
Luis Munguambe Junior"
Crescemos a ouvir a mesma promessa: estuda, tira boas notas, conquista um diploma e o futuro abre-se como uma porta automática de supermercado. Era quase uma religião. O papel pendurado na parede valia mais do que qualquer habilidade invisível. Era o bilhete dourado para a estabilidade.
Mas basta olhar à volta para perceber a ironia cruel: nunca houve tantos diplomados… e nunca se viu tanta frustração silenciosa.
O problema não está nos estudantes. Está no mito.
Durante décadas, vendeu-se a ideia de que acumular certificados equivalia a construir prosperidade. Como se a economia fosse um gabinete de carimbos, à espera de papéis para distribuir oportunidades. Como se bastasse decorar teorias para produzir riqueza num mundo que exige criação, adaptação e risco.
O resultado está estampado nas conversas de esquina, nos grupos de WhatsApp, nas filas de concursos públicos: jovens com pastas cheias e horizontes vazios.
Formamos especialistas em responder exames não em solucionar problemas.
O sistema educacional foi desenhado como uma fábrica de credenciais, não como um laboratório de soluções. Ensina-se a repetir, não a questionar. Valoriza-se a memória, não a imaginação. Premia-se a obediência intelectual, não a curiosidade inquieta que move economias dinâmicas.
E depois perguntamo-nos por que razão a riqueza não aparece.
Como pode surgir prosperidade num ambiente onde o erro é tratado como vergonha e não como aprendizagem? Onde empreender é visto como último recurso, quase um plano B para quem “não conseguiu emprego”? Onde a criatividade raramente entra na sala de aula? Diplomas, por si só, não produzem valor. Ideias aplicadas produzem. Competências relevantes produzem. Redes de colaboração produzem. Coragem para experimentar produz.
Mas continuamos presos a um modelo que mede sucesso pelo número de certificados acumulados, como se a vida fosse uma coleção de troféus académicos.
Há algo de profundamente desconectado quando universidades formam milhares de licenciados sem qualquer ligação real ao tecido económico. Cursos que ignoram necessidades concretas. Programas que pouco dialogam com a realidade fora dos muros institucionais. Estágios inexistentes ou simbólicos. Professores sobrecarregados a repetir conteúdos que já nasceram desatualizados.
Depois, a culpa recai sobre os jovens como se lhes faltasse esforço, quando na verdade lhes faltam pontes. O drama é também cultural. Ainda se olha para o diploma como símbolo de status social, quase um escudo contra a precariedade. Famílias sacrificam tudo para ver filhos “formados”, esperando retorno automático. Quando isso não acontece, instala-se um silêncio pesado, uma sensação difusa de promessa quebrada.
Pouco se discute a pergunta essencial: formar para quê?
Se a educação não prepara para criar valor, económico, social ou cultural, transforma-se num ritual vazio. Um teatro de certificados que produz expectativas, mas não necessariamente oportunidades. Isso não significa desprezar o conhecimento formal. Pelo contrário. Significa resgatá-lo do formalismo estéril. Conhecimento precisa de contexto, aplicação, diálogo com a realidade. Precisa de errar, testar, construir. Economias que prosperam não são as que têm mais diplomas pendurados, são as que cultivam competências úteis, mentalidade crítica e ambientes que incentivam inovação. Onde aprender não termina na graduação, e onde o mercado conversa com a academia em vez de viver em universos paralelos.
Talvez o verdadeiro fracasso não seja educar, mas educar sem propósito claro, palpável.
Enquanto continuarmos a tratar o diploma como destino final, e não como ponto de partida, perpetuaremos um ciclo de expectativas infladas e resultados modestos. Continuaremos a formar gerações que sabem muito sobre teorias… e pouco sobre como transformar conhecimento em riqueza. E riqueza aqui não é apenas dinheiro. É capacidade de criar soluções, gerar emprego, melhorar comunidades, transformar realidades.
A pergunta incómoda permanece: quantos talentos se perdem porque foram treinados para procurar vagas em vez de criar caminhos? Talvez seja hora de abandonar a obsessão pelo papel e começar a discutir competências, relevância e impacto. De redefinir sucesso não como acumulação de títulos, mas como capacidade de contribuir de forma significativa.
Porque no fim das contas, diplomas podem abrir portas mas não constroem casas. E muito menos economias vibrantes.
O desafio está lançado: continuar a produzir certificados…ou começar finalmente a produzir futuro.
2025/12/3
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