Tempo quaresmal em momento abismal sobre a paz em Cabo Delgado

Paulo Vilanculo"

A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano. Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho (…), onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição. – Papa Leao.

 

Em África, onde muitas vezes a religião sobrevive como último refúgio moral diante de Estados fracos, elites corruptas e interesses estrangeiros predatórios, o papel do Vaticano deve ser decisivo. capaz de incomodar os poderosos e de proteger os vulneráveis, com uma diplomacia da verdade, como Agostinho exigia dos governantes cristãos. Conhecido pelo seu histórico de defesa dos mais vulneráveis e dos refugiados em zonas de conflito, começou o seu papado com palavras firmes: “a paz é um dever evangélico e uma urgência moral para todos os povos”. É aclamado como um defensor incansável dos marginalizados, o novo pontífice afirmou, em sua primeira bênção urbi et orbi, que “a paz é um imperativo do Evangelho”.

Desde os primeiros minutos após sua eleição, Papa Leão XIV foi ovacionado como um símbolo de renovação espiritual e diplomática. Com origens humildes e um histórico pastoral marcado pela defesa de refugiados e comunidades vítimas de conflito armado, o novo papa rapidamente conquistou os olhares do mundo como um potencial mediador entre nações em guerra e como um guia espiritual num planeta à deriva entre crises climáticas, guerras e desigualdades gritantes. Leão XIV como Papa marca um momento simbólico para a Igreja Católica e para o mundo, trazendo à tona discursos de renovação, reconciliação e paz.

“Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.” – Papa Leao  

 

Uma chave interpretativa útil para isso é a tradição do pensamento agostiniano sobre a paz e o poder temporal. Em A Cidade de Deus, Santo Agostinho defende que a paz perfeita é apenas possível na “cidade celestial”, sendo que a paz na terra, a tranquillitas ordinis, é sempre instável, marcada pela luta contra o pecado, o orgulho e o desejo de dominação. A paz, portanto, é menos um estado permanente do mundo e mais um esforço constante de contenção do mal e de promoção da justiça. Na sua primeira homilia, o novo Papa referiu-se às “regiões onde o sangue dos inocentes ainda clama por justiça”, sem mencionar diretamente Moçambique, mas acenando para uma possível ampliação da agenda humanitária do Vaticano. A mensagem tocou o coração de milhões, mas em Moçambique, particularmente em Cabo Delgado, ela foi recebida com um misto de esperança e desconfiança.  Muitos acreditam que a diplomacia vaticana será pressionada a ampliar o seu alcance, não apenas em cenários clássicos de guerra como Ucrânia, Gaza ou Sudão, mas também em conflitos menos mediáticos como o de Cabo Delgado.

Aplicando esta lente à realidade africana, especialmente a Cabo Delgado, percebe-se a tensão trágica entre o ideal cristão de paz e a dinâmica real da política internacional. A guerra esquecida que assola o norte moçambicano continua a fazer vítimas diariamente. Milhares de deslocados internos, aldeias reduzidas a cinzas, e uma juventude sem futuro continuam a marcar o mapa da província. Nesse tabuleiro, a vida humana torna-se secundária, e a paz desejada é frequentemente sacrificada no altar do lucro. A “cidade terrena”, como Agostinho a descreve, domina a lógica dos Estados e corporações, movendo-se por amor ao poder e ao domínio, em contraste com a “cidade de Deus”, movida pelo amor ao próximo e à justiça.

 Nesse contexto, a paz em Cabo Delgado não pode ser apenas uma abstração espiritual ou uma nota protocolar. Requer leitura histórica, coragem política e ação pastoral. A província de Cabo Delgado, no norte moçambicano, continua mergulhada numa crise humanitária e militar desde 2017. Milhares de mortos, centenas de milhares de deslocados e uma destruição silenciosa marcam o quotidiano da região. Apesar da presença de forças armadas estrangeiras e da retórica oficial de que a situação está controlada, os relatos que escapam à censura indicam que o sofrimento persiste, com comunidades inteiras vivendo no medo e no abandono. A Igreja Católica, embora presente no terreno com ações humanitárias, tem tido uma atuação discreta no plano político, limitando-se a comunicados pontuais e apelos genéricos à paz.

“Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor”. – Papa Leao

Concluimos refirmando que o Vaticano deve fazer jus à sua autoridade moral, assumindo os conflitos como escândalos éticos globais e líderes internacionais. O tempo agora é de ação concreta, de mediação real, de presença pastoral ativa e, sobretudo, de pressão internacional para a resolução do conflito. O povo de Cabo Delgado já chorou demais, já esperou demais. O Papa Leão XIV terá que incluir também os esquecidos de Moçambique na sua missão.

2025/12/3