Mineração tenta silenciar jornalismo na província de Manica

Paulo Vilanculo"

 

 

 

O título impõe uma reflexão profunda sobre o direito do povo à informação, consagrado constitucionalmente, e sobre a escalada de intimidação dirigida não apenas a um jornalista em particular, mas a toda a classe jornalística. Em pleno contexto de tensões ligadas à mineração do ouro, ataques a jornalistas e conflitos de interesses económicos na província de Manica, a presença de uma caravana não identificada, dias anteriores, alimenta suspeitas sobre a actuação de estruturas organizadas, possivelmente ligadas a interesses locais de grande influência, reforçando um clima de medo e insegurança que exige esclarecimentos públicos imediatos por parte das autoridades competentes.

 

Manica tornou-se, nos últimos anos, um território de disputa feroz pelo ouro. Garimpeiros artesanais, empresas privadas, intermediários obscuros e grupos economicamente poderosos disputam áreas, licenças e rendimentos num ambiente onde a fragilidade da fiscalização estatal e a corrupção criam terreno fértil para abusos. Nesse cenário, o jornalismo investigativo surge como um elemento incómodo, pois rompe a narrativa oficial de legalidade, desenvolvimento e “investimento responsável”. Carlos Cadangue tem-se destacado por reportagens sensíveis sobre o garimpo artesanal, a actuação de consórcios mineiros, redes de monopólio económico e a conivência silenciosa de determinados actores institucionais no setor da mineração aurífera. Quando interesses económicos ligados à mineração recorrem à violência para silenciar reportagens incómodas, o alvo real deixa de ser o repórter e passa a ser a sociedade, privada do seu direito de saber. Trata-se de um acto grave que ocorre num contexto marcado por disputas económicas violentas, opacidade institucional e conflitos de interesses em torno da exploração do ouro na província de Manica. Contudo, quando o sector passa a produzir também vítimas no campo da comunicação social, o problema adquire uma nova e alarmante dimensão. A tentativa de calar vozes críticas instala o medo como método, condiciona a liberdade de expressão e empurra o jornalismo para a autocensura, fragilizando o espaço público e corroendo os pilares da democracia.

Não se trata apenas de calar uma voz, mas de lançar uma mensagem dissuasora a toda a classe jornalística que investiga a mineração pode custar a vida. Nesses contextos, informar torna-se um acto de coragem, e o silêncio, longe de ser neutro, converte-se numa vitória dos que lucram com a opacidade. A recente tentativa de baleamento do jornalista Carlos Cadangue não pode ser lida como um episódio isolado de criminalidade comum. Olhando para o vasto território com minerais em Mocambique não é a primeira vez que a mineração em Moçambique se associa a conflitos sociais, destruição ambiental e violações de direitos humanos. A exploração de ouro na província de Manica, Moçambique, é caracterizada por uma mistura de concessões formais e intensa mineração artesanal. Garimpeiros/Mineiros Artesanais que ocupam grandes áreas de forma desordenada, especialmente no distrito de Vanduzi, sendo uma força significativa na produção. Recentemente, destacam-se operações na zona de "Seis Carros", em Vanduzi, associadas à empresa África Tantalite e à Cooperativa Nhamahambo, concessionária de uma vasta área de exploração de ouro (cerca de 10 mil hectares) em Púnguè-Sul, distrito de Vanduzi. Embora outras mineradoras operem no país, os relatórios recentes focam na disputa e regulação de áreas de lavra garimpeira no distrito de Vanduzi.

Informações indicam que a família do ex-Presidente Filipe Nyusi tem ligações com a exploração de ouro em Manica através de Florindo Nyusi (seu filho), que controla a empresa Flomining S.A. Esta empresa obteve licenças de exploração de ouro, incluindo uma área anteriormente associada a interesses da família de Armando Guebuza e foi envolvida em polémicas sobre a aquisição de licenças e suspensa por irregularidades ambientais e falta de documentação técnica, operando com parceiros chineses em Mharidza. Relatos apontam que a Flomining S.A. teria assumido o controlo de áreas de mineração sob forte pressão no distrito de Manica. A inspeção-geral dos recursos minerais visitou a mina da Flomining S.A., constatando várias irregularidades na operação. A mineradora foi notificada e suspensa por causar poluição nos rios e por operar sem licença ambiental e plano de segurança, operando com tecnologia chinesa. Indícios apontam ainda para o envolvimento indireto da governadora de Manica, Francisca Tomás, pelos seus representantes Filomena Tomás e Inocêncio Fainda que continuam a explorar ouro através de uma cooperativa titulada por seus filhos, mesmo após a suspensão oficial decretada pelo Governo.

No sábado passado, 31/01/2026 foram avistadas em Gondola três viaturas Land Cruiser de características aparentemente militares, circulando em caravana no sentido Gondola–Chimoio, sem qualquer identificação visível que as associasse à Polícia da República de Moçambique, à UIR, ao GOE ou às Forças de Defesa e Segurança. A ausência de insígnias oficiais e o padrão coordenado de deslocação levantam sérias interrogações quanto à natureza da força, ao destino e ao objectivo da movimentação. A presença de Tropas da Rwanda Defence Force (RDF), desde 2021, forças militares do Ruanda estão implantadas em Moçambique, especialmente em Cabo Delgado e relatos indicam que milhares de soldados ruandeses permaneceram no país até 2026 por acordo com o governo moçambicano. Essas forças têm autorização do Estado moçambicano para estarem no país e movimentam-se por estradas nacionais quando necessário.

Segundo o próprio jornalista Carlos Cadangue, o autor dos disparos que atingiram a viatura em que se fazia transportar, acompanhado do seu filho, trajava um impermeável tipo pingo de chuva e teria saído do interior de uma viatura Ford Ranger de cor escura, com matrícula nacional, um detalhe que levanta sérias inquietações sobre o grau de organização do atentado. A descrição afasta a hipótese de um acto espontâneo ou de criminalidade comum e abre espaço para a tese de que os executores possam integrar uma força ou estrutura local organizada, com logística, cobertura e conhecimento do terreno. A utilização de um veículo robusto e registado no país sugere ainda a possibilidade de mandantes com influência e poder económico, capazes de operar à margem da lei e com aparente sensação de impunidade, reforçando a suspeita de que o ataque possa estar ligado a interesses de elite incomodados pela actividade jornalística do visado.

A reação do Estado, até ao momento, levanta mais inquietações do que garantias. A ausência de esclarecimentos céleres, a lentidão das investigações e o histórico de impunidade em casos semelhantes reforçam a percepção de que há uma tolerância perigosa diante da violência contra jornalistas, sobretudo quando esta cruza interesses económicos de grande escala. A neutralidade institucional, nestas circunstâncias, pode facilmente ser lida como cumplicidade passiva. Num país que se diz comprometido com a transparência, o desenvolvimento sustentável e o Estado de Direito, permitir que a mineração silencie o jornalismo é aceitar que a violência seja um instrumento legítimo de gestão económica. E isso, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço demasiado alto a toda a sociedade.

Quando um jornalista passa a ser alvo de intimidação armada, ao expor interesses cruzados, práticas predatórias e a marginalização das comunidades locais, o jornalista tocou num dos nervos mais sensíveis da economia extractiva regional: o lucro fácil protegido pelo silêncio. Atacar jornalistas é atacar os mecanismos de controlo democrático e empurrar as comunidades para o isolamento informativo. A tentativa de silenciamento violento de Cadangue revela até que ponto determinados interesses estão dispostos a ir para proteger privilégios. o ataque deixa de ser apenas contra um cidadão e passa a ser um atentado direto à liberdade de imprensa e ao direito público à informação. Esse modus operandi vai transformar a província numa zona de medo, onde a censura deixa de ser administrativa ou económica e passa a ser física. O caso de Carlos Cadangue deve ser encarado como um teste à maturidade democrática do país. Proteger o jornalista, investigar o crime com independência e responsabilizar os autores morais e materiais não é um favor corporativo à imprensa, mas uma obrigação constitucional. Caso contrário, Manica arrisca-se a consolidar-se como um espaço onde o ouro fala mais alto do que a verdade, e onde as balas substituem os argumentos.

 

2025/12/3