
Paulo Vilanculo"
Numa acusação de uma figura politica a questão fundamental de tratamento não deveria ser se ele pertence à oposição ou ao poder. Quando o opositor político é levado aos tribunais, quando existem perceções de perseguição, pressão para um julgamento célere com controvérsias sobre a sua transmissão publica pode estabelece-se um paralelismo de “conspiração” e uma “condenação precoce”. Pode existir justiça verdadeira quando parecer que a decisão estar formada antes da prova ser devidamente examinada? Quem estará disposto a carregar o peso da reconciliação quando uma sociedade se encontra profundamente dividida na política contemporânea moçambicana?
A condenação de Jesus Cristo pode ser estudada em duas dimensões complementares: a dimensão histórica/narrativa, envolvendo as autoridades, Pilatos, Herodes, a multidão e a crucificação e a dimensão teológica, na qual os autores interpretam a morte de Cristo como sacrifício, expiação e cumprimento das Escrituras. Durante a celebração da Páscoa, Jesus reuniu os seus discípulos. “(…) e, tendo Jesus acabado todos estes discursos, disse aos seus discípulos: Vós sabeis que, daqui a dois dias, é a Páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado” (Mateus 26:1–2). Na mesma ocasião, Jesus instituiu a Ceia, tomando o pão disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”). E sobre o cálice: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados”. Depois da ceia, Jesus dirigiu-se ao jardim do Getsêmani com os discípulos e, disse: “A minha alma está profundamente triste até à morte”. “E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”.
Os principais sacerdotes e os anciãos reuniram-se para planear a prisão de Jesus, procuravam uma forma de prender e matar Jesus, mas queriam fazê-lo sem provocar uma reação popular. Judas Iscariotes, um dos doze discípulos, “buscava oportunidade para o entregar Jesus”, procurou os principais sacerdotes e ofereceu-se para entregar Jesus. Judas chegou ao Getsêmani acompanhado por uma multidão armada enviada pelos principais sacerdotes e anciãos. Judas identificou Jesus através de um beijo: “Aquele que eu beijar, esse é; prendei-o”. Jesus, recusou a resistência: “porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão” (Mateus 26:52). Jesus foi então preso. Como a autoridade romana tinha competência para executar uma sentença de morte, eles procuraram apresentar Jesus como alguém que ameaçava a autoridade política de Roma. Dada a prisão, os líderes religiosos levaram Jesus ao governador romano, Pôncio Pilatos. Depois de interrogar Jesus, Pilatos não encontrou fundamento para condená-lo. “Eu não acho nele crime algum” (João 18:38). “Não acho culpa alguma neste homem”. Ao saber que Jesus era galileu, Pilatos enviou-o a Herodes, que estava em Jerusalém. Herodes interrogou Jesus e esperava vê-lo realizar algum milagre, mas Jesus permaneceu em silêncio. Pilatos voltou a reunir os principais sacerdotes e autoridades. Ele afirmou: “Eis que, apresentando-o eu a vós, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem”. Pilatos acrescentou: “Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti; eis que não tem feito coisa alguma digna de morte”. Pilatos propôs castigá-lo e depois libertá-lo. (Lucas 23:16).
Os acusadores e escribas insistiram, continuaram a acusá-lo. Todo o Sinédrio procurava testemunhas contra Jesus para condená-lo à morte. Foram apresentadas falsas testemunhas, mas os testemunhos não coincidiam. “Havemos achado este pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, um rei” (Lucas 23:2). Jesus foi humilhado, cuspido, espancado e insultado, zombaram Jesus, vestiram-no com uma roupa vistosa e devolveram-no a Pilatos. Pilatos voltou a examiná-lo e novamente perguntou a Jesus: “Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.” Jesus respondeu: “Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Pilatos perguntou: “És tu o Rei dos judeus?” Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo” (João 18:33–36). O sumo sacerdote considerou a declaração uma blasfêmia e perguntou ao conselho: “Que necessidade temos ainda de testemunhas?”. “E eles, todos, o julgaram réu de morte” (Marcos 14:64).
Jesus foi levado ao lugar chamado Gólgota, que significa “Lugar da Caveira” (Marcos 15:22). Havia um prisioneiro famoso chamado Barrabás. Pilatos perguntou: “Qual quereis que vos solte? Barrabás ou Jesus, chamado Cristo? Os líderes religiosos e sua multidão escolheram Barrabás. “Solta-nos Barrabás.” Quando Pilatos perguntou o que deveria fazer com Jesus, responderam: Crucifica-o!”. Pilatos insistiu: “Mas que mal fez ele?” Eles gritavam cada vez mais: “Seja crucificado!” Pilatos perguntou: “Hei de crucificar o vosso Rei?” Os principais sacerdotes responderam: “Não temos rei, senão César”. Pilatos percebeu que não estava conseguindo convencê-los. Pilatos levou Jesus para fora e diante do povo disse: Então lavou as mãos: “Estou inocente do sangue deste justo; considerai isso.” “Eis aqui o vosso Rei.”(João 19:14). “Então lho entregou para que fosse crucificado” (João 19:16). O Sinédrio considerou Jesus digno de morte. Ali foi crucificado entre dois criminosos. Um dos criminosos repreendeu o outro reconhecendo a inocência de Jesus: “Nós, na verdade, justamente, recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez”. Os líderes religiosos e soldados diziam: “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se” (Mateus 27:42). Pilatos mandou colocar sobre a cruz uma inscrição: “… O REI DOS JUDEUS” (João 19:19). A inscrição foi escrita em hebraico, latim e grego. Os principais sacerdotes pediram que Pilatos alterasse a inscrição, mas ele respondeu: “O que escrevi, escrevi” (João 19:21–22).
Esta história que atravessa séculos não apenas pela sua dimensão religiosa, mas também pela capacidade de interpelar a consciência humana sobre o poder, a justiça e a responsabilidade. É neste ponto que precisamente esta narrativa bíblica serve como metáfora para uma reflexão sobre o julgamento de figuras políticas contemporâneas, entre elas VM7. Não se trata de equiparar pessoas, acontecimentos históricos ou contextos jurídicos diferentes. Trata-se, antes, de perguntar o que acontece quando a justiça deixa de ser percebida exclusivamente como espaço de apuramento imparcial dos factos e passa a ser vista, pela sociedade, como parte de uma disputa política. Esta dimensão pode oferecer uma reflexão importante para Moçambique. Uma sociedade marcada por disputas políticas não precisa de transformar cada adversário num inimigo absoluto. O adversário político não deixa de ser cidadão. O opositor não deixa de ter direitos. E o Estado deve deixar de ser confundido com o partido que temporariamente ocupa o poder.
A história de Jesus continua a interpelar a humanidade dois mil anos depois, talvez seja justamente porque continua a colocar uma pergunta que nenhuma democracia pode ignorar: quando todos gritam “crucifica-o”, quem terá coragem de perguntar primeiro: “mas que mal fez ele?”. Jesus foi interrogado, acusado e condenado num ambiente marcado por interesses religiosos e políticos. O caso de VM7 também é colocado aqui apresentado em reflexão precisamente na percepção de uma possível condenação antecipada e da dúvida sobre se o processo judicial que está a ser acompanhado por uma disputa política mais ampla. No julgamento antes do julgamento, o perigo de qualquer sistema de justiça não está apenas numa eventual condenação injusta. Está também na possibilidade de Herodes, o Sinédrio, os principais sacerdotes e os anciãos produzirem uma condenação moral antes de existir uma decisão judicial definitiva. Quando uma pessoa é apresentada publicamente como culpada antes de concluído o processo, o julgamento deixa de ocorrer apenas no tribunal e passa a acontecer nos discursos políticos. O próprio relato bíblico mostra que diferentes autoridades participaram do processo, enquanto a multidão exerceu pressão sobre a decisão.
A imagem de Pilatos a lavar as mãos tornou-se, ao longo da história, uma das metáforas mais conhecidas sobre a responsabilidade diante da injustiça. Lavar as mãos pode significar declarar-se exterior ao problema, mas não necessariamente elimina a responsabilidade de quem possui autoridade para decidir. O maior ensinamento que pode ser retirado da narrativa da condenação de Jesus não é que todos os acusados sejam inocentes, nem que todas as autoridades sejam necessariamente injustas. A lição mais profunda está na necessidade de separar acusação, prova, julgamento e condenação. A justiça que necessita de inimigos para se afirmar deixa de ser justiça e transforma-se em instrumento de poder. A democracia moderna construiu instituições precisamente para evitar que a paixão política ou a conveniência do poder construa prova e o devido processo legal. É necessário que as instituições produzam decisões transparentes, fundamentadas e compreensíveis para a sociedade.
2025/12/3
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