Espectáculo da artista Ana Joice na Beira: desconstrução da cultura, política e educação

Paulo Vilanculo"

A notícia de que a cantora angolana Ana Joice toma uma das escolas secundárias Samora Moisés Machel na cidade da Beira como palco de um espectáculo público levanta uma questão que vai muito além da música, da cultura ou do direito ao entretenimento. O mesmo recinto que deveria representar concentração, aprendizagem e disciplina pode transformar-se num palco de entretenimento. Que valor simbólico estamos a atribuir à escola? Que imagem moral estamos a construir quando um espaço destinado à formação de jovens é transformado num centro de diversão? ue escola queremos construir e que mensagem queremos transmitir aos nossos jovens? Qual é a finalidade da utilização do espaço escolar? Quando um espaço concebido para ensinar, formar e preparar jovens para a vida é convertido em recinto de diversão, séria que estaremos, pouco a pouco, a desconstruir a própria cultura da educação?

 

Há acontecimentos que parecem banais, mas que, observados com atenção, revelam profundas contradições de uma sociedade. A discussão deste artigo de opinião não deve ser entendida como uma condenação da artista, muito menos da música angolana, mas como uma reflexão sobre o significado social dos lugares que escolhemos para determinadas actividades. A Escola secundaria na Beira virou palco entretenimento nesta sexta fera na Beira. Não se trata sequer de defender que uma escola nunca possa acolher uma actividade cultural. Uma escola não é apenas um edifício que pode ser ocupado conforme a conveniência do momento. É uma instituição social carregada de significado, cuja principal missão é educar. A escola simboliza o conhecimento. É ali onde se pretende ensinar conhecimento, disciplina, responsabilidade, cidadania e respeito pelos valores colectivos. Durante décadas, a escola foi apresentada às novas gerações como um espaço de respeito, disciplina, conhecimento e construção do futuro.

O problema ocorre precisamente quando a escola deixa de utilizar a cultura como instrumento educativo e passa simplesmente a disponibilizar o seu espaço para o entretenimento. À primeira vista, trata-se apenas de música, entretenimento e celebração. A controvérsia, portanto, não está necessariamente em permitir que uma cantora se apresente numa escola. Mas se ensinamos aos estudantes que determinados espaços possuem finalidades específicas, devemos também preservar essa distinção. Hoje pode ser apenas um espectáculo. Amanhã poderá ser outra coisa. E, quando dermos conta, talvez tenhamos preservado os edifícios das escolas, mas desconstruído a cultura que deveria habitá-los, a cultura de aprender, pensar, questionar e construir o futuro. Não se trata de dizer que a música não educa. Educa. É verdade que a cultura artística é indispensável à formação humana e a música constitui uma poderosa linguagem de identidade, expressão e socialização. A música também educa, a arte também forma e a cultura também constrói identidade. A escola pode ser palco de cultura, mas não deveria correr o risco de ser percebida como uma extensão de uma praça de diversão. Talvez seja precisamente essa fronteira que precisamos de recuperar.

Uma sociedade que perde o respeito pelo conhecimento abre espaço para a improvisação, para a superficialidade e para a inversão das prioridades, em que a escola começa a ser utilizada indistintamente para espectáculos, festas e outras actividades recreativas, corre-se o risco de banalizar a sua função. Porque uma sociedade que começa a perder o respeito simbólico pela escola pode, silenciosamente, começar a perder o respeito pelo conhecimento. É aqui que a expressão “desconstrução da cultura da educação” ganha sentido. É precisamente nessa banalização que pode começar a desconstrução da cultura da educação. A desconstrução da cultura da educação começa precisamente quando os interesses dos adultos passam a falar mais alto do que o direito dos jovens a uma escola protegida, respeitada e pedagogicamente orientada, quando os interesses dos adultos ocupam o espaço simbólico destinado à educação perde centralidade e a instituição escolar corre o risco de ser instrumentalizada.

Por outro lado, observa-se a instrumentalização político-partidária da escola impõe um desvio da missão educativa e o risco torna-se ainda mais preocupante quando a gestão político-partidária dos espaços públicos começa a interferir na identidade e na missão das instituições educativas. A escola não pode transformar-se num palco onde as conveniências políticas, partidárias ou recreativas se sobrepõem às necessidades pedagógicas. Mais grave ainda é quando essa instrumentalização se normaliza, porque aquilo que hoje parece uma cedência ocasional do espaço escolar pode amanhã transformar-se numa cultura de gestão em que a escola é vista menos como lugar de aprendizagem e mais como património disponível para finalidades alheias à sua missão.

Neste contexto, a transformação de uma escola em recinto de espectáculo pode parecer apenas um detalhe, mas revela uma determinada hierarquia de prioridades, será que encontramos facilmente espaço e energia para a diversão, enquanto continuamos a ter dificuldades para garantir plenamente as condições de aprendizagem. Existe, portanto, uma controvérsia nesta oportunidade. Quando a escola deixa de ser tratada prioritariamente como espaço de formação dos jovens e passa a ser disponibilizada para servir interesses de mobilização, promoção ou entretenimento de adultos, estamos perante uma perigosa inversão da função educativa. Na verdade, Beira merece cultura. Os beirenses merecem entretenimento. Ana Joice, como artista, merece igualmente espaços para apresentar a sua música. Mas a cidade também merece escolas respeitadas na sua função essencial de formar cidadãos antes de formar plateias.

2025/12/3