O país submerso: Como a má planificação transformou a água em desculpas

Luis Munguambe Junior"

Quando as chuvas caem, a água deveria ser motivo de esperança, de vida, de abundância. Mas, para nós, tem sido repetidamente sinónimo de tragédia, destruição e desilusão. As cheias que voltam a marcar o calendário dos nossos sonhos interrompidos e os exercícios de emergência são, em última análise, um espelho inclemente: o problema não é a chuva é a ausência histórica de planificação e a persistente fragilidade da governação que nos afecta a todos.

Estamos sob constante risco de cheias e inundações, seja nas zonas costeiras, seja no interior do nosso País. Nós vemos, ano após ano, especialistas a alertar repetidamente para a probabilidade de cheias de grande magnitude, com impacto potencial sobre milhões de pessoas em várias bacias hidrográficas, especialmente nas do Incomáti, Limpopo, Maputo e outras zonas vulneráveis. Estes cenários não nos surpreendem; eles resultam da incapacidade estrutural do Estado de planear, preparar e proteger a população e somos nós, cidadãos, que pagamos o preço.

Os registos históricos das cheias em Moçambique mostram décadas de episódios devastadores nas bacias do Limpopo, Incomáti, Búzi, Licungo e outras. Esses eventos já provocaram milhares de mortes e deslocados, com impactos económicos significativos e repetidos. Mas, apesar desta trajetória de sucessivos desastres, a resposta política e institucional continua caracterizada por reações tardias, planos de emergência insuficientes e, muitas vezes, pela incapacidade de enfrentar os problemas de fundo. Mesmo com o avanço das capacidades tecnológicas para previsões meteorológicas, fruto de algum investimento em modernização, enfrentamos desafios graves: financiamentos incompletos, planos de contingência subfinanciados e estratégias que se apoiam mais em respostas reativas do que em acções estruturais e preventivas. Nós não podemos continuar a aceitar que se diga que as cheias são uma “tragédia natural”, como se o problema estivesse fora das nossas mãos. Chuvas intensas e ciclones fazem parte de padrões climáticos globais, mas as verdadeiras tragédias emergem quando as instituições falham sistematicamente em antecipar, mitigar e proteger. Essa falha não é acidental; ela reflecte uma cultura organizacional e política que encara a gestão de riscos como algo episódico, em vez de um processo contínuo, integrado e informado por ciência e dados técnicos.

Nós percebemos, cada vez mais, que a negligência e a falta de planificação territorial agravam o impacto das cheias. Vemos isso nas áreas urbanas de Maputo, onde o rápido crescimento urbano, a ocupação desordenada de zonas de risco e a insuficiente infraestrutura de drenagem aumentam exponencialmente a vulnerabilidade das nossas comunidades.

Ano após ano, assistimos ao mesmo ciclo: construções erguidas em áreas impróprias, ocupação sem controlo, e uma resposta estatal que chega tarde demais. Comités de gestão de risco e planos de contingência são reativados apenas na iminência da calamidade, quando deveriam estar plenamente operacionais durante todo o ano. A planificação urbana e de recursos hídricos é essencial para reduzir a exposição das populações e dos nossos activos à inundação. A falta dela tem consequências profundas para a resiliência das cidades e comunidades que todos habitamos. Pesquisas sobre resiliência urbana mostram que a coordenação deficiente entre urbanistas, elites políticas e nós, cidadãos, juntamente com limitações financeiras e técnicas, dificulta a implementação de estratégias eficazes de mitigação e adaptação. Sem um plano urbano robusto que considere o uso do solo, drenagem adequada, sistemas de alerta precoce e nosso envolvimento comunitário, continuaremos a repetir os mesmos erros. A ocupação de áreas naturalmente propensas a inundações, combinada com sistemas de drenagem inadequados e falta de infraestruturas resilientes, torna as cheias não apenas um problema climático, mas uma questão de vulnerabilidade social e falha política que nos afeta a todos.

A história das cheias em Moçambique é, na verdade, a história de uma «planificação por omissão». Enquanto os riscos se acumulavam, os decisores políticos dispersavam sua atenção entre múltiplas prioridades imediatistas. E nós continuamos a pagar o preço. Quando as cheias chegam, o discurso oficial recai sobre as condições climáticas extremas como causa primeira, desviando o foco da responsabilidade institucional e da falta de planos estruturados. Tem sido difícil ouvir, nos discursos oficiais, um reconhecimento honesto de que muitas das inundações graves poderiam ter sido mitigadas — ou pelo menos, ter tido impactos drasticamente reduzidos — se políticas de ocupação territorial, infraestruturas de drenagem e sistemas de alerta fossem consistentemente implementados e fiscalizados.

O resultado desta planificação deficiente é um custo humano e económico exorbitante que sentimos todos. As cheias não apenas deslocam pessoas; elas fracturam comunidades inteiras, interrompem a nossa educação, agravam problemas de saúde pública e reforçam ciclos de pobreza. Milhões de nós podem ser afetados a cada época chuvosa intensa, e centenas de escolas e unidades sanitárias correm risco de danos severos. Cada ano chuvoso torna-se um teste adicional para a nossa paciência e resiliência. Mas testes não são sustentáveis quando as soluções existem e não são aplicadas. A água não é inimiga ela é um recurso que poderia impulsionar a nossa agricultura, reforçar as economias locais e sustentar as nossas comunidades rurais e urbanas. O que falta, no entanto, é uma visão institucional que transforme essa água em vantagem estratégica, e não em desculpa repetida para falhas sistemáticas.

A verdade nua é esta: as cheias que devastam partes do nosso País não são inevitáveis; elas são o legado de uma governação que tem empurrado para o futuro soluções que deveriam ter sido implementadas ontem. É urgente encarar o facto de que a água pode ser riqueza ou ruína depende da planificação e da responsabilidade pública que nós, juntos, exigimos e aplicamos hoje. Os planos de gestão de riscos não podem ser documentos arquivados. Devem ser instrumentos vivos, fiscalizados e actualizados com nosso envolvimento contínuo, monitorização técnica rigorosa e compromisso político inquebrantável. Em vez de esperar que a próxima enchente exponha os mesmos erros, precisamos construir com qualidade, estratégia, transparência e coragem para enfrentar escolhas difíceis.

Chuvas fortes vão continuar a cair e isso é ciência. A pergunta que devemos fazer a nós mesmos é clara: vamos continuar a reagir às cheias com improviso e desculpas, ou faremos planeamento sério, uso responsável de dados científicos, políticas de ocupação territorial e investimentos que reflitam um compromisso real com a vida das pessoas? A resposta está em cada plano que elaboramos, em cada infraestrutura que construímos, e em cada decisão coletiva que escolhemos assumir com responsabilidade, em vez de negligência

 

2025/12/3