
Ronélio Zandamela"
Aproxima-se o dia 25 de Setembro, uma data que ocupa um lugar particular na história de Moçambique. É o dia em que prestamos homenagem à geração que, em determinado momento da sua juventude, decidiu colocar a sua vida ao serviço de um ideal maior: a conquista da liberdade e da independência nacional. Recordar esta geração não significa apenas recordar homens e mulheres que pegaram em armas. Significa recordar pessoas que, perante um contexto marcado pela dominação colonial, pela opressão e pela ausência de liberdade, foram capazes de transformar a indignação em resistência e o desejo de liberdade num projecto colectivo. Durante o período colonial, diferentes formas de resistência foram assumidas pelos moçambicanos. Algumas procuraram, inicialmente, vias pacíficas e diplomáticas para reivindicar direitos e liberdade. O episódio de Mueda, ocorrido em 1960, na então província de Cabo Delgado, tornou-se uma das referências mais marcantes dessa resistência. A manifestação, que expressava reivindicações da população moçambicana perante as autoridades coloniais, terminou com o derramamento de sangue e a morte de numerosos manifestantes. O Massacre de Mueda permanece, assim, como uma das memórias dolorosas da luta contra a dominação colonial. Mais do que um acontecimento histórico, representa uma das experiências que contribuíram para demonstrar os limites das vias pacíficas naquele contexto e para alimentar a consciência de que a conquista da independência exigiria uma mobilização mais ampla. Quatro anos depois, em 1964, iniciou-se a luta armada de libertação nacional. Homens e mulheres, movidos por diferentes razões e circunstâncias, assumiram o desafio de lutar pela independência de Moçambique. Muitos deixaram as suas famílias, as suas casas e os seus projectos pessoais. Alguns não regressaram. Outros sobreviveram para testemunhar o nascimento de um país indepe É precisamente aqui que devemos procurar o verdadeiro significado do 25 de Setembro. O 25 de Setembro não é apenas um feriado Com o passar dos anos, existe o risco de transformar as datas históricas em simples acontecimentos de calendário. O 25 de Setembro pode ser celebrado com cerimónias oficiais, desfiles militares, manifestações culturais e discursos institucionais, enquanto crianças e jovens participam nas comemorações sem compreenderem, necessariamente, a dimensão histórica e humana da data. Mas celebrar o 25 de Setembro não deve significar apenas celebrar um feriado. Esta data carrega uma herança construída com abnegação, patriotismo, coragem, sacrifício, lealdade, disciplina e esperança. A independência que hoje conhecemos não surgiu de forma espontânea. É resultado de um processo histórico no qual milhares de moçambicanos assumiram riscos pessoais em nome de um projecto colectivo. A história regista acontecimentos, datas, nomes e lugares. Contudo, por detrás desses registos existiram seres humanos. Existiram mães que viram os seus filhos partir, esposas que ficaram sem os seus companheiros, filhos que cresceram sem os pais e famílias que suportaram a ausência e a incerteza. Por isso, quando falamos da geração do 25 de Setembro, não devemos olhar apenas para os combatentes. Devemos também reconhecer as famílias que partilharam, directa ou indirectamente, o peso daquele sacrifício. Da geração da luta à geração das TIC Ontem, o desafio da geração do 25 de Setembro era conquistar a independência. Hoje, o desafio da geração das tecnologias de informação e comunicação é diferente, embora a responsabilidade histórica permaneça. A geração actual não é necessariamente chamada a enfrentar um inimigo num campo de batalha convencional. É chamada a defender e fortalecer a Pátria através do conhecimento, do trabalho, da ética, da cidadania, da solidariedade e do compromisso com o bem comum. A defesa da Pátria não é responsabilidade exclusiva das Forças Armadas. É uma responsabilidade colectiva. O militar defende a Pátria quando cumpre, com honra e disciplina, a sua missão. O professor defende a Pátria quando educa, ensina e forma cidadãos capazes de pensar e contribuir para a sociedade. O médico defende a Pátria quando salva vidas e presta cuidados de saúde com responsabilidade e humanidade. O agricultor defende a Pátria quando produz alimentos e contribui para a segurança alimentar. O empresário defende a Pátria quando cria emprego, promove investimentos e participa no desenvolvimento económico. O jovem defende a Pátria quando respeita a lei, preserva o património público, promove a unidade nacional, valoriza a paz, rejeita a violência e respeita o próximo. Cada profissão, quando exercida com responsabilidade e sentido de dever, pode constituir uma forma de serviço à Pátria. Os novos campos de batalha Os desafios de Moçambique também se transformaram. A independência continua a ser a nossa maior herança, mas a sua preservação exige atenção permanente. O país enfrenta problemas complexos, entre os quais a violência extremista que afecta algumas zonas de Cabo Delgado desde 2017, o tráfico de drogas, armas e pessoas, os raptos, a corrupção, a desinformação, a intolerância, o desemprego, o abandono escolar, a desnutrição e outras formas de vulnerabilidade social. Estes fenómenos não são equivalentes entre si, nem podem ser enfrentados da mesma maneira. Contudo, têm em comum o facto de colocarem desafios à segurança, à estabilidade e ao desenvolvimento do país. É neste contexto que o significado do 25 de Setembro precisa de ser actualizado. Se a geração anterior enfrentou a dominação colonial com os instrumentos que tinha ao seu alcance, a geração actual deve enfrentar os seus próprios desafios com os instrumentos do nosso tempo: educação, conhecimento, ciência, tecnologia, trabalho, responsabilidade cívica, solidariedade e respeito pelas instituições. A verdadeira homenagem aos que lutaram pela independência não pode limitar-se à realização de cerimónias. Deve traduzir-se em atitudes concretas no presente. O patriotismo do nosso tempo não deve ser confundido com palavras de ordem. Deve manifestar-se na forma como tratamos o país, as instituições e os nossos concidadãos. Patriotismo é estudar quando temos oportunidade de estudar. É trabalhar quando temos oportunidade de trabalhar. É produzir quando podemos produzir. É proteger o património que pertence a todos. É combater a corrupção começando por rejeitar pequenas práticas que alimentam grandes problemas. É respeitar as diferenças sem transformar a diversidade em motivo de conflito. É defender a paz não apenas com palavras, mas através das nossas atitudes quotidianas. Cada geração recebe uma Pátria e entrega uma Pátria à geração seguinte. Não se exige de cada cidadão que faça aquilo que fizeram os combatentes da luta de libertação. O contexto é outro. Os desafios são outros. As ferramentas são outras. No 25 de Setembro, devemos recordar com respeito os homens e mulheres que participaram na luta de libertação nacional. Devemos honrar os combatentes vivos e mortos e reconhecer o sofrimento partilhado pelas suas famílias. A eles devemos uma parte importante daquilo que hoje somos enquanto nação. Mas honrar os que partiram não significa apenas olhar para o passado. Significa assumir responsabilidades no presente. A melhor homenagem à geração que lutou pela independência é construir uma sociedade na qual os seus sacrifícios encontrem sentido. Que o 25 de Setembro não seja apenas uma data no calendário. Mas sim, uma oportunidade para ensinar aos mais jovens que a independência tem uma história, que a liberdade tem um preço e que a construção de uma Pátria melhor exige participação, responsabilidade e compromisso.2025/12/3
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