
Paulo Vilanculo"
A Livraria Fundza transformar-se hoje num espaço de reflexão e cidadania ao reunir, um atelier filosófico no Centro Cultural Aruangua, na cidade da Beira, onde académicos, escritores, estudantes, activistas e membros da sociedade civil estão em torno do tema “Lutar por Moçambique Hoje”, numa iniciativa que procurou resgatar o sentido contemporâneo do compromisso com o país. O encontro, marca intervenções plurais e um ambiente de debate aberto que procura questionar quais são os desafios que se colocam às novas gerações num contexto caracterizado por crises económicas, tensões políticas, desigualdades sociais e uma crescente desconfiança nas instituições.
A 25 de junho Moçambique celebra mais um ano de elevação a sua independência politica do então governo colonial português. Mais do que uma simples evocação do passado, o debate constituiu uma convocatória à responsabilidade colectiva, recordando que a luta por Moçambique não terminou em 1975, mas continua a exigir cidadãos conscientes, instituições fortes e uma permanente capacidade de diálogo. Partindo da herança deixada por Eduardo Mondlane, autor da obra Lutar por Moçambique, a reflexão procura compreender como a ideia de luta se deslocou do combate ao colonialismo para a necessidade de construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e democrática. Hoje, argumenta-se que a batalha não é apenas pela independência política já conquistada, mas pela consolidação da cidadania, pela defesa da ética pública, pela valorização do diálogo e pela afirmação da soberania económica e cultural do país.
A crescente crise social, económica e política em Moçambique tem levado diversos sectores da sociedade a questionarem o papel dos intelectuais na transformação das condições de vida dos cidadãos. Embora as universidades e os centros de pesquisa continuem a produzir conhecimento, persiste a percepção de que muitos intelectuais se mantêm distantes dos problemas concretos da população ou excessivamente próximos dos centros de poder, limitando a sua capacidade crítica e interventiva. O filósofo moçambicano Severino Ngoenha tem defendido que o intelectual não deve ser apenas um produtor de conhecimento, mas um agente comprometido com a construção do bem comum e com a promoção do debate público. Na mesma linha, o sociólogo Elísio Macamo sustenta que a função do intelectual consiste em problematizar a realidade e estimular uma cultura crítica, e não apenas legitimar discursos. Nesta via, as interrogações da sociedade moçambicana revelam uma exigência crescente de que os intelectuais abandonem a neutralidade confortável e assumam uma participação mais activa na formulação de soluções, na denúncia das injustiças e na construção de uma cidadania mais consciente, transformando o saber académico em instrumento de intervenção social e não apenas em património restrito aos círculos especializados.
Num contexto em que uma parte significativa da juventude moçambicana enfrenta o desemprego, a fraca qualidade da escolaridade, a desorientação cívica e a vulnerabilidade a diversos vícios e comportamentos de risco, o papel dos intelectuais torna-se fundamental na formação de uma consciência crítica e na produção de alternativas para o desenvolvimento humano. Mais do que se limitarem aos espaços académicos, os intelectuais são chamados a exercer aquilo que o filósofo italiano Antonio Gramsci denominou de função do “intelectual orgânico”, isto é, um agente comprometido com as necessidades da sociedade e capaz de contribuir para a elevação cultural e moral das massas. Em Moçambique, isso implica participar activamente no debate público, influenciar políticas educacionais e de emprego, promover valores éticos, estimular o empreendedorismo e servir de referência para uma juventude frequentemente exposta à desesperança e à alienação. Como defendia o educador Paulo Freire, a educação deve ser um instrumento de libertação e de transformação da realidade; por isso, a ausência ou o silêncio dos intelectuais diante das dificuldades enfrentadas pelos jovens representa não apenas uma perda para a sociedade, mas também uma renúncia ao compromisso histórico de colocar o conhecimento ao serviço da emancipação humana.
Emergiram preocupações relacionadas com a fragilidade do Estado, a distância entre governantes e governados, o desemprego juvenil, a captura das instituições por interesses particulares e a perda de confiança no projecto nacional. Talvez lutar por Moçambique, na actualidade, signifique restaurar a esperança colectiva e reconstruir um sentido de pertença baseado não apenas em direitos, mas também em deveres cívicos e responsabilidades partilhadas. Inspirando em reflexões desenvolvidas pelo filósofo Severino Ngoenha e por outros intelectuais moçambicanos, sublinha-se que a geração da independência respondeu à pergunta sobre quem deveria decidir pelo povo moçambicano, enquanto a geração actual enfrenta uma questão igualmente complexa: como decidir em conjunto e construir consensos numa sociedade plural. A luta do presente passa pela substituição da linguagem da exclusão por uma cultura de debate e reconhecimento mútuo. Há necessidade de transformar o espaço público num local de diálogo e de escuta mútua pode ser apontada como condição indispensável para a estabilidade e a paz social. Numa época marcada pela polarização e pelo desencanto, talvez a maior forma de lutar por Moçambique seja preservar a capacidade de conversar, pensar em comum e imaginar um futuro que pertença a todos.
O país continua confrontado com desafios de segurança, desigualdades económicas e tensões políticas, o encontro promovido pela Livraria Fundza no Aruangua procura reafirmar o papel dos espaços culturais como locais privilegiados para a produção de pensamento crítico e para a construção de alternativas. A cidade da Beira, historicamente conhecida por Aruângua, constitui um dos mais importantes centros urbanos e culturais de Moçambique, destacando-se pela sua tradição de pluralismo político, diversidade étnica e riqueza linguístico-cultural. Situada na província de Sofala, a Beira desenvolveu-se como um espaço de convergência de diferentes povos e influências, acolhendo comunidades oriundas de várias regiões do país, o que favorece a convivência entre múltiplas identidades culturais, religiosas e linguísticas. Ao longo da sua história, a cidade tornou-se palco de importantes debates políticos e sociais, sendo igualmente reconhecida pelo seu espírito cosmopolita e pela coexistência de diferentes sensibilidades ideológicas. A predominância de línguas como o português, o chi-sena, o ndau, o chi-tewe e outras variantes locais reflete a riqueza do seu mosaico etnocultural. Esta diversidade, associada à sua tradição de abertura e participação cívica, faz da Beira ou Aruângua, como é evocada em certos círculos históricos e culturais, um símbolo da convivência plural e um espaço privilegiado para a circulação de ideias, para a produção intelectual e para o fortalecimento da democracia e da cidadania em Moçambique.
2025/12/3
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