O preço pago pela velhice

Ronélio Zandamela"

Uma reflexão sobre a perda de valores

vou eu, mais uma vez, mergulhar nos assuntos que apoquentam a minha sociedade. Desta vez, porém, escrevo com o coração pesado e com lágrimas na ponta dos olhos. Há temas que não se escrevem apenas com a razão; escrevem-se também com a alma. E este é, para mim, um deles.

(In)felizmente, vivemos numa sociedade que conheceu grandes progressos. Desde a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, profundas transformações sociais, económicas e tecnológicas alteraram a forma como vivemos. Ganhamos comodidades, encurtamos distâncias, desenvolvemos tecnologias e criamos melhores condições para responder às nossas necessidades.

Mas, no meio de tanto progresso, há uma pergunta que me inquieta: teremos nós evoluído na mesma proporção enquanto seres humanos?

Passaram por esta terra gerações inteiras, deixando árvores genealógicas frutíferas, das quais muitos de nós gostaríamos de fazer parte. Eram tempos em que o respeito e a consideração pelos mais velhos faziam parte do pão de cada dia; em que a empatia pelo próximo não se negociava por quinhentas moedas, nem se trocava por tesouros. Eram valores que se aprendiam em casa, se praticavam na comunidade e se transmitiam de geração em geração.

Até que o desenvolvimento chegou e, com ele, muita coisa mudou.

Sem dúvida, a modernidade trouxe-nos benefícios. Já não precisamos percorrer longas distâncias a pé para satisfazer necessidades básicas, deixámos de depender exclusivamente da caça e desenvolvemos formas mais eficientes de produzir o nosso próprio alimento. Temos hospitais, escolas, tecnologias e uma infinidade de recursos que os nossos antepassados dificilmente poderiam imaginar.

Contudo, parece que, enquanto aprendemos a construir máquinas cada vez mais inteligentes, fomos deixando para trás alguns dos valores que nos tornavam mais humanos.

 

A parte mais dolorosa é perceber que, diariamente, somos confrontados com relatos de idosos acusados de feitiçaria. Filhos acusam os próprios progenitores. Netos acusam os avós. Vizinhos apontam o dedo àquele idoso que já não tem pernas para correr, nem força para se defender.

Hoje, apontamos o dedo para quem nos deu a vida; para quem nos carregou no ventre durante nove meses; para quem, muitas vezes, sacrificou os melhores anos da sua existência para nos ver crescer. Acusamo-los de quererem destruir as nossas vidas, de impedirem a nossa prosperidade, de serem responsáveis pelos nossos fracassos.

Mas, afinal, de quem é a culpa?

Quando um jovem fracassa, quando não consegue alcançar o sucesso esperado, quando mergulha no mundo das drogas, quando enfrenta dificuldades para constituir uma família ou quando não consegue ter filhos, procuramos respostas fáceis. E, muitas vezes, procuramos o elo mais fraco.

Apontamos o dedo. Acusamos. Humilhamos. Agredimos. E, em casos extremos, expulsamos essas pessoas das suas próprias casas.

Assistimos, assim, à triste realidade de mulheres idosas, muitas vezes chamadas simplesmente de “velhas”, serem diabolizadas, expostas publicamente, agredidas e acusadas de bruxaria. Às vezes, o único “crime” cometido foi terem sido encontradas num lugar que lhes era desconhecido.

Esquecemo-nos de que a velhice também traz limitações. A locomoção pode tornar-se difícil, a audição pode enfraquecer, a visão pode ficar turva e as capacidades cognitivas podem diminuir. Doenças aparecem, a memória falha e, em alguns casos, a demência bate à porta.

Tudo isso deveria ser motivo para redobrarmos o cuidado, a paciência e o carinho. Nunca motivo para condenação.

Felizmente, nem tudo está perdido. Ainda há quem olhe para a terceira idade não como um peso, mas como uma verdadeira biblioteca. Pessoas que entendem que cada ruga carrega uma história, cada silêncio guarda uma experiência e cada cabelo branco representa uma vida que atravessou caminhos que nós ainda estamos a percorrer.

Precisamos reaprender a escutar os nossos mais velhos.

 

Precisamos compreender que a velhice não é uma doença, muito menos um castigo. É uma estação da vida que, mais cedo ou mais tarde, nos encontrará a todos.

Um dia, talvez, o karma nos visite. Também seremos velhos. Também poderemos precisar de alguém para nos conduzir, ouvir, alimentar ou simplesmente ter paciência connosco.

E quem sabe? Até lá, talvez haja inflação e o preço da velhice seja ainda mais alto do que aquele que hoje cobramos aos nossos idosos.

Talvez nem sequer se pague com o metical, o rand, kwanza ou kwacha.

Por isso, é tempo de resgatarmos os melhores valores. É tempo de voltarmos a ser humanos. Porque o tratamento que damos aos nossos velhos hoje pode ser, amanhã, o tratamento que a nossa própria velhice nos cobrará.

Uma reflexão sobre a perda de valores

vou eu, mais uma vez, mergulhar nos assuntos que apoquentam a minha sociedade. Desta vez, porém, escrevo com o coração pesado e com lágrimas na ponta dos olhos. Há temas que não se escrevem apenas com a razão; escrevem-se também com a alma. E este é, para mim, um deles.

(In)felizmente, vivemos numa sociedade que conheceu grandes progressos. Desde a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, profundas transformações sociais, económicas e tecnológicas alteraram a forma como vivemos. Ganhamos comodidades, encurtamos distâncias, desenvolvemos tecnologias e criamos melhores condições para responder às nossas necessidades.

Mas, no meio de tanto progresso, há uma pergunta que me inquieta: teremos nós evoluído na mesma proporção enquanto seres humanos?

Passaram por esta terra gerações inteiras, deixando árvores genealógicas frutíferas, das quais muitos de nós gostaríamos de fazer parte. Eram tempos em que o respeito e a consideração pelos mais velhos faziam parte do pão de cada dia; em que a empatia pelo próximo não se negociava por quinhentas moedas, nem se trocava por tesouros. Eram valores que se aprendiam em casa, se praticavam na comunidade e se transmitiam de geração em geração.

Até que o desenvolvimento chegou e, com ele, muita coisa mudou.

Sem dúvida, a modernidade trouxe-nos benefícios. Já não precisamos percorrer longas distâncias a pé para satisfazer necessidades básicas, deixámos de depender exclusivamente da caça e desenvolvemos formas mais eficientes de produzir o nosso próprio alimento. Temos hospitais, escolas, tecnologias e uma infinidade de recursos que os nossos antepassados dificilmente poderiam imaginar.

Contudo, parece que, enquanto aprendemos a construir máquinas cada vez mais inteligentes, fomos deixando para trás alguns dos valores que nos tornavam mais humanos.

 

A parte mais dolorosa é perceber que, diariamente, somos confrontados com relatos de idosos acusados de feitiçaria. Filhos acusam os próprios progenitores. Netos acusam os avós. Vizinhos apontam o dedo àquele idoso que já não tem pernas para correr, nem força para se defender.

Hoje, apontamos o dedo para quem nos deu a vida; para quem nos carregou no ventre durante nove meses; para quem, muitas vezes, sacrificou os melhores anos da sua existência para nos ver crescer. Acusamo-los de quererem destruir as nossas vidas, de impedirem a nossa prosperidade, de serem responsáveis pelos nossos fracassos.

Mas, afinal, de quem é a culpa?

Quando um jovem fracassa, quando não consegue alcançar o sucesso esperado, quando mergulha no mundo das drogas, quando enfrenta dificuldades para constituir uma família ou quando não consegue ter filhos, procuramos respostas fáceis. E, muitas vezes, procuramos o elo mais fraco.

Apontamos o dedo. Acusamos. Humilhamos. Agredimos. E, em casos extremos, expulsamos essas pessoas das suas próprias casas.

Assistimos, assim, à triste realidade de mulheres idosas, muitas vezes chamadas simplesmente de “velhas”, serem diabolizadas, expostas publicamente, agredidas e acusadas de bruxaria. Às vezes, o único “crime” cometido foi terem sido encontradas num lugar que lhes era desconhecido.

Esquecemo-nos de que a velhice também traz limitações. A locomoção pode tornar-se difícil, a audição pode enfraquecer, a visão pode ficar turva e as capacidades cognitivas podem diminuir. Doenças aparecem, a memória falha e, em alguns casos, a demência bate à porta.

Tudo isso deveria ser motivo para redobrarmos o cuidado, a paciência e o carinho. Nunca motivo para condenação.

Felizmente, nem tudo está perdido. Ainda há quem olhe para a terceira idade não como um peso, mas como uma verdadeira biblioteca. Pessoas que entendem que cada ruga carrega uma história, cada silêncio guarda uma experiência e cada cabelo branco representa uma vida que atravessou caminhos que nós ainda estamos a percorrer.

Precisamos reaprender a escutar os nossos mais velhos.

 

Precisamos compreender que a velhice não é uma doença, muito menos um castigo. É uma estação da vida que, mais cedo ou mais tarde, nos encontrará a todos.

Um dia, talvez, o karma nos visite. Também seremos velhos. Também poderemos precisar de alguém para nos conduzir, ouvir, alimentar ou simplesmente ter paciência connosco.

E quem sabe? Até lá, talvez haja inflação e o preço da velhice seja ainda mais alto do que aquele que hoje cobramos aos nossos idosos.

Talvez nem sequer se pague com o metical, o rand, kwanza ou kwacha.

Por isso, é tempo de resgatarmos os melhores valores. É tempo de voltarmos a ser humanos. Porque o tratamento que damos aos nossos velhos hoje pode ser, amanhã, o tratamento que a nossa própria velhice nos cobrará.

2025/12/3