
Luis Munguambe Junior"
O mundo vive em confronto permanente. Não apenas com tanques ou mísseis, mas com decisões tomadas em salas fechadas, longe da vida real, longe do pão que falta na mesa, longe do salário que não aguenta o mês. Enquanto as grandes potências discutem influência, segurança e interesses estratégicos, o povo faz contas que não batem. As guerras modernas já não precisam de bombas para destruir cidades inteiras. Bastam sanções económicas, bloqueios financeiros e discursos ensaiados, ditos em tom solene, como se fossem actos de justiça histórica. O impacto se faz sentir no bolso, no prato vazio, na ansiedade colectiva. É uma guerra sem fumo, mas com vítimas reais. Fala-se de liberdade e democracia como se fossem produtos exportáveis, embalados em discursos bonitos e slogans universais. Mas, no terreno, o que se exporta é sofrimento. O que chega às pessoas comuns não é liberdade, é inflação e o desemprego a escassez. O povo não participa das decisões, mas participa sempre das consequências e essa parece ser a regra não escrita do mundo contemporâneo. Quando o mundo confronta o mundo, os líderes falam em nome de valores elevados. Falam de princípios, de moral, de futuro. Mas quem vive a realidade dos factos, percebe que esses valores raramente descem à rua. Cá em baixo, onde se apanha transporte, onde se compra comida a crédito, onde se faz malabarismo para pagar renda, o confronto global traduz-se numa única palavra: aperto. As sanções, apresentadas como instrumentos políticos cirúrgicos, nunca atingem apenas quem está no topo. Atingem o pequeno comerciante, o trabalhador informal, a família que depende de um salário instável. Atingem o cidadão comum que não tem culpa das decisões tomadas em seu nome, mas que paga como se tivesse assinado o contrato. Há uma ironia cruel neste jogo de poder: quem decide quase nunca sofre, e quem sofre quase nunca decide. Os arquitectos do confronto vivem protegidos por privilégios, enquanto o povo aprende a adaptar-se à crise como se fosse parte natural da vida. Crise após crise, o sofrimento vai sendo normalizado, institucionalizado, tratado como inevitável. Quando o mundo confronta o mundo, não há vencedores visíveis entre quem trabalha, paga impostos elevados e ainda assim vê serviços públicos falharem. Não há glória na sobrevivência diária. Há apenas resistência silenciosa, cansada, teimosa. Uma resistência que não sai nos comunicados oficiais, mas que sustenta tudo. O discurso dominante insiste que estes sacrifícios são necessários, que fazem parte de um caminho maior, que o futuro compensará. O problema é que esse futuro parece estar sempre mais à frente, enquanto o custo é sempre o presente. Pede-se paciência a quem já esgotou todas as reservas. No meio deste confronto, o povo transforma-se em estatística, em dano colateral. Fala-se de impactos macroeconómicos, mas evita-se falar de vidas concretas. Evita-se falar do trabalhador que aceita qualquer condição para não cair no abismo. O povo nunca é chamado à mesa onde se decide o confronto. Nunca opina sobre sanções, guerras ou alianças estratégicas. Apenas recebe a conta — sempre mais alta, sempre urgente, sempre inadiável. E talvez o maior problema não seja o confronto entre potências, mas esta velha normalidade de aceitar que os mesmos paguem sempre o preço das disputas dos outros. Enquanto o mundo confronta o mundo, o povo continua a fazer o que sempre fez: sobreviver. Mesmo quando já não devia ser apenas isso.2025/12/3
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