
Luis Munguambe Junior"
Há uma sensação estranha no ar. Não é exactamente medo, mas também não é tranquilidade. É uma espécie de inquietação permanente, como se o mundo estivesse sempre prestes a acontecer e nunca soubéssemos exactamente o quê. Vivemos num tempo em que o futuro deixou de ser promessa e passou a ser suspeita. Durante muito tempo, acreditou-se que o progresso era inevitável. A ideia era simples e reconfortante: cada geração viveria melhor do que a anterior. Haveria mais tecnologia, mais riqueza, mais oportunidades, mais estabilidade. O futuro era visto como uma escada, sempre a subir.
Hoje, essa escada parece um elevador avariado.
O século XXI começou cheio de promessas. Falava-se de inovação, de globalização, de um mundo cada vez mais conectado e cooperativo. A tecnologia prometia aproximar as pessoas, reduzir desigualdades e abrir caminhos inéditos para o desenvolvimento. Parecia o início de uma era luminosa.
Mas bastaram alguns anos para percebermos que a história raramente respeita os planos optimistas.
Guerras voltaram a ocupar o centro do cenário internacional. Tensões entre potências ressurgiram com uma intensidade que muitos julgavam coisa do passado. Crises económicas tornaram-se frequentes, espalhando instabilidade pelos mercados e incerteza pelas famílias. E, como se não bastasse, surgiram desafios globais que nenhuma geração anterior teve de enfrentar da mesma forma: pandemias, crises climáticas, migrações massivas, colapsos energéticos.
De repente, o futuro deixou de parecer organizado.
Hoje, ninguém consegue prever com muita segurança o que acontecerá nos próximos dez anos. Nem economistas, nem políticos, nem especialistas. A verdade é desconfortável: o mundo tornou-se demasiado complexo para caber em previsões simples. A globalização, que prometia estabilidade através da interdependência, acabou por criar uma realidade paradoxal. Nunca estivemos tão ligados e nunca estivemos tão vulneráveis às mesmas crises. Um conflito numa região distante pode alterar preços de energia do outro lado do planeta. Uma crise financeira num grande mercado pode provocar turbulência económica em países que nem sequer participaram na origem do problema. É como se todos estivéssemos no mesmo barco, mas sem saber quem está realmente a segurar o leme. Essa sensação de incerteza não vive apenas nos relatórios económicos ou nos debates políticos. Vive nas conversas quotidianas, nos planos adiados, nas decisões tomadas com cautela. Vive naquela pergunta silenciosa que muitos fazem, mas poucos conseguem responder: como será o futuro?
E talvez o mais curioso seja perceber que nunca tivemos tantos instrumentos para compreender o mundo. Temos dados, estatísticas, análises, tecnologia de ponta. Nunca houve tanta informação disponível. Mesmo assim, o sentimento dominante continua a ser a dúvida.
Talvez porque a informação não elimina o caos.
A cada nova crise global, a confiança nas instituições também parece sofrer um abalo. Organizações internacionais mostram dificuldade em gerir conflitos complexos. Governos enfrentam pressões internas e externas cada vez mais intensas. E as sociedades, por sua vez, tornam-se mais impacientes, mais polarizadas, mais desconfiadas.
O resultado é um ambiente onde tudo parece provisório.
Planos económicos podem mudar em poucos meses. Alianças políticas podem transformar-se de um dia para o outro. Mercados que hoje parecem sólidos podem entrar em turbulência amanhã. O século XXI transformou a estabilidade numa espécie de luxo raro. Para países em desenvolvimento, esta realidade é ainda mais dura. A incerteza global tem efeitos directos e imediatos. O preço dos alimentos sobe, o custo da energia aumenta, investimentos tornam-se mais cautelosos e as oportunidades parecem sempre depender de factores que estão longe do controlo local.
Quando o mundo fica instável, quem tem menos margem de manobra sente primeiro o impacto.
É por isso que o medo do futuro não é apenas filosófico. É prático. Está presente no orçamento das famílias, no planeamento das empresas e nas decisões políticas. Está na forma como se pensa o amanhã muitas vezes com mais prudência do que esperança.
No entanto, há um detalhe curioso na história humana: a incerteza nunca foi suficiente para travar completamente a capacidade de avançar. A humanidade sempre atravessou períodos de dúvida profunda. Houve momentos em que o mundo parecia igualmente imprevisível, igualmente caótico. Guerras mundiais, crises económicas devastadoras, transformações tecnológicas radicais. E, mesmo assim, as sociedades continuaram a adaptar-se, a reinventar-se, a encontrar novas formas de seguir em frente.
Talvez o problema não seja a incerteza em si.
Talvez o problema seja a nossa dificuldade em aceitá-la.
Durante muito tempo habituámo-nos à ideia de que o progresso era automático. Que bastava esperar e o futuro chegaria mais organizado do que o presente. O século XXI está a ensinar uma lição menos confortável: o futuro não é garantido. Ele precisa de ser construído e, muitas vezes, reconstruído.
Isso exige algo que nem sempre aparece nos discursos políticos ou nos relatórios económicos: lucidez.
Lucidez para perceber que o mundo mudou. Que as crises não desaparecerão por decreto e que a estabilidade global exige mais do que discursos optimistas. Talvez este seja mesmo o século da incerteza. Um tempo em que o medo do futuro se tornou parte do quotidiano colectivo.
Mas há também uma outra possibilidade.
Pode ser que este seja o século em que finalmente percebemos que o futuro não é um lugar onde simplesmente chegamos. É um lugar que se constrói muitas vezes em meio ao caos, às dúvidas e às crises.
E talvez seja precisamente aí que reside a verdadeira pergunta do nosso tempo: não se o futuro é incerto, mas se estamos preparados para enfrentá-lo.
2025/12/3
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula