
Paulo Vilanculo"
Na historia Biblica, Sansão foi traído por sua amante Dalila, que ordenou que um servo cortasse os seus cabelos enquanto ele dormia, e o entregou aos inimigos filisteus que arrancaram os seus olhos e o forçaram a moer grãos em um moinho em Gaza. Enquanto estava lá, seus cabelos começaram a crescer novamente. Quando os filisteus levaram Sansão ao templo de Dagom, Sansão pediu para descansar contra um dos pilares de apoio. Depois de receber permissão, ele orou a Deus e milagrosamente recuperou sua força, permitindo-lhe derrubar as colunas, destruindo o templo e matando a si mesmo, bem como a todos os filisteus. Em algumas tradições judaicas, acredita-se que Sansão tenha sido enterrado em Tel Zorá, em Israel, com vista para o vale de Soreque. O caso de Ossufo Momade é um capítulo comparativo desta novela que simboliza a crise da oposição e o colapso moral da política moçambicana, onde todos conhecem o enredo, mas fingem surpresa a cada episódio. No silêncio da liderança central, que até ao momento alimenta suspeitas de cumplicidade ou, no mínimo, de negligência estratégica, o encontro interno de reconciliação da Renamo que reuniu figuras internas no seio, reacende tensões antigas e traz à tona novas contradições na Renamo.
Em Moçambique, sair do poder, mesmo de um partido, significa perder visibilidade, influência econômica e, muitas vezes, segurança pessoal. Há uma dimensão humana e política inevitável. Há também um componente psicológico e de imagem, o medo do esquecimento e Ossufo Momade sabe que está a ser empurrado para a margem da história da Renamo. Quando Ossufo Momade, se recusa a abandonar o cargo mesmo diante da contestação pública, ele rompe com o princípio democrático interno e transforma o partido num espelho do mesmo autoritarismo que sempre criticou no Estado. Ao negar-se a sair do poder, Momade transforma a Renamo num microcosmo do próprio sistema que diz combater, onde o poder não se conquista por mérito, mas se conserva por conveniência. Esse comportamento expõe a contradição entre o discurso de democracia e a prática autoritária disfarçada que tem dominado a política moçambicana, tanto na situação quanto na oposição. A resistência de Momade, ao contrário, simboliza a falência ética e institucional da oposição, tornando-a incapaz de inspirar confiança no eleitorado. Por outro lado, fundamenta se claramente que a política moçambicana se transformou num círculo vicioso de acomodações e conveniências. A recusa de Momade não é apenas teimosia política é medo de perder proteção, influência e benefícios. A atitude de Momade revela um padrão preocupante, a reprodução do modelo de poder centralizado da Frelimo dentro da própria oposição onde opositor é convidado a integrar o sistema, o crítico é transformado em conselheiro, o revolucionário em assessor e posteriormente, a sua alegada nomeação para a Emose representa mais do que um simples cargo mas sim o funeral simbólico da oposição e consagração do poder que se recicla ao absorver quem o desafiou. O desfecho da trajetória de Ossufo Momade não é apenas a história de um homem que perdeu o comando de um partido é o retrato de uma democracia que se contenta com simulacros de pluralismo.
No seio da Renamo, o episódio da regeneração da Renamo tem intensificado debates sobre a deterioração das suas estruturas de comando em que a mesma se encontra descontrolada e desiorentada sobretudo com recurso ao uso da violência como instrumento de intimidação interna quando os seus militantes exigem explicações cabais das medidas disciplinares, argumentando que o partido não pode continuar a tolerar discursos que ameacem a coesão e a segurança dos seus membros. Hoje o Ossufo Momade parece não representa um símbolo de democracia diante da contestação aberta de membros do partido. Aliás, Momade sabe que perdeu o domínio sobre amplas alas da Renamo, especialmente as mais próximas de Afonso Dhlakama e os ex-combatentes desmobilizados. As alas mais radicais e críticas ao Ossufo Momade formuladas por antigos comandantes e membros que o acusam de traição, dificilmente aceitariam uma reunião privada sem o intuito de o destituir. Muitos membros da Renamo não o reconhecem mais como líder legítimo, acusando-o de ter perdido a essência combativa e de se aproximar excessivamente do governo. Na verdade, a crise interna da Renamo expõe a lógica de poder, desconfiança e sobrevivência que domina a política interna da Renamo desde a morte de Afonso Dhlakama e da fragilidade da democracia moçambicana em geral. A Renamo que nasceu como movimento de contestação, sempre se apresentou como alternativa moral ao poder hegemônico, hoje apresenta o projecto da sua própria sepultura refém das lógicas do personalismo, culto ao líder, ausência de renovação e resistência à crítica interna. O partido luta hoje o paradoxo de querer manter a imagem ilusória de querer ser o símbolo de oposição do país, mas sem um verdadeiro líder que una as suas peças.
Ossufo Momade sabe que a sua autoridade está fortemente abalada. Momade sabe que não consegue mais unir a Renamo pelo poder das armas nem pela força política então tenta fazê-lo pela memória e pela imagem. Se Momade fosse realmente um símbolo de democracia, teria convocado um congresso transparente, aberto, com debate livre e votação clara, aceitando o resultado, mesmo que lhe fosse desfavorável. Momade não esta preocupado em salvar a Renamo, mas sim, ele tenta salvar o que resta da sua imagem e influência, mesmo que isso signifique dividir ainda mais o partido que jurou unir. Ora, Ossufo Momade parece ter optado por reconciliar-se com um “punhado” e não com “todos” porque, no fundo, já não possui o capital político nem a autoridade moral para unir o conjunto da Renamo. Os convites seletivos têm um propósito calculado de reunir pessoas que possam legitimar a sua imagem de reconstrutor, sem correr o risco de um motim ou questionamento público. Ao escolher figuras como André Oliva e Elias Dhlakama, Momade tenta recompor uma ponte simbólica entre si e a linhagem histórica da Renamo e especialmente a família Dhlakama, que ainda carrega forte peso emocional e político dentro do partido. A figura de Elias, como irmão de Afonso Dhlakama, serve para reatar a memória afetiva do partido com o antigo líder e criar a impressão de que há continuidade na luta. Da mesma forma, trazer André Oliva e outros quadros históricos visa dar legitimidade moral à tentativa de reconciliação, mesmo que o gesto não envolva a totalidade dos membros.
Num país onde a alternância é vista como ameaça e não como valor, a democracia continua a ser apenas palavras bonitas mal pronunciadas em comícios, mas traída nos bastidores, a democracia, antes de ser exercida no país, precisa ser vivida dentro dos partidos. Ossufo Momade evita expor as feridas abertas da Renamo perante o público e, ao mesmo tempo, tenta criar uma narrativa controlada da reconciliação em que ele aparece como o mediador da paz interna, e não como o pivô da divisão. Um dos pilares fundamentais da democracia é a alternância de poder, o reconhecimento de que nenhuma liderança é eterna e de que o poder deve circular como sinal de vitalidade institucional. Dentro do seu espaço, Ossufo Momade dita as regras, controla o ambiente e a narrativa. Trata-se de uma encenação de autoridade do local que é escolhido não por comodidade, mas por controle. É um gesto de autopreservação política, típico de líderes em declínio que procuram provar que ainda detêm algum poder de decisão. Um líder democrático é aquele que sabe quando sair, que reconhece o limite da sua influência e entrega o bastão a novas gerações. Diante desse cenário, reconciliar-se com todos seria um risco fatal, pois abriria caminho para um golpe interno ou uma exigência coletiva de sua renúncia o que pode significar uma dimensão estratégica de manter se relevante e evitar isolamento total. É um ato político de autopreservação e encenação psicológica ao se mostrar-se aberto ao diálogo, enquanto o verdadeiro objetivo é reabilitar sua imagem pública e reduzir a pressão social e mediática sobre seu suposto “abandono” do partido. Em Moçambique, o poder não se alterna, apenas se disfarça.
Ossufo Momade ao escolher um “punhado” de interlocutores protege-se da humilhação pública de ser questionado pelas bases mais revoltadas. Em termos políticos, trata-se de uma reconciliação coreografada, cuidadosamente escolhida para transmitir a aparência de diálogo, sem o risco de confronto, mas no controle de sobrevivência. Optar por uma reconciliação restrita foi, portanto, uma forma de controlar o ambiente político, limitando a presença apenas àqueles com quem ainda mantém alguma margem de confiança ou negociação. Esse encontro particular pode ser lido como uma tentativa desesperada de reescrever o seu papel, de dizer “eu tentei salvar o partido”, antes que a narrativa pública o declare culpado pela sua destruição. A realização de uma reconciliação ampla significaria abrir espaço para todas as correntes, incluindo aquelas que o acusam de traição, má gestão e de ter “vendido o partido”. O encontro particular no gabinete de Ossufo Momade não foi apenas um gesto de reconciliação foi uma manobra política de sobrevivência uma forma encontrada de mostrar poder onde já não há força, de fingir unidade onde há fratura, e de salvar o nome quando já não se pode salvar o partido. Entre promessas quebradas, acusações, reconciliações, o partido vive uma crise de identidade profunda em que já não sabe se é oposição, instituição, ou apenas memória. A Renamo, que um dia foi sinónimo de resistência e esperança para milhões de moçambicanos marginalizados, parece hoje uma sombra de si mesma. O partido perdeu a capacidade de representar a insatisfação popular. A coaptação virou sinónimo de estabilidade, e a estabilidade, de submissão. A reconciliação restrita serve assim para reconstruir a narrativa de um líder fragilizado destruído pelo próprio mediador em busca da unidade. A reconciliação de Momade pode assim ser vista, portanto, como o retrato de uma liderança que tenta curar o corpo com apenas uma parte do remédio e deixando a ferida principal aberta e a alma do partido em silêncio que continua a sangrar por dentro num processo difícil da sua regeneração .
2025/12/3
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