
Paulo Vilanculo"
O cerne da questão do titulo em epigrafe não é institucional e simbólico. A nomeação de Artemísia Gove Silva para o cargo de diretora da filial do Banco de Moçambique na província de Sofala e a subsequente nomeação de Élio Jonasse para dirigir a filial do Banco Emissor na Zambézia, abriram uma frente de interrogações públicas que vão muito além das pessoas nomeadas, tocam no sino da falta de transparência e da meritocracia nas instituições do Estado e acendem um debate antigo, recorrente e sensível na sociedade moçambicana: até que ponto as nomeações em instituições estratégicas obedecem e continuam exclusivamente a ser contaminadas por laços de proximidade familiar, política e camaradagem institucionalizada e não a critérios técnico-profissionais? Levantam-se questões incómodas, mas inevitáveis tais como: com que idade Artemísia Gove Silva concluiu a sua formação bancária? Em que ano ingressou nos quadros do Banco de Moçambique? Houve concurso público? Quantos candidatos concorreram para a vaga para nomeação e quais foram os critérios objetivos que determinaram a sua aprovação? Estamos perante o resultado de um percurso técnico exemplar ou apenas mais um caso em que o apelido pesa tanto quanto o currículo? Como pode um gestor exonerado de uma empresa pública estratégica ser, em pouco tempo depois, é chamado para assumir um cargo, no caso especifico, de elevada responsabilidade numa instituição que exige rigor técnico institucional e credibilidade plena do sistema financeiro?
A lógica recorrente de casos em que filhos, parentes ou círculos próximos de antigas ou atuais elites que são arrastados e encaixados para ocuparem cargos estratégicos do Estado reforça o pensamento de que as instituições públicas funcionam como espaços de reprodução de privilégios, mais do que mérito, a oportunidades e acesso a cargos estratégicos continua a ser percebido como restrito a círculos específicos. As recentes nomeada Artemísia Gove Silva para o cargo de diretora da filial do Banco de Moçambique na província de Sofala, é filha de Ernesto Gove, antigo governador do Banco de Moçambique, uma figura historicamente influente no sistema financeiro nacional. atesta que o mérito técnico, por si só, dificilmente rompe as barreiras invisíveis de acesso ao poder. A ambiguidade que emerge junto das populações não é fruto de ignorância ou má-fé, mas de uma memória coletiva marcada por práticas de favoritismo, clientelismo e partidarização das instituições públicas. Ernesto Gove, pai da atual diretora, governou o Banco de Moçambique durante uma década, entre 2006 e 2016, um período de forte consolidação do seu poder institucional e influência no sistema financeiro nacional.
Embora possa se imaginar a espectacularidade da grandeza e da qualidade da sua formação em instituições de gabarito do mundo, a inquietação confronta-se sobre com que idade terminou a formação, quando concorreu ate adquirir experiência concreta ao ponto de ascender a este cargo público de tamanha responsabilidade. Ainda que se insinue e o discurso oficial sublinhe a idoneidade técnica, a formação académica e a experiência profissional da recém-nomeada, a perceção pública, sobretudo num país marcado por profundas desigualdades e desemprego qualificado, tende a questionar a neutralidade do processo e a transparência dos critérios de seleção e nomeações. O problema central da nomeação não é jurídico. A nomeação pode ser legal, a formação pode ser adequada e a diretora pode até revelar elevada competência no exercício das suas funções. O desafio que se coloca ao Banco de Moçambique não é apenas provar a competência da nova diretora da filial de Sofala através de resultados, mas também reafirmar, de forma inequívoca, que o acesso aos cargos de topo não funciona como distribuição de troféus entre círculos históricos de poder. Mais do que nomes e sobrenomes, está em causa o modelo de governação institucional que Moçambique pretende consolidar.
O episódio não é isolado, mas sintomático de um sistema onde o problema não está apenas nas pessoas, mas na forma como as instituições decidem e reciclam o poder. A recente nomeação, por outro lado, de Élio Jonasse para o cargo de Diretor da filial do Banco de Moçambique na província da Zambézia levanta outra fragilidade institucional marcado por contradições que desafiam a lógica administrativa. Élio Jonasse, jornalista, embora tenha tido a sua experiência com Banco de Moçambique no Gabinete de Comunicação do Banco Central, tendo sido nomeado para o cargo de director do mesmo Banco em Niassa e mais ascendido as funções de PCA da TVM, em dezembro de 2025, Élio Jonasse foi exonerado do cargo de Presidente do Conselho de Administração da TVM no aparelho do Estado moçambicano, num contexto que nunca foi claramente compreendido pelo público, como é recorrente na gestão de quadros de topo das empresas e instituições públicas moçambicanas. A exoneração, por definição administrativa, pressupõe falhas, incumprimento de objetivos, perda de confiança política ou necessidade de mudança estratégica. O paradoxo de contradição expõe uma fragilidade recorrente na administração pública moçambicana em que a exoneração nem sempre significa reprovação profissional, assim como a nomeação nem sempre decorre de avaliação pública de mérito e desempenho. Em muitos casos, a exoneração é apenas um mecanismo de rotatividade política, um reajuste interno de interesses ou um reposicionamento estratégico dentro do mesmo circuito de poder. O caso de Élio Jonasse ilustra uma lógica onde o mesmo rosto circula entre instituições distintas, independentemente da natureza técnica ou setorial das funções exercidas.
Pode ser logico que um Banco Central forte não se mede apenas pelos seus indicadores macroeconómicos, mas também pela confiança social que inspira uma confiança que se constrói, todos os dias, com escolhas que resistam ao escrutínio público e que consigam separar, sem ambiguidades, mérito técnico de laços familiares e de camaradagem. Numa instituição onde milhares de técnicos qualificados aguardam oportunidades de ascensão basear em reciclagem de quadros exonerados para cargos de igual ou maior responsabilidade transmite uma mensagem contraditória em que a exoneração deixa de ser um ato de responsabilização e passa a ser apenas um intervalo entre nomeações. Nas ruas, nos círculos de análise informal, opiniões populares de olhos mais apurados interpretam que a ascensão de Élio Jonasse ao novo cargo é lida como um “troféu”, espécie de bonificação simbólica, atribuído pelo papel desempenhado ao longo dos últimos processos políticos sensíveis do país, pelo bom trabalho de silêncio estratégico, de gestão discursiva e de lavagem de imagem politico durante momentos considerados críticos da vida democrática nacional, desde as campanhas eleitorais das autarquias e das eleições gerais até ao turbulento período das manifestações pós-eleitorais, em que, o mérito reconhecido não estaria necessariamente ligado a competências técnicas bancárias ou de supervisão financeira, mas à capacidade demonstrada de alinhar narrativas, conter danos mediáticos e contribuir para um ambiente de comunicação controlada, num contexto em que a informação pública foi marcada por assimetrias, omissões e silenciamentos seletivos e a nomeação surge como recompensa por lealdade e eficácia política, mais do que resultado de uma avaliação objetiva da prestação profissional no Banco Central em Lichinga.
Na realidade do desemprego qualificado em Moçambique, frustração de exclusão geracional que vem de uma longa história de favoritismo nas instituições públicas, em que milhares de jovens altamente qualificados continuam afastados das decisões estratégicas, a perceção de injustiça pesa tanto quanto a realidade factual, a falta de transparência transforma qualquer nomeação sensível num símbolo de desigualdade de acesso ao poder, o problema é institucional. Enquanto o Estado proclama a técnica, a neutralidade e a transparência como pilares da governação, estas nomeações providas de penumbras sobre critérios públicos claros para efeitos, acabam por funcionar como símbolos de um sistema onde cargos de elevada responsabilidade são lidos socialmente como prémios, compensações ou troféus de serviços prestados ao poder. Ainda que estas leituras não constituam factos juridicamente provados, elas ganham força num país onde a coincidência entre comunicação política, gestão de crise e promoção institucional se tornou recorrente. Enquanto esta perceção persistir, o Banco Central continuará não apenas a regular bancos, mas também a regular, involuntariamente, a desconfiança pública, pagando um preço elevado da credibilidade institucional de um povo que já não se satisfaz com discursos, mas exige coerência entre princípios proclamados e práticas reais e o silêncio institucional não protegerá a credibilidade dos nomeados, pelo contrário, fragiliza-os e compromete a confiança do próprio Banco de Moçambique.
2025/12/3
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