A reencarnação da teoria Correiana das três refeições para 3/100 com trocos, colide com as mesas vazias das Moçambicanas

Paulo Vilanculo"

A recente declaração do Presidente Daniel Chapo, segundo a qual uma mulher moçambicana é capaz de gerir cem meticais para assegurar três refeições diárias e ainda conservar algum troco, trouxe de volta à memória coletiva uma das mais controversas afirmações produzidas pelo anterior governo. Em 2023, o então Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, afirmou que 90% da população moçambicana conseguia realizar três refeições por dia. A chamada "teoria das três refeições", agora reencarnada sob uma nova formulação, demonstra que a política pode mudar de protagonistas, mas nem sempre muda de narrativa. A reencarnação é o conceito religioso ou filosófico em que após a morte biológica de um ser vivo, a alma ou essência não física, inicia uma nova vida num outro corpo físico diferente. No espiritismo interpreta-se como uma oportunidade divina de evolução onde o espírito manifesta-se no conhecimento de exprimir, lidar e ou apresentar experiências passadas. O paralelismo crítico entre duas declarações públicas colide com a realidade socioeconómica moçambicana quando um governante apresenta um cenário de prosperidade alimentar que não encontra correspondência no quotidiano dos cidadãos.

Embora a referência feita pelo Presidente ao papel da mulher na administração do orçamento familiar reconhece, de forma implícita, a extraordinária capacidade de resiliência das mulheres moçambicanas. Basta percorrer qualquer mercado municipal ou estabelecimento comercial para verificar que os preços do arroz, da farinha, do óleo alimentar, do açúcar, do peixe, da carne e dos legumes aumentaram significativamente nos últimos anos. A inflação sobre produtos alimentares, a desvalorização do poder de compra, o elevado desemprego juvenil, os baixos salários e a predominância da economia informal fazem com que milhares de famílias sobrevivam com enormes limitações. Em muitos lares, as três refeições diárias deixaram de ser um hábito para se tornarem um privilégio. Há famílias que reduziram a alimentação para duas ou mesmo uma refeição por dia, enquanto outras dependem do apoio de familiares, de pequenos negócios informais ou de ajuda humanitária para garantir a sua sobrevivência. A capacidade das mamanas não deve ser confundida com um milagre económico. As mulheres conseguem esticar recursos escassos através de enormes sacrifícios pessoais, da redução da qualidade da alimentação, da privação das próprias necessidades e da criatividade na gestão da pobreza. Celebrar essa capacidade sem reconhecer as dificuldades estruturais pode significar romantizar a pobreza em vez de combatê-la. Enquanto a mesa dos moçambicanos continuar vazia, qualquer discurso sobre abundância alimentar será inevitavelmente confrontado pela realidade. Mesmo considerando uma gestão rigorosa do orçamento doméstico, cem meticais dificilmente asseguram uma alimentação equilibrada para uma família média moçambicana.

Há ideias que desaparecem com o tempo e há outras que, apesar de desacreditadas pela realidade, renascem sob novas roupagens. A semelhança entre os dois discursos não reside apenas no conteúdo, mas sobretudo na construção de uma narrativa oficial que parece ignorar os indicadores concretos das condições de vida da população. Quando os discursos oficiais entram em conflito com a experiência quotidiana dos cidadãos, instala-se uma crise de confiança entre governantes e governados. Mais preocupante ainda é o impacto destas declarações sobre a credibilidade das instituições públicas.  Lembrar que Celso Correia fez a entrega das primeiras 25 unidades de tractores, embora estivessem previstos 66 para 2 mil pequenos produtores de Nampula no âmbito do “SUSTENTA. No governo actual, foram entregues 10 unidades tractores equipados com atrelados para transportar pessoas, estando prevista a aquisição e distribuição gradual de 100 com uma meta futura de expandir para cerca de 400 unidades a nível nacional.

Ora, a repetição de narrativas revela uma encarnação, um padrão recorrente na comunicação política do governo em construir perceções de progresso antes que os resultados sejam efetivamente sentidos pela população. Governar exige esperança, mas também exige rigor. A confiança dos cidadãos não se constrói com frases de efeito, mas com políticas públicas capazes de reduzir o custo de vida, aumentar o rendimento das famílias, estimular a produção nacional, criar empregos e garantir segurança alimentar. A verdadeira medida do sucesso de um governo mede-se pela capacidade de fazer com que as famílias, sem recorrer a sacrifícios extremos, possam alimentar-se com dignidade, educar os seus filhos, aceder aos serviços básicos e viver com esperança no futuro. A população não espera discursos otimistas, espera soluções concretas para problemas igualmente concretos.

2025/12/3