PODEMOS: Mendonça ganha “impeachment Político” contra Forquilha

Paulo Vilanculo"

de legitimidade política e institucional. Entre contas bloqueadas, conflitos internos e decisões judiciais, o PODEMOS parece ter chegado ao ponto em que a luta pela sobrevivência política da liderança já não se resolve apenas dentro das estruturas partidárias. No caso de Albino Forquilha, portanto, O Impeachment é um mecanismo constitucional ou legal através do qual uma autoridade pública, geralmente um presidente ou alto titular de um órgão do Estado, pode ser formalmente acusada e submetida a um processo destinado a apurar responsabilidades que podem conduzir à sua destituição do cargo ou abandono da sua liderança. Forquilha, que até aqui procurava preservar o controlo do partido em meio de sucessivos conflitos, vê-se agora obrigado a defender não apenas a gestão, a sua permanência na liderança mas a própria sobrevivência do Partido. A crise que envolve o PODEMOS permite colocar uma pergunta que, até há pouco tempo, poderia parecer improvável: estaremos perante o princípio do fim da liderança de Albino Forquilha e, simultaneamente, perante a reentrada de Hélder Mendonça na disputa pelo comando do partido? Se as eleições internas avançarem, a verdadeira pergunta será menos “quem derrubou Forquilha?” ou “quem conseguirá convencer os militantes de que merece conduzir o próximo capítulo do PODEMOS?”.

 

A crise interna no PODEMOS acaba de entrar numa nova e decisiva fase, desta vez, o palco principal deixou de ser apenas a arena política interna e passou a ser o tribunal. A disputa e divergências entre Hélder Mendonça e Albino Forquilha não começaram com a questão dos mandatos. Mendonça já havia levantado dúvidas sobre a gestão financeira do PODEMOS, questionando diferenças entre os valores que eram apresentados internamente e os montantes que, segundo ele, efectivamente entravam nos cofres do partido. Com a crise financeira e administrativa também se cruzou com outro processo judicial envolvendo o PODEMOS e a Associação Solidariedade Cívica de Moçambique (SCM), o Tribunal Judicial da Cidade de Maputo determinou o bloqueio das contas bancárias do partido, no contexto de alegado incumprimento de decisões anteriores relacionadas com a gestão e partilha de recursos previstos num memorando celebrado entre as duas organizações. O despacho determinou igualmente a remessa de peças ao Ministério Público para eventual procedimento criminal por alegada desobediência qualificada.

Depois do bloqueio judicial das contas do partido, a liderança de Albino Forquilha volta a enfrentar a pressão dos tribunais, desta vez com uma decisão que coloca em causa a continuidade dos actuais órgãos partidários e abre caminho para a renovação da liderança. Em Fevereiro de 2026, Mendonça foi suspenso durante a 11.ª sessão do Conselho Central. A direcção rejeitou as acusações e sustentou que as medidas disciplinares contra Mendonça estavam relacionadas com declarações consideradas lesivas da imagem do partido. Mendonça, por sua vez, considerou a suspensão ilegal e submeteu ao Tribunal, contestando judicialmente a permanência da actual estrutura, argumentando que os mandatos dos órgãos haviam expirado em 2024 e requerendo uma providência cautelar até a realização de eleições para a renovação dos órgãos do PODEMOS. O Tribunal Judicial, na cidade de Maputo, determinou a favor de Mendonça.

Hélder Mendonça, antigo secretário-geral e um dos rostos históricos da formação política, conseguiu uma importante vitória judicial contra a actual direcção liderada por Albino Forquilha, colocando em causa a continuidade dos actuais órgãos do partido. A questão que se coloca já não é se Mendonça ganhou a batalha contra Albino Forquilha. Mendonça pode ainda não ter conquistado a liderança do PODEMOS. Mas conseguiu algo politicamente relevante que foi levar os órgãos actuais para o terreno em que a força política de cada dirigente deixa de ser suficiente, acima da decisão judicial. Embora isso não significar garantia de ascensão de Mendonça na sua posição de secretario geral suspenso, cria uma possibilidade concreta de que a próxima batalha do PODEMOS seja travada nas urnas internas.

O episódio revela uma ironia política difícil de ignorar. O conflito que começou dentro das estruturas partidárias acabou por transformar-se numa questão de (i)legitimidade dos próprios órgãos dirigentes. Forquilha enfrenta agora o desafio de transformar uma derrota judicial numa oportunidade de reorganização partidária. A maior questão é saber se o PODEMOS conseguirá sair desta guerra interna mais democrático ou se continuará a consumir-se numa disputa entre os seus próprios protagonistas. A posição de Forquilha deixou de ser apenas política para se transformar numa batalha negligentea na gestão do conflito e de falta de maturidade política para compreender que, numa organização partidária, a autoridade não se sustenta apenas pela permanência no cargo, mas pela legitimidade dos mecanismos que permitem ocupá-lo.

Isto ganha particular relevância quando se recorda que Forquilha aparece como figura de testemunha no processo judicial que envolve Venâncio Mondlane e ds manifestações pós-eleitorais de 2024, enquanto, em 2024, Forquilha e o PODEMOS apresentavam-se politicamente alinhados com Venâncio Mondlane e defendiam publicamente determinadas posições sobre os protestos e a reposição daquilo que consideravam ser a vontade popular e posteriormente, Forquilha passou a integrar a lista de testemunhas do processo contra Mondlane. A questão, portanto, não é antecipar se o seu testemunho é verdadeiro ou falso, essa apreciação cabe ao tribunal, mas até que ponto os episódios posteriores à crise eleitoral podem ser considerados quando se avalia a coerência das posições de Forquilha ao longo do tempo. Assim, o verdadeiro desafio para Forquilha é responder publicamente às contradições que o seu percurso recente possa suscitar, deixando que seja o tribunal determinar o valor probatório das suas declarações.

A política é também a arte de construir pontes, a destruição sucessiva de pontes pode transformar antigos aliados em adversários e pequenas divergências em grandes batalhas. Há uma expressão popular segundo a qual “quem semeia ventos colhe tempestades” o ambiente conflituoso que cerca Forquia um reflexo da sua alegada “traição” a outras figuras ou organizações recai na metáfora de que Forquilha já esta a deliciar “o pão que com malícia ele próprio amassou” num reflexo de responsabilidade política de quem que administra conflitos pela confrontação, transformando antigos aliados em adversários e disputas internas em processos judiciais. O problema agora já não está em causa apenas a relação Forquilha–Mendonça ou Forquilha–Mondlane, está em causa a capacidade da liderança do PODEMOS de sobreviver politicamente a uma crise que se tornou institucional. O que está em causa agora, é uma batalha pela legitimidade do comando do PODEMOS. 

No fim destas batalhas, talvez a maior lição do caso de Forquilha seja a de que nenhum mandato político é propriedade pessoal do seu titular. Se olharmos para a sucessão dos acontecimentos, torna-se inevitável afirmar que, na conjuntura das disputas políticas, entre confrontação, afastamentos e judicialização dos conflitos, politicamente, “o tiro saiu pela culatra” para Albino Forquilha. O pão que amassou durante as guerras internas talvez chega agora à mesa de quem o preparou.

2025/12/3