
Paulo Vilanculo"
Depois da utilização de tratores com atrelados para o transporte público de passageiros, uma medida implementada pelo Governo e que tem sido alvo de forte contestação que a população e a sociedade civil consideram a alternativa um "fiasco" e uma regressão, visto que estes veículos não possuem o conforto nem os padrões de segurança exigidos, o anúncio do Governo moçambicano sobre a abertura de um concurso público Internacional para selecionar um parceiro privado destinado à implantação de uma fábrica de montagem de automóveis no país de veículos compatíveis com a transição energética do país, com destaque para autocarros e carros movidos a gás e energia eléctrica reacende debate sobre as prioridades do Estado num contexto marcado por profundas dificuldades económicas e sociais. Será que a produção de automóveis responde às prioridades de um país onde milhares de famílias lutam diariamente pelo acesso à alimentação, educação, saúde e energia? Faz sentido falar de veículos elétricos quando inúmeras famílias ainda recorrem a candeeiros, lenha e carvão para satisfazer necessidades básicas? Será que uma nação que ainda luta para garantir o básico aos seus cidadãos deve colocar a produção de automóveis entre as suas prioridades imediatas, ou deveria primeiro assegurar que o desenvolvimento chegue às casas, escolas, hospitais e comunidades que continuam à espera de respostas concretas? De que forma este projeto contribuirá para melhorar a vida da maioria dos moçambicanos? Afinal, para quem serão produzidos estes carros elétricos, quando grande parte dos moçambicanos vive em zonas sem energia elétrica regular e sem capacidade financeira para adquirir sequer veículos convencionais?
À primeira vista, trata-se de uma iniciativa alinhada com as tendências globais de mobilidade sustentável e redução das emissões de carbono. Por um lado, o país procura alinhar-se com as tendências globais de mobilidade sustentável e transição energética; por outro, milhões de moçambicanos continuam sem acesso regular à eletricidade, sobretudo nas zonas rurais. Embora o projeto seja apresentado como uma aposta na industrialização, numa visão de progresso e desenvolvimento tecnológico, na criação de emprego e na transição energética, muitos moçambicanos questionam se esta iniciativa responde efetivamente às necessidades mais urgentes da população, onde os símbolos de crescimento económico coexistem com a incapacidade de muitos moçambicanos satisfazerem necessidades elementares. A aposta na produção de carros elétricos em Moçambique expõe uma das maiores contradições do atual modelo de desenvolvimento nacional. A realidade moçambicana apresenta contradições que não podem ser ignoradas. Moçambique vive um paradoxo que desafia a lógica do desenvolvimento inclusivo: enquanto o país se afirma como uma potência emergente na produção e exportação de gás natural, grande parte da população continua sem acesso a energia, emprego digno e serviços básicos de qualidade. O gás extraído do subsolo moçambicano promete receitas bilionárias, mas os seus benefícios permanecem pouco visíveis para quem enfrenta diariamente o aumento do custo de vida, a precariedade das infraestruturas e a falta de oportunidades. O verdadeiro desafio não está apenas em transformar recursos naturais em riqueza, mas em garantir que essa riqueza se traduza em desenvolvimento humano, redução da pobreza e melhoria efetiva do bem-estar coletivo. Caso contrário, o país corre o risco de acumular megaprojetos, fábricas e estatísticas de crescimento económico, enquanto o povo continua, pacientemente, à espera das promessas de prosperidade que nunca chegam.
Num país onde milhões de cidadãos ainda enfrentam dificuldades no acesso à água potável, eletricidade, saúde, educação, saneamento e emprego, a aposta numa indústria automóvel parece surgir como uma ambição de modernidade que contrasta com as carências mais elementares da população. Num contexto em que grande parte dos moçambicanos continua a enfrentar dificuldades para satisfazer necessidades básicas, o anúncio de uma fábrica de automóveis corre o risco de simbolizar um modelo de crescimento económico que privilegia grandes projetos sem assegurar benefícios proporcionais para a maioria da sociedade. A eletrificação doméstica e a expansão do acesso à energia deveriam constituir etapas prioritárias antes da promoção de tecnologias dependentes de uma infraestrutura elétrica robusta. Desde a independência, em 1975, sucessivos governos têm proclamado a luta contra a pobreza absoluta como uma das principais bandeiras da governação. Todavia, passadas décadas, os indicadores sociais continuam a revelar uma realidade preocupante. O desemprego juvenil cresce, os custos de vida aumentam, a insegurança alimentar afeta milhares de famílias e os serviços públicos enfrentam dificuldades estruturais. A história recente também recomenda prudência. O país já experimentou iniciativas semelhantes. Em 2014, a Matchedje Motor, resultado de uma parceria entre capitais moçambicanos e chineses, foi apresentada como um marco na industrialização nacional. A empresa chegou a produzir viaturas e a introduzir modelos no mercado. No entanto, poucos anos depois, as operações foram suspensas devido à insuficiência de procura e às dificuldades financeiras. A experiência demonstrou que a simples existência de uma fábrica não garante a sustentabilidade do negócio quando o poder de compra da população é reduzido e o mercado interno é limitado.
A verdadeira transição energética não começa nas estradas com carros elétricos, mas sim nas casas, escolas, hospitais e pequenas empresas que ainda aguardam pelo acesso à energia que lhes permita viver e produzir com dignidade. A verdadeira riqueza de uma nação não está apenas naquilo que produz para o mercado, mas naquilo que proporciona ao seu povo. O desenvolvimento sustentável exige que os investimentos estratégicos que caminhem lado a lado com a melhoria das condições de vida das pessoas. Sem uma estratégia que coloque o bem-estar da população no centro das políticas públicas, o projeto poderá ser visto não como um motor de desenvolvimento inclusivo, mas como mais um sonho grandioso distante da realidade da maioria dos moçambicanos. Por isso, mais importante do que perguntar quantos carros Moçambique será capaz de montar, é questionar quantas oportunidades, quantos empregos sustentáveis e quanta dignidade conseguirá gerar para os milhões de cidadãos que continuam à espera de que os recursos e as promessas de desenvolvimento se convertam em melhorias concretas das suas condições de vida. Não se trata de rejeitar a industrialização nem de negar a importância de atrair investimento para o país. O desenvolvimento económico exige diversificação produtiva, inovação tecnológica e fortalecimento da capacidade industrial nacional, sim. Porém, o verdadeiro debate reside na definição das prioridades. Uma fábrica de automóveis poderá representar progresso, mas dificilmente resolverá os problemas de um cidadão que não tem acesso à eletricidade, água potável, emprego estável ou serviços básicos de qualidade. A nova fábrica de automóveis corre o risco de ser percebida como mais um símbolo de modernidade desconectado das dificuldades quotidianas da população. Embora a industrialização seja essencial para o crescimento económico, ela perde parte da sua legitimidade quando as necessidades básicas continuam por satisfazer para uma larga maioria dos cidadãos. Afinal, o desenvolvimento não se mede apenas pelo número de viaturas produzidas, mas sobretudo pela capacidade de transformar positivamente a vida das pessoas.
2025/12/3
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula