O mistério da morte e a gloria de Judas "nos céus"

Paulo Vilanculo"

 

 

O "mistério da morte" refere-se ao desconhecido sobre o que ocorre com a consciência humana após o fim da vida biológica. Como a ciência apenas descreve o encerramento das funções vitais do corpo, o destino final, a possível existência de uma alma ou a vida após a morte permanecem como uma incógnita filosófica e espiritual. A história do cristianismo é marcada por figuras antagónicas que simbolizam a fidelidade e a traição. De um lado encontra-se Pedro, o discípulo que, apesar das suas fragilidades humanas, tornou-se a pedra sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja. Do outro lado está Judas Iscariotes, eternizado nas Escrituras como aquele que vendeu o Mestre por trinta moedas de prata, abrindo caminho para a sua prisão e crucificação. Pedro foi um dos discípulos mais próximos de Jesus e líder central da igreja cristã primitiva. Originalmente chamado de Simão, era um pescador da Galileia que foi escolhido por Jesus para ser "pescador de homens", recebendo o nome de Cefas ou Pedro (que significa "pedra" ou "rocha"). Na Bíblia, o nome Judas Tadeu, Lebeu ou Judas Iscariotes, refere-se mais frequentemente um dos meio-irmãos de Jesus pelo lado materno, filho de Maria e José, um dos doze apóstolos de Jesus. Ele atuava como tesoureiro do grupo e, segundo os Evangelhos, desviava dinheiro. Ficou marcado nas escrituras bíblicas por trair Jesus entregando-o às autoridades religiosas por 30 moedas de prata, facilitando a prisão e crucificação de Cristo. Após arrepender-se de sua ação, ele devolveu as moedas aos sacerdotes e cometeu suicídio por enforcamento.

O Bispo da Diocese de Quelimane, Pedro ou Messias, Dom Osório Citora Afonso, perdeu a vida, por assassinato, na madrugada do passado sábado, na sua residência oficial, na cidade de Quelimane.A notícia da morte do prelado deixou consternados os fiéis católicos, membros do clero e a sociedade em geral, em particular os membros da Associação dos Bons Sinais. Dom Osório Afonso foi encontrado morto num corredor da residência episcopal em Quelimane. Informações que circulam nas redes sociais e em diversos círculos de debate indicam que um indivíduo identificado como "Padre Novais" terá sido detido pelas autoridades por alegado envolvimento no caso. Contudo, mais do que as detenções anunciadas, persistem perguntas fundamentais que continuam sem respostas claras perante a opinião pública. Se efetivamente existiu uma conspiração para eliminar Dom Osório Citora, quem terá sido o executor material do crime? Quem acionou a arma que colocou fim à vida do sacerdote? Tratando-se, segundo informações divulgadas, de uma arma de guerra, como foi possível que um instrumento de uso restrito chegasse às mãos dos autores do crime? Onde foi adquirida? Quem financiou a operação? Quem beneficiaria com a eliminação de uma figura religiosa respeitada na comunidade? Estas questões remetem inevitavelmente para a narrativa bíblica da traição de Judas.

Pedro e Judas representam duas faces da condição humana. Um escolheu o arrependimento e a reconstrução da sua fé após negar Jesus; o outro sucumbiu ao peso da culpa depois de consumar a traição. Séculos depois, os seus nomes continuam a ser utilizados para ilustrar dilemas morais, éticos e espirituais que desafiam as sociedades contemporâneas. É precisamente nesta perspetiva que surge o debate em torno da morte de Dom Osório Afonso Citora, sacerdote da Diocese de Quelimane, um caso que continua a suscitar inúmeras interrogações e inquietações no seio da Igreja Católica e da sociedade moçambicana. No entanto, a comparação não deve servir apenas para identificar supostos traidores, mas sobretudo para exigir verdade, transparência e responsabilização. Judas não agiu sozinho; a sua traição inseriu-se numa cadeia de interesses políticos, religiosos e institucionais que culminaram na condenação de Cristo. Da mesma forma, a sociedade moçambicana espera compreender se a morte de Dom Osório resultou da ação isolada de indivíduos ou de uma rede mais ampla de cumplicidades.

A Igreja Católica, historicamente defensora da dignidade humana e da justiça social, também enfrenta o desafio de lidar com este episódio com transparência e responsabilidade. O silêncio, as versões contraditórias ou as investigações inconclusivas apenas alimentam a desconfiança pública e aprofundam as feridas deixadas pela tragédia. Num Estado de Direito, a justiça não pode limitar-se à apresentação de suspeitos. A credibilidade das instituições depende da sua capacidade de esclarecer integralmente os factos, identificar autores materiais e morais e garantir que a verdade prevaleça sobre especulações e rumores. A morte de Dom Osório Citora não deve transformar-se num simples registo policial nos corredores da burocracia. Ela exige respostas. Exige verdade. Exige justiça. Enquanto as perguntas permanecerem sem respostas, continuará a pairar sobre este caso a inquietante dúvida se estaremos perante um novo Pedro vítima das circunstâncias ou perante Judas que, uma vez mais, encontrou abrigo entre os homens?

 

 

 

2025/12/3