
Luis Munguambe Junior"
A queda de Nicolás Maduro é manchete em todos os jornais: “Presidente capturado pelos Estados Unidos”, “Mudança histórica na Venezuela”, “Novo capítulo na luta pela democracia”. E no meio desse coro de análises geopolíticas, aquela pergunta simples, humana, permanece sem resposta: quem vai pagar a conta?
Não é segredo que a Venezuela tem um dos maiores tesouros da Terra: petróleo. As maiores reservas comprovadas do mundo cujas refinarias da costa do Golfo, por décadas, dependem justamente desse tipo de crude para funcionar bem. O interesse americano em Caracas nunca foi apenas retórico sobre democracia ou combate ao narcotráfico. Há anos, essa relação tem um nome frio e simples: energia. A história petrolífera da Venezuela atraiu, ao longo do século XX e XXI, corporações globais, legislação favorável — e mais tarde sanções e disputas diplomáticas que hipnotizaram os interesses externos.
Após a acção militar de início de 2026, em que os EUA capturaram Maduro, a retórica oficial fala de combate a crimes transnacionais. Mas o discurso foi acompanhado de outra declaração, mais directa: o governo americano afirma que estará “fortemente envolvido” na indústria petrolífera venezuelana e que pretende recuperar, usar e vender essas reservas desde já.
É aí que a história deixa de ser abstrata e salta para o quotidiano. O mercado internacional não é surdo: as acções das gigantes petrolíferas americanas subiram após a operação, refletindo a expectativa de que o controle sobre o petróleo venezuelano se traduza em lucro e poder económico extra para Washington e para Wall Street.
E como sempre acontece, quem está no centro dessas jogadas raramente paga a conta, pelo menos não na magnitude que deveria. É o cidadão comum que acorda às cinco da manhã preocupando‑se com comida, transporte, emprego e estabilidade familiar. A mesma pessoa que ouve sobre “grandiosos interesses estratégicos” nas notícias, mas nunca descobre que também está, de certa forma, a pagar esse preço: seja em impostos altos, seja em economia global instável, seja em injustiças que se tornam regra.
Porque controlar petróleo não é apenas controlar energia. É controlar economias, alianças, decisões políticas e, acima de tudo, a vida das pessoas que dependem desses recursos para sobreviver e não para enriquecer. A produção venezuelana está longe de ser o que era nos anos 90, mas mesmo assim continua a atrair atenções de grandes potências. E há outro ingrediente nessa fórmula: enquanto Washington declara compromisso com uma “transição segura” em Caracas, outros Países olham para esta situação com desconfiança. Na ONU, governos de Países como Brasil, China, Rússia e México criticaram a intervenção americana como violação da soberania e do direito internacional.
Mas a política internacional tem uma memória curiosa: ela lembra pouco daqueles que mais sofrem. A conta, então, volta a cair sobre nós — sobre os imigrantes que deixaram tudo para trás, sobre as crianças que cresceram sem pais em casa, sobre os que ainda tentam montar uma pequena empresa no meio de uma economia fragmentada, sobre as famílias que lutam por um remédio essencial que nunca chega.
O mais irónico é que se fala de liberdade e democracia como se fossem mercadorias que se compram no mercado. Mas essa “liberdade vendida” raramente liberta alguém do jugo da sobrevivência diária. Ninguém discute o preço de um barril de petróleo quando compra pão, mas aquele preço influencia tudo — desde a energia que move a fábrica ao dinheiro que entra ou sai do bolso do trabalhador comum. É o famoso dilema geopolítico: os interesses estratégicos são debatidos em salas com ar‑condicionado enquanto a vida real se arrasta nas ruas, nos bairros, nas pequenas economias diárias. E quem paga mesmo é sempre quem depende dessa vida para viver — seja em Caracas, Maputo, Luanda ou Nova Iorque.
No fim, percebemos que derrubar um presidente ou controlar um recurso — isso são capítulos de relatórios oficiais. Mas quem paga a conta mesmo é quem continua a viver quando as câmeras se vão embora.
E essa, essa é a verdade que nenhum discurso político, nenhum editorial bonito, nenhum comentário de especialista vai conseguir mascarar: o mundo pode estar a olhar para o petróleo da Venezuela com olhos de conquista, mas os debaixo, os que pagam, são olhos cansados.
2025/12/3
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