde esperança, o país inteiro entra em risco. Crescem criminalidade, violência, radicalização e tensão social.
O Governo Chapo merece, portanto, um firme cartão amarelo não apenas pelos erros herdados, mas sobretudo pela incapacidade demonstrada até aqui em inverter o rumo do retrocesso. O país precisava de liderança forte, coragem reformista e ruptura com práticas falhadas do passado. Em vez disso, assiste-se à continuidade das mesmas lógicas partidárias, dos mesmos rostos reciclados e da mesma desconexão entre o poder e o sofrimento popular. Moçambique não precisa de discursos vazios, simbolismos improvisados ou propaganda optimista. Precisa de competência, visão estratégica, responsabilidade pública e coragem para colocar o interesse nacional acima dos interesses partidários.

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