
Paulo Vilanculo"
Nos últimos anos, Moçambique parece assistir ao surgimento de um fenómeno inquietante. Multiplicam-se monumentos destinados a celebrar figuras históricas, mas, paradoxalmente, muitos deles apresentam uma inquietante distância entre a identidade do homenageado e a imagem que lhes é atribuída. Não se discute o mérito dos homens e mulheres que fizeram parte da história nacional, nem a legitimidade de lhes prestar tributo. A polémica não nasce da história, mas da arte. O que causa perplexidade é a incapacidade de algumas obras reproduzirem aquilo que constitui a essência de qualquer retrato escultórico, a semelhança. A questão deixa então de ser exclusivamente artística para assumir uma dimensão cultural. Que mensagem transmite um país quando os seus próprios heróis deixam de ser reconhecidos nas esculturas erguidas em sua honra? Que respeito demonstra uma nação quando permite que o bronze substitua a identidade pela abstração? Que legado se constrói quando o monumento provoca estranheza em vez de reconhecimento? Quando uma homenagem necessita de legenda para revelar a identidade do homenageado, alguma coisa falhou profundamente entre a arte e a memória.
No dia comemorativo da cidade de Chimoio, o Governo inaugurou uma estátua em homenagem a Josina Machel num ato, apresentado como uma celebração da memória nacional. Enquanto alguns enalteciam o reconhecimento de uma figura histórica da luta de libertação nacional, muitos cidadãos concentraram as suas observações num aspeto elementar: a reduzida correspondência entre a imagem escultórica e os traços fisionómicos amplamente conhecidos de Josina Machel. A controvérsia não se limita à política; alcança o domínio da estética, da ética artística e do respeito pela memória visual de uma personalidade histórica. Um povo pode aceitar diferentes interpretações da sua história; dificilmente aceita que o rosto de um dos seus maiores símbolos se torne irreconhecível. A recente inauguração da estátua de Josina Machel, em Chimoio, não foi a primeira vez que isso acontece. A capital do país já vive uma situação semelhante com a estátua de Eduardo Mondlane. A obra da estátua de Eduardo Mondlane foi alvo de forte contestação pública, tanto pela sua representação estética como pelas dúvidas levantadas em torno da sua execução e dos custos envolvidos. A controvérsia suscitou debates públicos, motivações para averiguações e promessas de correção e requalificação da obra por parte das autoridades. Independentemente dos desfechos administrativos, o episódio revela uma questão mais profunda: quando um monumento destinado a dignificar um dos maiores símbolos da independência que acaba por gerar indignação e o problema deixa de ser apenas artístico. Em ambos os casos, uma parte da opinião pública questiona não o mérito dos homenageados, mas a incapacidade das esculturas de reproduzirem os seus traços fisionómicos com fidelidade.
Blasfêmia é o ato de insultos, difamações ou demonstrar desrespeito extremo contra coisas sagradas. O termo tem origem no grego blasphēmia e, significa falar de maneira irreverente sobre a divindade ridicularizando, nas religiões hebraicas (como o Cristianismo e o Judaísmo), a blasfêmia é vista como uma ofensa grave e pode se manifestar por meio de palavras, gestos ou pensamentos de ódio e desafio. Em um sentido mais amplo, a palavra também é utilizada para descrever a irreverência a dogmas ou a qualquer crença profundamente respeitada. As blasfémias das múmias da nossa história neste texto não residem nos heróis, mas nas suas representações, dos rostos que perderam o olhar, sorrisos que nunca existiram, feições que pertencem a desconhecidos em que, as cidades começam a ser habitadas por figuras que recordam tudo, menos aqueles que dizem representar. A metáfora das "múmias" não trata das múmias preservadas pelo tempo, de figuras desfiguradas, corpos sem identidade, esculturas que perderam a humanidade e a semelhança com aqueles que pretendem imortalizar, mas sim as imagens e figuras sem identidade reconhecível, corpos de bronze habitados por rostos desconhecidos, que conservam apenas o nome inscrito na base do monumento, enquanto o rosto não pertence à pessoa homenageada, as esculturas que obrigam o observador a ler a placa para descobrir quem ali deveria estar presenteado. As múmias não são apenas corpos preservados pelo tempo; são também símbolos de um passado que insiste em permanecer imóvel, incapaz de dialogar com as exigências do presente. É precisamente aqui que surgem as blasfémias das múmias da nossa história.
As civilizações sempre recorreram à escultura para desafiar o tempo. Desde o Egito Antigo até às democracias contemporâneas, as estátuas foram concebidas para eternizar rostos, preservar identidades e manter viva a memória daqueles que marcaram a história dos seus povos. Uma estátua não é apenas uma peça de bronze, mármore ou cimento; é um testemunho visual da história, uma linguagem silenciosa que permite às gerações futuras reconhecer os seus heróis sem necessidade de palavras. O historiador francês Pierre Nora (1989) argumenta que os monumentos são "lugares de memória" (lieux de mémoire), espaços onde o Estado procura cristalizar uma determinada interpretação da história. As múmias representam o passado preservado. Mas também simbolizam aquilo que deixou de respirar e, ainda assim, continua a ocupar espaço entre os vivos. A arte monumental exige muito mais do que capacidade técnica. Exige rigor histórico, sensibilidade estética e profundo respeito pelo património humano que procura preservar. Os grandes escultores da humanidade compreenderam que a fidelidade física não constitui simples virtuosismo artístico. Ela representa um compromisso ético entre o artista, o homenageado e a sociedade. Quando essa linguagem falha, falha também a própria homenagem.
Uma estátua não é apenas um bloco de bronze ou de cimento. É uma tentativa de eternizar um rosto, uma expressão, uma identidade e uma memória. Quando o rosto desaparece, o monumento deixa de representar o herói desaparece também a pessoa e passa a representar apenas a incapacidade artística de quem o produziu. Quando a obra deixa de reproduzir a fisionomia daquele que homenageia, deixa de ser um monumento para transformar-se numa caricatura e a homenagem converte-se em profanação. Uma escultura pública não é um exercício de imaginação livre. É uma obra de responsabilidade histórica. O escultor não trabalha apenas com matéria; trabalha com memória. Cada linha do rosto, cada expressão do olhar, cada detalhe da postura transporta uma identidade construída ao longo da vida. A primeira obrigação de um escultor é respeitar a identidade visual da pessoa retratada. A semelhança física não constitui mero detalhe técnico; ela é condição ética da própria homenagem. Quando esses elementos desaparecem, a escultura deixa de representar uma pessoa concreta e transforma-se numa figura anónima. O monumento continua de pé, mas o herói desaparece.
A monumentalização da memória exige processos transparentes, concursos públicos de elevada exigência artística, participação de especialistas em artes plásticas, historiadores, familiares dos homenageados e instituições culturais. A construção de uma estátua não deveria ser apenas uma obra de engenharia ou de arquitetura urbana; deveria constituir um exercício de responsabilidade patrimonial perante toda a sociedade. Talvez o problema resida na forma como os projetos são concebidos passa por uma crise do Estado pela forma como concebe, financia e legitima a construção da memória pública, frequentemente sem um diálogo amplo com a sociedade que essa memória pretende representar e este enfoque permite uma crítica ao processo de produção artística: falta de concursos públicos de escultura; ausência de júris compostos por escultores, historiadores e familiares; pouca exigência estética; desvalorização das artes plásticas em Moçambique e desrespeito pelo património cultural.
Benedict Anderson (1983) demonstrou que as nações são "comunidades imaginadas". O património histórico não existe para impor silêncio, mas para estimular reflexão. Uma estátua que não pode ser questionada aproxima-se mais de um dogma do que de um instrumento educativo. Os símbolos nacionais, tais como bandeiras, hinos, monumentos e datas comemorativas, ajudam a construir essa imaginação coletiva. Porém, quando esses símbolos deixam de representar uma parte significativa da população, deixam igualmente de cumprir a sua função integradora. A indignação manifestada por diversos setores da sociedade não significa necessariamente rejeição da história nacional, revela um cansaço crescente perante blasfémias de desconfiguração das imagens históricas da nossa liberação e independência, ela pode representar um pedido para que a história seja verdadeiramente lembrada e imortalizada. Os monumentos existem para aproximar o passado do presente. Quando cumprem essa missão, despertam admiração, respeito e aprendizagem. Quando fracassam, produzem o efeito contrário: confundem, dividem e banalizam aqueles que pretendiam enaltecer.
As blasfémias das múmias da nossa história não estão nos homens e mulheres que deram o melhor de si por Moçambique. Eles permanecem maiores do que qualquer escultura. As blasfémias das múmias da nossa história estão na incapacidade de permitir que a memória nacional respire, dialogue com o presente e acolha novos protagonistas. Uma nação que não consegue reconhecer os rostos dos seus próprios heróis corre o risco de esquecer não apenas as suas feições, mas também os seus ideais. A verdadeira blasfémia reside na incapacidade de transformar a arte em memória fiel de um herói pode morrer uma única vez, mas a sua imagem pode continuar a morrer todos os dias, sempre que um monumento deixa de revelar o seu verdadeiro rosto. A história deve inspirar o futuro, e não o aprisionar. Os monumentos devem servir para unir uma nação, não para aprofundar divisões. Se a inauguração da estátua de Josina Machel em Chimoio desencadeou um debate nacional, talvez o seu maior legado não esteja no bronze que agora ocupa um espaço público, mas na oportunidade de Moçambique discutir, com maturidade, quem somos, quem queremos homenagear e, sobretudo, que país desejamos deixar às próximas gerações.
2025/12/3
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