
Paulo Vilanculo"
O que se registou no Hospital Distrital da Massinga, na sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, não é apenas um episódio isolado de má gestão: é o retrato cru do colapso funcional de um sistema público de saúde que, na prática, tem terceirizado a sua responsabilidade constitucional para o bolso dos cidadãos e para a boa vontade de figuras individuais do poder. Uma paciente em estado grave, vítima de queimaduras severas, precisava de transferência urgente para o Hospital Provincial de Inhambane. Havia ambulância, havia necessidade clínica, mas faltava o essencial, o combustível. Este caso levanta questões incontornáveis: onde estão os fundos para o funcionamento básico das unidades sanitárias? Como é possível que um hospital distrital não tenha combustível para uma ambulância em serviço? Quantos pacientes, sem assessor por perto e sem 5.000 meticais disponíveis, ficam pelo caminho? Até quando o MISAU continuará a sobreviver de remendos, esmolas internas e sacrifícios individuais para esconder um sistema doente?
Uma cidadã deu entrada no Hospital Distrital da Massinga após ter contraído queimaduras graves no próprio distrito, numa situação clínica que exigia assistência imediata e transferência urgente para uma unidade hospitalar de referência. A vítima recorreu ao hospital local confiando no dever constitucional do Estado de garantir cuidados de saúde adequados e atempados. Perante a urgência, a administração hospitalar local assumiu estar desprovida de meios para abastecer a ambulância e, num gesto que fere frontalmente o princípio da gratuitidade e universalidade do Serviço Nacional de Saúde, exigiu que a família da paciente pagasse o combustível para que a transferência fosse possível. Não foi o sistema nem foi o orçamento público que salvou a doente; foi um gesto pessoal. A cronologia deste episódio revela não só negligência logística, mas uma perigosa banalização da urgência clínica.
Contudo, aquilo que deveria ser um procedimento de emergência rapidamente se transformou num percurso de incerteza, negligência e exposição da fragilidade estrutural do sistema público de saúde, quando a administração hospitalar alegou incapacidade de proceder à transferência por falta de combustível para a ambulância, condicionando a evacuação da paciente a meios que nada têm a ver com o direito à vida e à assistência médica. Com insistência dos familiares, que recordaram ao hospital que a assistência à saúde é dever do Estado e não favor condicionado, o impasse só foi quebrado quando um assessor do governador provincial, confrontado com a gravidade da situação e com o risco de morte iminente da paciente e também com o dano irreparável à imagem do setor ao colocar 5.000 meticais do seu próprio bolso para abastecer a ambulância, esta situação expôs ainda mais a fragilidade institucional do MISAU em Inhambane. Mesmo assim, a humilhação institucional não terminou ali. A transferência, que deveria ter sido imediata, apenas se concretizou às 19 horas do sábado, quase 24 horas depois do primeiro alerta. Em casos de queimaduras graves, cada hora conta, cada atraso agrava o prognóstico, cada indecisão pode custar a vida.
Esse seria o verdadeiro palco da fiscalização parlamentar dàs “23 horas de angústia de Massinga” e não a passeata do Zimpeto de mimos, fotografia e discurso confortável. Seria precisamente neste tipo de situação concreta, dolorosa e estrutural que a voz de fiscalização parlamentar deveria ecoar com força e não em visitas protocolares, aprazes simbólicos ou cafés mediáticos em unidades sanitárias previamente preparadas para exposição pública. Um deputado não exerce o seu mandato para gestos cosméticos, mas para interpelar o Executivo, exigir explicações públicas, convocar o MISAU ao Parlamento e, sobretudo, transformar casos como este em matéria política de responsabilidade. Se o deputado dispõe de voz, mandato e recursos, o seu “bolso político” deveria servir para abrir processos de responsabilização institucional, não para financiar marketing de proximidade.
É aqui que a intervenção de um deputado como Ivandro Maasingue, do circulo e essência apelido, faria sentido histórico e político, questionando a afetação orçamental ao setor da saúde em Inhambane, exigindo relatórios sobre a gestão de meios logísticos nos hospitais distritais, solicitando auditorias à cadeia de fornecimento de combustível e denunciando publicamente a prática ilegal de exigir pagamentos a pacientes. Seria caso para dizer que em Massinga, o silêncio parlamentar gritou mais alto do que qualquer discurso feito entre apraz e café. A fiscalização que se limita ao simbólico é cúmplice silenciosa do colapso que diz combater. A “passeata de apraz e café” em unidades sanitárias modelares pode render imagens, mas não salva pacientes queimados, não abastece ambulâncias e não responsabiliza gestores negligentes. Assim, a política perde legitimidade quando se transforma em encenação.
O povo não precisa de deputados turistas do sistema; precisa de deputados incómodos, que cheguem onde o Estado falhou e façam tremer as estruturas que normalizam o inaceitável. Em Massinga, o episódio da ambulância abastecida com dinheiro privado não é apenas um escândalo administrativo; é um alerta vermelho sobre o estado real da saúde em Inhambane: de mal a pior, com vidas humanas a pagar o preço do abandono institucional. O caso de Massinga evidencia o fosso entre a fiscalização formal e a fiscalização substantiva. O direito à assistência transformou-se, em mercadoria negociável à beira do leito, num cenário onde a vida vale tanto quanto a capacidade imediata de pagar. A saúde pública não pode depender do heroísmo ocasional de assessores, nem da capacidade financeira de famílias em desespero. Quando um ministério salva a sua “imagem” à custa do bolso de um cidadão e não da eficiência do Estado, algo está profundamente errado. Quando uma ambulância do Estado não sai por falta de combustível e uma vida só é salva graças ao bolso de um assessor do governador, já não estamos no domínio da anedota administrativa, mas da falência funcional do Estado.
2025/12/3
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