Explorações mineiras em Inhambane: barricadas das comunidades de Belane e Chipandeni, outro Afungi?

Paulo Vilanculo"

O ano de 2026 apresenta-se como um marco simbólico e político para Vilankulos e, em extensão, para Distrito de Vilanculos. Tradicionalmente reconhecida como destino turístico de excelência, ancorado no arquipélago do Bazaruto e na economia de serviços, a região passa agora a ser reposicionada no mapa do extrativismo estratégico nacional, assumindo contornos que evocam um “novo Afungi”, não apenas pela escala dos investimentos, mas pelas expectativas, tensões, contradições e inevitavelmente que os acompanham.

 

A Província de Inhambane é estruturalmente desapropriada do valor que detêm prendendo-se o seu desenvolvimento na combinação entre economia de enclave, centralismo político, exclusão comunitária e captura elitista da riqueza e a população local participa apenas como espectador com mão-de-obra precária, visto como obstáculo a ser contornado, e não como sujeito central do processo económico. Esta inflexão torna-se mais evidente com o novo mega-projecto de exploração mineira em Vilankulos, sob responsabilidade da empresa Haiyu Mining, na concessão mineira de cobre numa área de 3.190 hectares, com reservas estimadas em 93,77 milhões de toneladas de minerais pesados, incluindo ilmenite, dióxido de titânio, zircão e terras raras, recursos de elevado valor estratégico no mercado internacional. O investimento inicial ronda os 30 milhões de dólares, cerca de 1,8 mil milhão de meticais, com o Governo a estimar receitas fiscais na ordem dos 66 milhões de meticais apenas em imposto sobre a produção. Em termos de horizonte temporal, fala-se numa actividade com potencial para meio século, argumento frequentemente invocado para sustentar a promessa de desenvolvimento económico de longo prazo para Inhambane.

Os trabalhos de implantação já realizados incluem estudos geológicos e de impacto ambiental, obtenção do DUAT em 2022 e da licença ambiental em 2024, terraplenagem do acampamento definitivo, construção de acessos rodoviários, ensaios com draga-piloto, definição de zonas de armazenamento e a instalação de uma planta de processamento, em estado avançado, que permitirá o escoamento da exportação. Em Setembro de 2025, durante uma visita de trabalho às localidades de Mapihe e Quewene, o Administrador do distrito, José Jeremias, concentrou sua maior atenção a este projecto mineiro de Quewene por representar um salto qualitativo no modelo económico distrital. Em fase experimental, com infra-estruturas de suporte em construção, o projecto deverá entrar em operação plena no presente ano de 2026, preparando o terreno para uma exploração integral a partir de 2027. Só os depósitos de Belane e Quewene permitem projecções de exploração contínua por mais de duas décadas na fase inicial, colocando Vilankulos e o corredor sul como plataformas emergentes da mineração industrial em Moçambique. A ilmenite, principal mineral em exploração, destina-se à produção de dióxido de titânio, amplamente utilizado nas indústrias de tintas, têxteis, plásticos, cerâmicas, automóveis, papel e até na indústria alimentar.

Mas por detrás da narrativa oficial de progresso, emergem sinais de alerta que lembram experiências passadas. Fontes locais referem conflitos e barricadas nas comunidades de Belane e Chipandeni, que se sentem excluídas do processo decisório e dos benefícios prometidos. Trata-se de um padrão já observado noutros megaprojetos nacionais da SASOL, passando pelas areias pesadas em Inhambane, onde o “desenvolvimento” anunciado se traduz, para muitos, em empobrecimento, deslocações, conflitos cíclicos e fraca redistribuição da riqueza. O Estado prefere sonegar porque o reconhecimento do empobrecimento local obrigaria a uma revisão profunda das opções políticas feitas nas últimas décadas. Essa admissão colocaria em causa alianças económicas, interesses partidários e redes de benefício que se alimentam precisamente da opacidade entre crescimento macroeconómico e miséria local. Este quadro é agravado pela captura dos benefícios por elites políticas e económicas. Licenças, concessões e direitos de uso da terra são negociados em circuitos restritos, distantes das comunidades, transformando o Estado num mediador de interesses privados e não num promotor do desenvolvimento local. A sonegação também é funcional ao discurso da estabilidade.

Lembrar que, segundo a Voa, de 20/06.2020, citando Reuters, a gigante petroquímica sul-africana Sasol Ltd explorava gás, entre Inhambane e Sofala, na costa de Moçambique no Bloco 16/19, tendo recebido a licença de pesquisa em 2005, em 2013 abandonou a parte de águas profundas da licença, mantendo a avaliação de potencial de hidrocarbonetos na parcela de águas rasas. Entretanto, o gás descoberto num dos furos Njika, nas águas profundas, foi considerado não comercialmente viável numa área de exploração que passou de 10 548 km2 para 2 857 km2, conforme dados do Instituto Nacional de Petróleo. A narrativa oficial mede sucessos por volume de investimento, número de licenças emitidas ou valor das exportações, ignorando os indicadores concretos de vida precária das populações que se perpetua. Grandes decisões estratégicas são tomadas fora da província, onde a governação provincial tende a reproduzir relações de dependência, limitando a sua autonomia no planeamento territorial e não a adaptação das políticas públicas às realidades locais.

A história mostra que modelos baseados na exclusão colapsam por excesso de desigualdade e perda de legitimidade. Quando as comunidades deixam de ver o Estado como mediador justo e passam a percebê-lo como cúmplice da sua pobreza, o conflito deixa de ser exceção e torna-se regra. Quando projetos avançam sem consulta real e sem ganhos visíveis para as comunidades, o desenvolvimento transforma-se em fonte de conflito com barricadas, protestos ou resistência silenciosa que gera um clima de instabilidade que afasta investimentos produtivos de longo prazo. Comunidades excluídas, deslocadas ou ignoradas nos processos de decisão respondem com resistência aberta ou silenciosa, conflitos recorrentes e desconfiança em relação ao Estado e aos investidores e o chamado “desenvolvimento” tende a perder legitimidade social. Ao ocultar conflitos, deslocações, precarização do trabalho e degradação ambiental, o Estado preserva uma imagem de “ambiente favorável ao investimento”, mesmo que esse ambiente seja construído à custa do silenciamento das comunidades.

O turismo, principal imagem económica da província, estrutura-se como uma economia de enclave. Resorts, hotéis e empreendimentos de luxo coexistem com comunidades empobrecidas, sem que se construam cadeias económicas locais robustas. Hotéis, resorts e agora projetos mineiros e energéticos operam desligados do tecido económico local em que os insumos são importados, os quadros técnicos vêm de fora, lucros são repatriados ou concentrados fora da província e o resultado é um crescimento estatístico sem transformação estrutural da economia local. Enquanto a riqueza continuar a ser extraída sem encadeamento produtivo local, enquanto o turismo permanecer segregado e enquanto o Estado funcionar mais como facilitador do capital do que como garante do interesse público, Inhambane continuará prisioneira do paradoxo de ser rica em potencial, abundante em recursos, mas pobre em transformação social.

Apesar do potencial turístico extenso e da abundância de recursos naturais, o desenvolvimento de Inhambane continua travado por um conjunto de bloqueios estruturais, institucionais e políticos que se reproduzem ao longo do tempo. Não há indústria transformadora relevante, o emprego qualificado permanece escasso, assim, sem industrialização, não há desenvolvimento sustentado. Grande parte dos bens consumidos pelo sector é importada, os quadros técnicos são maioritariamente externos e os lucros tendem a circular fora da província. Inhambane exporta matérias-primas e importa produtos acabados, o turismo e a mineração não alimentam cadeias industriais locais. As fragilidades infraestruturais reforçam estas limitações. Persistem défices estruturais entre estradas secundárias degradadas e Água, saneamento e transporte precários nas zonas rurais, onde o desenvolvimento concentra-se em ilhas de progresso, deixando vastas áreas em abandono funcional. O resultado é um desenvolvimento concentrado em ilhas de prosperidade, cercadas por vastos territórios de exclusão social e económica.

O que prende o desenvolvimento de Inhambane não é a fraca rentabilização do turismo nem incapacidade local de explorar os  recursos minerais, mas sim, o modelo económico, político de gestão redistributiva. O desafio central não reside apenas na extracção dos minerais, mas na capacidade do Estado, das empresas e das lideranças locais de romper com o modelo de enclave, transformar recursos em bem-estar concreto e evitar que o novo ciclo económico se construa, mais uma vez, sobre a exclusão das comunidades que vivem sobre a terra rica, mas historicamente empobrecida. Admitir que zonas ricas em turismo, gás ou minerais permanecem pobres é reconhecer o fracasso de um modelo extractivo concentrador, dependente de capital externo e pouco interessado em encadeamentos produtivos internos. Este modelo reduz a iniciativa local e transforma a província num espaço de execução, e não de concepção do desenvolvimento. Isso persistirá até que o custo social do silêncio supere o conforto político da negação.

O desenvolvimento de Vilankulos, em particular, está a deixar de ser percebido como oportunidade coletiva e está a passar para uma dimensão de ameaça à sobrevivência local e o desenvolvimento e tende a transforma-se numa narrativa técnica, politizada, que reduz pessoas a números e territórios a concessões. É neste contexto que Vilankulos entra em 2026 entre a promessa de uma nova era económica e o risco de repetir o enredo de Afungi, onde abundância de recursos convive com desigualdades profundas e frustrações sociais. Assim, Inhambane cresce, mas não se desenvolve; produz valor, mas não o converte em bem-estar social duradouro.

2025/12/3