
Paulo Vilanculo"
A cidade da Beira assinala mais um aniversário da sua elevação à categoria de cidade, completando 119 anos de uma trajetória marcada por transformações profundas, encontros culturais, momentos de glória e também por desafios que continuam a testar a capacidade dos seus habitantes e das suas instituições. A expressão “celebração carismática” pode parecer, à primeira vista, apenas uma forma festiva de caracterizar o aniversário. Contudo, no caso da Beira, o termo ganha uma dimensão particular. A cidade possui um carisma próprio, construído pela sua localização estratégica, pela diversidade das suas gentes, pela força da sua cultura, pela ligação histórica ao mar e pelo espírito de resistência demonstrado diante de sucessivas adversidades. Assim, a cidade da Beira não é apenas uma cidade; é também uma identidade urbana que se manifesta na maneira como os seus habitantes vivem, recordam, reclamam, celebram e reinventam a cidade.
Comemora-se a 20 de agosto de 2026 os 119 anos de elevação à categoria de cidade da Beira. A povoação foi fundada pelos portugueses em 1887, numa área conhecida pelo nome de Aruângua, originalmente chamada Chiveve, o nome de um rio local, foi rebatizada para Beira, em homenagem ao Príncipe da Dom Luís Filipe, primogénito de D. Carlos I que, em 1907, embora a povoação original tenha raízes fundadas no final do século XIX. A Beira pode afirmar-se como uma cidade ecológica de infraestruturas verdes, aproveitando a sua condição costeira e a sua relação histórica com rios, mangais, áreas húmidas e outros ecossistemas naturais com paisagem urbana: parques, jardins, arborização das ruas, corredores verdes, zonas de retenção de águas pluviais, recuperação de mangais que funcionam como verdadeiras barreiras naturais contra inundações, erosão e os efeitos das alterações climáticas. A cidade celebra o seu aniversário, simultaneamente, como uma cidade que enfrenta problemas de saneamento, degradação de algumas infraestruturas, erosão costeira e vulnerabilidade às mudanças climáticas. Contudo, a cidade consegue transformar as suas ruas, praças e espaços públicos em lugares de manifestação cultural e convivência, enquanto milhares de cidadãos continuam a enfrentar diariamente dificuldades económicas. A cidade da Beira tem demonstrado, em diferentes momentos da sua história, uma notável capacidade de sobreviver às adversidades, a capacidade de resistir, reconstruir e continuar que permite à cidade renovar-se depois de cada crise. É precisamente num contraste que reside parte do carisma da Beira.
A verdadeira dimensão “carismática” da Beira talvez esteja nas suas pessoas. A Beira possui uma identidade cultural diversificada, alimentada por diferentes comunidades, tradições, expressões artísticas e formas de convivência. A “carismática”, a celebração dos 119 anos da Beira pode ser lida também à luz de um certo ubuntismo que é expresso na convicção “mwathu muno”que significa que “aqui é o nosso lugar”. Mais do que uma simples afirmação de pertença territorial, a expressão traduz uma consciência sociocultural segundo a qual a cidade não é apenas um espaço físico ou administrativo, mas um lugar construído pela memória colectiva, pelas relações de vizinhança, pelas experiências partilhadas e pela participação das suas comunidades. Dizer “mwathu muno” é reivindicar a Beira como espaço de identidade, dignidade e responsabilidade colectiva: é reconhecer que os seus problemas são de todos, mas também que o seu futuro deve ser construído por todos. Nesta perspectiva, o ubuntu manifesta-se precisamente na ideia de que a cidade ganha sentido através das pessoas que nela vivem, trabalham, criam famílias, preservam tradições e resistem às adversidades.
Por outro lado, a história da Beira está intimamente ligada ao corredor da Beira, cuja importância económica ultrapassa as fronteiras nacionais e estabelece conexões com países do interior da África Austral. Uma cidade com mais de um século de existência merece uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que pretende para as próximas décadas. A celebração dos 119 anos pode, assim, ser entendida como uma espécie de espelho. A posição estratégica da Beira, o seu porto, o corredor de transporte, o potencial turístico, a economia azul e a sua condição de centro urbano regional oferecem oportunidades que precisam de ser acompanhadas por políticas públicas consistentes, transparência administrativa e participação dos cidadãos. Os 119 anos devem, por isso, ultrapassar a lógica de uma comemoração meramente protocolar. A Beira chega aos 119 anos com uma história suficientemente longa para ensinar e um futuro suficientemente aberto para surpreender. Mais do que uma simples efeméride inscrita no calendário, a celebração dos 119 anos constitui uma oportunidade para olhar para a cidade através do seu passado, compreender o seu presente e questionar o seu futuro.
Há, também, uma curiosa coincidência que torna esta celebração ainda mais “carismática”: o nome do actual edil da Beira, Cariz, que permite um jogo de palavras entre o carisma da cidade e aquele que hoje tem a responsabilidade política de conduzir os seus destinos. Assim, os 119 anos podem ser vistos como uma celebração “carismática” em dois sentidos: pelo carácter, pela identidade e pela capacidade de resistência que a própria Beira construiu ao longo da sua história, e pela associação simbólica ao nome de Cariz, o edil que preside actualmente aos destinos municipais. A coincidência linguística pode parecer apenas curiosa, mas oferece também uma oportunidade para questionar se o verdadeiro “carisma” da celebração estará apenas nas festividades e na figura do dirigente, ou se será capaz de se traduzir em respostas concretas aos problemas que afectam diariamente os munícipes. Aos 119 anos, a Beira merece ser celebrada não apenas pela sua história, mas sobretudo pela resiliência sociocultural do seu povo, que ao longo de gerações tem sabido preservar a identidade, enfrentar adversidades e afirmar, com orgulho, o seu “mwathu muno”este é o nosso lugar.
Celebrar a cidade é igualmente celebrar os seus artistas, escritores, músicos, académicos, jornalistas, trabalhadores, comerciantes, pescadores, estudantes e todos aqueles que, no anonimato do quotidiano, ajudam a construir a vida urbana. É também justo reconhecer o empenho demonstrado pelo edil Cariz na condução dos destinos da urbe, valorizando os esforços empreendidos em prol do desenvolvimento e do bem-estar dos munícipes. Que o carisma da Beira não esteja apenas na festa de um dia, mas na capacidade permanente de uma cidade inteira se reinventar, resistir e continuar a acreditar em si própria. Que esta celebração seja, por isso, mais do que uma festa: seja uma renovação do compromisso entre a cidade, os seus cidadãos e aqueles que assumem a responsabilidade de governá-la. Que o seu carisma continue a inspirar os beirenses e que o espírito de pertença, solidariedade e ubuntu fortaleça a construção de uma cidade cada vez mais digna, inclusiva, próspera e orgulhosa de si mesma. Assim, entre o “carisma” do edil Cariz, o carisma histórico da cidade e o “mwathu muno” das suas comunidades, emerge uma mesma narrativa de pertença: esta é a nossa cidade, este é o nosso lugar e, por isso, o seu destino também nos pertence. Parabéns, Beira, pelos 119 anos de história, resistência, cultura e esperança.
2025/12/3
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