“Assassinato da patrística não devasta apenas a Igreja, alarma o caos de insegurança no Pais”

Paulo Vilanculo"

 

 

A Patrística é o ramo da teologia e filosofia cristã primitiva que reuniu os ensinamentos dos primeiros "Padres da Igreja". Seu objetivo era consolidar a doutrina cristã e defendê-la de críticas, utilizando a razão e a filosofia greco-romana para explicar a fé que dela fazia parte Dom Osório Citora Afonso, Bispo da Diocese de Quelimane e Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira que foi encontrado sem vida na residência oficial no Paço Episcopal (a residência oficial de um bispo da Igreja Católica) de Quelimane. Segundo DW, de acordo com o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), trata-se de um "homicídio agravado". O bispo terá sido baleado na sua residência, na capital da Zambézia, durante a madrugada, segundo o porta-voz do SERNIC, Maximino Amílcar e disse que o SERNIC está ainda a investigar os meandros do alegado homicídio.

Num episodio recente, Dom Cláudio Dalla Zuanna, arcebispo emérito da beira renunciou do cargo, deixou a Diocese rumo à sua terra natal, Itália. Segundo o jornal (O Autarca), no dia 29 de Abril de 2026, a Cidade da Beira viu partir um homem em silêncio. Dom Cláudio Dalla Zuanna, Arcebispo Emérito da Beira, escreveu ao Papa Leão (…), pediu para sair e o Papa aceitou. Renunciou. Alegou problemas de saúde e concluiu: “Já não consigo. O meu tempo acabou. O país precisa de outro. A Igreja merece um pastor com a energia total que eu já não tenho”. Para o jornal “O Autarca”, a renúncia por incapacidade é quase folclore. Dom Cláudio sabia. Aos 68 anos, com a saúde a pesar serviu a Diocese da Beira nos desafios da reconstrução pós-ciclones, para a crise pastoral e social que atravessa Sofala, Não esperou que o acusassem. Não esperou um escândalo. Não se agarrou ao báculo. Dom Cláudio recusou ser esse dirigente. Recusou transformar o cargo em muleta. Entendeu que liderar é, antes de tudo, servir. E servir exige condição física, mental e espiritual. Quando ela falta, a ética manda um único caminho é abrir espaço. O Jornal conclui escrevendo que Dom Cláudio prova o contrário: Às vezes, o maior acto de amor a uma instituição é sair dela a tempo. Ficar sem condições não é missão. É egoísmo. É colocar o nome próprio à frente do bem comum. É condenar uma Diocese, um Ministério, uma província ou um país a andar ao ritmo do nosso cansaço. Dom Cláudio sai numa Beira ferida mas esperançosa. A Igreja Católica, tantas vezes criticada pelo conservadorismo, deu agora uma lição de modernidade política: a capacidade de se auto-renovar começa pela coragem individual de dizer “basta”. Em 2026, Moçambique não precisa de mais heróis (…) Dom Cláudio deixa obras, deixa críticas, deixa amigos e opositores. Mas deixa, sobretudo, um precedente (…).

A dissertação de Mestrado em Ciência Política, de Caetano, Baptista, Comessário (2015), com o titulo: A violência política em Moçambique de 1966 a 1988, o caso do padre Mateus Pinho Gwengere (dc.identifier.tid: 203023463), relacionada com a área da história política de Moçambique descreve a violência política em moçambique e num caso particular, as causas que levaram a morte do Padre Mateus Pinho Gwengere, uma pessoa muito importante na luta de libertação nacional e posterior independência do país,  que para além de ser considerado herói, foi declarado reaccionário e inimigo em Moçambique. A tese chegou a conclusão de que a teoria da unidade nacional ainda é pouco notória em Moçambique e que o desaparecimento do Padre Guengere é uma consequência directa da falta de unidade, onde o regionalismo e o tribalismo ainda são fragilidades que enfermam o crescimento sócio-político de Moçambique.

Gabriel Pedro Mucutubua (2025), escreveu o livro "O Único Pecado de Dom Jaime" O livro discute os desafios da Igreja Católica no século XXI, especialmente em contextos africanos onde religião, política e sociedade permanecem profundamente interligadas. Uma das questões centrais da reflexão é o equilíbrio entre a missão espiritual e a intervenção social da Igreja. O Único Pecado de Dom Jaime pode ser entendido como uma reflexão sobre a tensão entre fé e poder, Igreja e política, silêncio e profecia. Ao centrar-se na figura de Dom Jaime Pedro Gonçalves, a obra convida o leitor a questionar se a missão da Igreja deve limitar-se ao altar ou se deve também envolver-se na defesa da paz, da justiça e da dignidade humana. Nessa perspetiva, o "único pecado" de Dom Jaime teria sido não permanecer indiferente perante os problemas do seu tempo. O verdadeiro "pecado" de Dom Jaime foi ter transformado a fé em compromisso concreto com a sociedade. A atuação do arcebispo da Beira demonstrou precisamente o contrário: uma Igreja presente nos momentos decisivos da história nacional.

Dom Jaime Pedro Gonçalves foi uma das figuras mais influentes da Igreja Católica moçambicana. Dom Jaime foi uma das figuras mais visíveis da reconciliação, da paz e da honestidade em Moçambique. Tornou-se amplamente reconhecido pelo seu papel na mediação do processo que culminou no Acordo Geral de Paz de 1992 entre a FRELIMO e a RENAMO, sendo frequentemente descrito como um dos principais rostos da reconciliação nacional. Dom Jaime assumiu uma postura pública pouco comum para um líder religioso, intervindo em debates políticos e sociais, defendendo a paz, a justiça social e a reconciliação nacional. A sua atuação levou muitos a considerá-lo um "porta-voz dos sem voz".

A tradição da doutrina social da Igreja sustenta que a Igreja não deve governar os Estados, mas tem o dever moral de denunciar injustiças, defender os direitos humanos e promover a paz. Dom Jaime tornou-se um exemplo dessa visão ao envolver-se diretamente na procura da paz em Moçambique. A renuncia de Dom Cláudio Dalla Zuanna, arcebispo emérito da beira será uma lição e alerta de quem soube sair a tempo? Até onde um líder religioso pode intervir na vida política? A Igreja deve limitar-se à evangelização ou participar ativamente dos problemas sociais e políticos? Quando a defesa da justiça e da paz entra em conflito com os interesses do poder político? Qual é o papel profético da Igreja numa sociedade marcada por desigualdades e conflitos? O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, manifesta profundo sentimento de pesar e consternação pela morte de Sua Excelência Reverendíssima Dom Osório Citora Afonso.  Na sua mensagem, o Chefe de Estado refere que o passamento do Bispo Osório constitui uma perda irreparável para a sociedade moçambicana, em geral, e para as comunidades cristã, em particular, ressaltando o facto de o finado ter-se destacado, em vida, pelo culto da humildade, dedicação pastoral e pregação dos valores da paz e reconciliação.

 

2025/12/3