CICLONE “GEZANI” MAIS UM PRESENTE PARA OS MOÇAMBICANOS

Paulo Vilanculo"

Moçambique volta a enfrentar mais um capítulo doloroso da sua história marcada por calamidades naturais. O ciclone “Gezani” surge como mais um duro golpe sobre um país que, ano após ano, se vê refém de cheias, ventos devastadores e promessas políticas que raramente se convertem em soluções estruturais. O que deveria ser tratado como um fenómeno natural previsível dentro da realidade climática da região transforma-se numa tragédia social ampliada pela fragilidade das infraestruturas, pela má planificação urbana e pela persistente ausência de políticas públicas resilientes.

“Gezani deixa casas, escolas e centros de saúde sem teto em Jangamo em Inhambane” – DW

 

Há décadas que Moçambique é classificado como um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, e ainda assim continuam a repetir-se os mesmos cenários de emergência. O problema deixa de ser apenas a chuva intensa ou o transbordo dos rios; passa a ser a incapacidade de transformar experiências passadas em políticas preventivas robustas. O ciclone “Gezani” expõe, mais uma vez, a distância entre o discurso oficial e a realidade vivida nas comunidades. Se é verdade que fenómenos naturais não podem ser evitados, também é verdade que a dimensão das suas consequências pode ser reduzida uma governação responsável, planeamento estratégico e compromisso genuíno com o bem-estar colectivo. O ciclone “Gezani” não é apenas mais uma tempestade; é um retrato da fragilidade sistémica de um país que, apesar das sucessivas tragédias, ainda luta para converter lições em acções concretas. A crescente pressão das mudanças climáticas, que intensificam fenómenos extremos e elevam os custos de prevenção, tornando os investimentos necessários ainda mais exigentes tecnicamente e financeiramente. As doenças de origem hídrica vão surgir, repetindo um padrão já conhecido em cada época chuvosa. O sofrimento do povo torna-se rotina estatística, enquanto relatórios oficiais falam em números, percentagens e “níveis de prontidão”.

Num país vulnerável como Moçambique, a questão central não é apenas a ocorrência dos ciclones, mas a capacidade estrutural de antecipação e adaptação. A experiência regional mostra que, mesmo com recursos limitados, é possível reduzir perdas humanas com planeamento, educação e compromisso político. Em países mais resilientes, a adaptação climática é transversal a todas as políticas públicas. Nos países propensos a ciclones, cheias e outros eventos extremos, tanto na África Austral como noutras regiões do mundo, a resposta deixou de ser apenas reactiva para se tornar estrutural e preventiva. Em Madagascar, por exemplo, apesar das limitações económicas, investe-se em sistemas de alerta precoce comunitários, construção de abrigos permanentes e planos de reassentamento em zonas menos vulneráveis; já a África do Sul aposta em planeamento urbano mais rigoroso, infraestruturas modernas de drenagem e integração de dados meteorológicos nas políticas municipais, enquanto Maurícia consolidou códigos de construção resistentes a ciclones e uma forte cultura pública de prevenção. Fora da região, o Japão tornou-se referência mundial ao integrar tecnologia avançada de alerta, educação permanente sobre desastres e normas de construção obrigatórias. Um elemento comum nestas experiências não é a inexistência de fenómenos naturais, mas sim o compromisso político com a antecipação, a responsabilização institucional e o investimento contínuo em resiliência climática, demonstrando que a vulnerabilidade geográfica não precisa, necessariamente, de se traduzir em tragédia humana recorrente.

A percepção é que Moçambique perpetua apenas reconstruções após ciclones e outras catástrofes naturais está ligada a um conjunto de factores estruturais, políticos e económicos que condicionam a capacidade de prevenção a longo prazo. O país é recorrentemente afectado por eventos extremos. Após os ciclones que nos últimos anos fustigaram Moçambique como Ciclone Idai, Ciclone Freddy, Kenneth Chido, Dikeledi e Jude, o Governo tem vindo a propor e implementar uma série de , reabilitação pós-desastre em vez de investir sistematicamente na redução de riscos antes da ocorrência ações preventivas e de resiliência, buscando deslocar a resposta de um modelo puramente emergencial para outro cada vez mais orientado para a prevenção, antecipação e adaptação. Moçambique perpetua apenas reconstruções por mera inércia, mas porque enfrenta um ciclo estrutural de vulnerabilidade, dependência externa, fragilidade institucional e decisões políticas orientadas para resultados imediatos. A cada ciclone, prometem-se casas resilientes, reassentamentos dignos e infraestruturas adaptadas às alterações climáticas. Porém, o que se observa é a repetição de improvisações e reacções tardias.

Romper esse ciclo exigiria transformar a prevenção em prioridade estratégica nacional, com financiamento sustentável, responsabilização institucional e planeamento territorial rigoroso antes que a próxima tempestade chegue. Moçambique depende fortemente de financiamento externo para a reconstrução, o que cria um ciclo em que recursos internacionais chegam sobretudo após a tragédia, incentivando uma lógica reactiva. Investimentos preventivos, tais como drenagens estruturais, reassentamentos definitivos e fiscalização rigorosa de ocupações em zonas de risco que exigem financiamento contínuo e estabilidade institucional. Por outro lado, a ausência de políticas habitacionais robustas e de fiscalização eficaz permite a reprodução da vulnerabilidade ano após ano. Existe um problema de planeamento territorial frágil. Muitas comunidades continuam a fixar-se em zonas propensas a cheias por falta de alternativas económicas e habitacionais. Há também uma dimensão institucional em que a gestão de risco de desastres ainda não está completamente integrada no planeamento macroeconómico nacional. Entretanto, o discurso governamental insiste na narrativa da inevitabilidade climática, atribuindo os estragos exclusivamente à força da natureza.

O ciclone pode ser um fenómeno natural, mas a vulnerabilidade extrema das populações é, em grande parte, consequência de decisões humanas e políticas. A dimensão da tragédia não resulta também de uma crónica negligência na construção de sistemas de drenagem, na fiscalização de ocupações em zonas de risco e na implementação efectiva de planos de ordenamento territorial. O verdadeiro desafio não é secar as águas depois da tempestade, mas impedir que elas continuem a encontrar sempre o mesmo país despreparado. “Gezani”, que significa “banhem-se” na língua local da Província de Manica, soa quase como uma ironia cruel perante o cenário que se desenha nas zonas afectadas. As populações não se “banham” por escolha, mas são forçadas a mergulhar, repetidamente, numa vulnerabilidade extrema que vai muito além da força das águas. Banham-se no abandono estrutural, na precariedade das infraestruturas, na ausência de drenagens adequadas, na ocupação desordenada tolerada por décadas e na falta de políticas habitacionais que ofereçam alternativas dignas. Assim, “Gezani” deixa de ser apenas o nome de uma tempestade; transforma-se num símbolo de uma nação que, enquanto não priorizar a prevenção, o ordenamento territorial sério e o investimento resiliente, continuará a “banhar-se” forçadamente nas mesmas tragédias.

 

2025/12/3