
Paulo Vilanculo"
intelectuais que antes os questionavam. É uma espécie de diplomacia interna do poder, onde o crítico é convidado a sentar-se à mesa não necessariamente para transformar o sistema, mas, em certas circunstâncias, para suavizar a intensidade das suas próprias críticas. Num país onde vozes académicas, intelectuais e analistas sociais frequentemente denunciam desigualdades, corrupção, clientelismo político e exclusão social, a ascensão de académicos críticos para cargos de destaque governativo desperta inevitavelmente leituras contraditórias. Para uns, trata-se do reconhecimento da competência “técnica e intelectual de Hélder Jauana”. Para outros, é mais um episódio de “absorção estratégica” das vozes incómodas pelo aparelho do Estado. A sociedade moçambicana assiste, assim, a um teste silencioso. Conseguirá o Governo aceitar, dentro das instituições, a mesma frontalidade intelectual que aparenta admirar fora delas? Será que o Estado moçambicano procura verdadeiramente incorporar pensamento crítico para melhorar a governação ou apenas selecciona figuras cuja crítica pode ser politicamente administrável? Estaremos perante mais um ciclo onde o sistema acomoda os críticos para neutralizar o desconforto público das suas ideias? Conseguirá Hélder Jauana manter a lucidez crítica que o caracterizava no espaço académico?
Moçambique possui intelectuais de elevado reconhecimento académico e filosófico, como Severino Ngoenha, João Carlos Trindade, Carlos Serra, Elísio Macamo, José Castiano, entre outros, cujas reflexões há décadas problematizam temas centrais como ética pública, democracia, cidadania, crise do Estado, corrupção, violência simbólica, exclusão social e fragilidade institucional. Contudo, muitos destes pensadores permaneceram frequentemente distantes dos centros estratégicos de decisão política, apesar da profundidade intelectual das suas contribuições. A criação da ANDITUR surge num contexto em que Moçambique procura diversificar a economia e revitalizar o sector do turismo, severamente afectado por instabilidades sociais, insegurança, precariedade e fraca promoção internacional do país. Neste sentido, a escolha de um académico podia simbolizar uma tentativa de conferir credibilidade técnica à nova instituição. Todavia, o risco de transformar especialistas em meros instrumentos de legitimação política permanece real.
A recente nomeação do sociólogo e docente universitário Hélder Jauana pelo Conselho de Ministros para o cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA) da recém-criada Agência Nacional para o Desenvolvimento e Investimento Turístico (ANDITUR) não é apenas um acto administrativo. É também um gesto político carregado de simbolismos, ambiguidades e inquietações próprias de um sistema político que, historicamente, oscilou entre a hostilidade e a sedução dos seus críticos. Intelectuais outrora combativos tornaram-se gestores públicos, ministros, conselheiros presidenciais ou dirigentes de instituições estatais. Em alguns casos, contribuíram positivamente para reformas. Em outros, foram absorvidos pela lógica burocrática e pelo silêncio institucional. Mas o desafio nunca devia estar apenas na nomeação, mas sim na capacidade de preservar a independência moral e intelectual depois da entrada nos corredores do poder. Não basta convidar intelectuais para cargos públicos enquanto persistem problemas crónicos como desemprego juvenil, exclusão económica, dependência partidária das instituições, perseguições subtis de vozes divergentes e fragilidade das políticas públicas. A verdadeira maturidade política de um Governo não se mede apenas pela sua capacidade de integrar críticos, mas sobretudo pela disposição de corrigir os erros apontados por esses mesmos críticos. Um dos aspectos mais delicados que reforçam a tese da “bajulação selectiva” do poder em relação aos críticos reside precisamente na forma desigual como o Estado moçambicano lida com os intelectuais públicos.
Entretanto, a reflexão mais profunda talvez não recaia apenas sobre Hélder Jauana, mas sobre o próprio Governo. A questão não parece ser apenas competência académica ou capacidade técnica, mas sobretudo o tipo de leitura política que o sistema faz da crítica produzida por determinados pensadores. Neste contexto, a marginalização tácita de certos intelectuais mais independentes pode revelar que o problema não está na crítica em si, mas no nível de desconforto que ela provoca ao sistema. Intelectuais como Severino Ngoenha ou Elísio Macamo, entre outros, por exemplo, construem discursos que frequentemente ultrapassa a crítica superficial da governação e entram em dimensões estruturais do próprio funcionamento do Estado, da cultura política e das contradições da elite dirigente. São reflexões que exigem não apenas tolerância política, mas coragem de transformação institucional. O Estado aparenta valorizar intelectuais, mas muitas vezes não demonstra verdadeira cultura institucional de escuta crítica. Escuta-se a forma da crítica, mas evita-se o conteúdo profundo das suas implicações. O problema deixa então de ser epistemológico e passa a ser político. No fundo, permanece a sensação de que certos governos preferem intelectuais decorativos a intelectuais transformadores. Preferem vozes que legitimem estabilidade institucional a consciências que exijam reformas profundas. E quando isso acontece, o pensamento crítico corre o risco de ser convertido em instrumento de ornamentação política, em vez de motor ético da governação.
Quando um Estado passa a “bajular” os seus críticos, deve também ter coragem de se autocriticar. Precisamente este o grande dilema das democracias frágeis: confundirem integração de críticos com verdadeira abertura ao pensamento crítico. Porque integrar indivíduos não significa necessariamente integrar ideias.Num Estado verdadeiramente democrático, o crítico não deve ser valorizado apenas quando aceita integrar o sistema. Deve ser igualmente respeitado quando permanece fora dele, exercendo o direito de pensar, discordar e questionar. Porque governos que bajulam críticos apenas para ornamentar a imagem institucional acabam por revelar insegurança política. E governos inseguros raramente conseguem reformar-se profundamente. Um governo comprometido com a autocorreção institucional aproxima-se da crítica para reformar práticas, corrigir erros e fortalecer políticas públicas. Já um governo movido pela lógica da legitimação política tende a escolher críticos específicos não necessariamente pela densidade das suas ideias, mas pela utilidade simbólica da sua presença institucional. Por isso, o centro da “bajulação” talvez esteja precisamente aí: o poder não necessariamente valoriza a crítica enquanto instrumento filosófico de reconstrução nacional, mas sim enquanto elemento controlável de legitimidade democrática.
O crítico torna-se útil quando ajuda a transmitir imagem de abertura, pluralismo e inteligência governativa. Contudo, quando a crítica ameaça os alicerces morais e estruturais do sistema, ela tende a ser ignorada, marginalizada ou tratada com desconforto silencioso. Talvez seja este o maior desafio da governação moçambicana contemporânea: compreender que a crítica não é inimiga do Estado. Pelo contrário, pode ser o seu mais importante mecanismo de autocorreção. Um governo que aprende a ouvir os críticos sem tentar domesticá-los aproxima-se mais da maturidade democrática. Um governo que apenas os incorpora para silenciar tensões corre o risco de transformar inteligência crítica em decoração política. Deve reconhecer que muitos dos problemas denunciados pelos académicos não são invenções retóricas, mas sintomas reais de uma crise estrutural de governação. No fim, a nomeação de Hélder Jauana poderá representar tanto uma oportunidade de renovação institucional quanto um espelho das contradições do próprio poder. Mas uma coisa permanece evidente: antes de bajular os críticos, o Governo deve aprender a autocriticar-se.
2025/12/3
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