Erros da Guerra em Cabo Delgado: quando a estratégia falha e o povo paga o preço

Paulo Vilanculo"

Desde 2017, quando os primeiros ataques armados foram registados em distritos como Mocímboa da Praia e Palma, o Estado moçambicano respondeu de forma predominantemente militar. No entanto, esse enfoque revelou-se limitado. Um dos principais erros foi subestimar a natureza do conflito, inicialmente tratado como criminalidade organizada ou banditismo local, quando, na verdade, evoluía para uma insurgência com contornos ideológicos, redes transnacionais e profundas raízes socioeconómicas. A entrada de forças estrangeiras, incluindo as tropas do Ruanda e da SADC, trouxe ganhos militares visíveis, como a recuperação de territórios estratégicos. Contudo, este sucesso tático não foi acompanhado por uma estratégia sustentável de estabilização. A dependência de forças externas expõe fragilidades internas e levanta dúvidas sobre a capacidade do Estado moçambicano de garantir segurança de forma autónoma.

O Ruanda vem-se afirmando como um “exportador de segurança” em África. Ao intervir em Moçambique, reforça a sua imagem como parceiro confiável para missões de estabilização. Isso aumenta o seu peso diplomático junto de potências ocidentais e instituições internacionais. É sabido que missões externas como esta frequentemente contam com financiamento ou apoio logístico de parceiros internacionais como União Europeia ou outros aliados. O Ruanda projeta poder sem suportar integralmente os custos e ainda fortalece relações estratégicas. Por outro lado, a intervenção coloca o Ruanda numa região onde tradicionalmente não tinha grande influência, área que é historicamente dominada por blocos como a SADC. Isso amplia o seu raio de ação política no continente.

Num exercício de diplomacia que roça a contradição, o Ruanda ergue, em Cabo Delgado, a bandeira da defesa da soberania de Moçambique, apresentando-se como garante da estabilidade contra a insurgência. Entretanto, no leste da República Democrática do Congo, persistem acusações internacionais de que Kigali apoia o Movimento M23, um grupo armado que desafia diretamente a soberania congolesa. O Ruanda consegue, simultaneamente, ser visto como parceiro de segurança confiável por países e instituições internacionais, como é o caso de Moçambique e como ator controverso no Congo. Entre o discurso e a prática, o Ruanda joga em dois tabuleiros, expondo as fragilidades de uma ordem regional onde a coerência cede espaço ao pragmatismo geopolítico. Ou seja, aí a soberania deixa de ser um valor fixo e passa a ser uma ferramenta política. Um contraste que pode ser descrito como um paradoxo de soberania seletiva ou, de forma mais crua, como um caso clássico de realismo político aplicado à geopolítica africana.

Essa ambiguidade não é acidental, é uma estratégia que maximiza ganhos em diferentes frentes. Em ambos os casos, o denominador comum é a defesa de interesses não necessariamente a coerência normativa. O Ruanda não está em Cabo Delgado apenas por altruísmo. Está por estratégia. O interesse não é apenas projetar o poder e ganhar legitimidade internacional. Ruanda Ganha influência, prestígio, experiência militar e possíveis vantagens económicas. Em Cabo Delgado, o Ruanda apresenta-se como defensor da integridade territorial de Moçambique, combatendo grupos insurgentes e ajudando o Estado a recuperar controlo sobre áreas estratégicas de exploração do gás e extrações mineiras. A presença do Ruanda em Cabo Delgado não é apenas um gesto de solidariedade regional ou combate ao terrorismo, há benefícios concretos, estratégicos e políticos para Kigali. Embora nem sempre publicamente detalhado, há indícios de acordos bilaterais que envolvem segurança em troca de oportunidades económicas. Cabo Delgado é rico em gás natural e outros recursos, e a estabilização da região interessa a multinacionais e investidores. O Ruanda posiciona-se como parceiro preferencial nesse ecossistema.

Outro erro crítico negligenciado é a dimensão económica do conflito. Cabo Delgado é uma região rica em recursos naturais, incluindo gás natural, rubis e madeira. No entanto, a população local continua a viver em condições de pobreza extrema. A promessa de desenvolvimento associada a megaprojetos, como o gás na bacia do Rovuma, não se traduziu em benefícios concretos para as comunidades, alimentando frustrações que podem ser instrumentalizadas por grupos armados. Este afastamento abriu espaço para exploração de ressentimentos, desigualdades e promessas de inclusão, sobretudo entre jovens marginalizados. Além disso, persistem críticas quanto à falta de transparência na gestão do conflito. Informações desencontradas, ausência de prestação de contas e denúncias de abusos por parte de forças de defesa contribuem para minar a confiança pública. A guerra, nestes moldes, deixa de ser apenas contra insurgentes e passa a ser também uma batalha pela legitimidade do próprio Estado.

A recente sinalização de que o Ruanda poderá rever a sua presença militar em Cabo Delgado levanta um alerta sério sobre o rumo da guerra contra a insurgência no norte de Moçambique. Mais do que um episódio diplomático ou militar, trata-se de um sintoma de falhas acumuladas, estratégicas, políticas e sociais, que têm marcado este conflito desde o seu início. Cabo Delgado não precisa apenas de soldados, precisa de Estado, um Estado presente, justo e capaz de ouvir. A possível retirada do Ruanda deve ser interpretada como um sinal de desgaste e, sobretudo, como um aviso de falta de solução militar duradoura para um problema que é, em essência, político e social. Sem reformas estruturais, inclusão económica, justiça social e reconciliação comunitária, qualquer vitória no campo de batalha será apenas temporária. Assim, os erros da guerra continuarão a repetir-se, e o custo será, como sempre, pago pelos mais vulneráveis.

2025/12/3