A Normalização do Fracasso: Quando o errado vira costume e ninguém mais se iSSSSndigna

Luis Munguambe Junior"

No início, incomoda. Mais tarde, cansa. E um dia, sem perceber, passa a ser normal. É assim que o fracasso se instala numa sociedade: mas como um hábito. Vai entrando aos poucos, até sentar-se à mesa como se sempre tivesse pertencido à família. O primeiro contacto com o erro ainda provoca reação. Reclama-se da fila interminável no hospital, do atendimento precário na repartição pública, da estrada esburacada, da escola sem condições. Há murmúrios, há revolta contida, há comparações com “outros países onde isso não acontece”. Mas o tempo passa, nada muda, e a indignação vai-se transformando em resignação. A frase fatal surge: “é assim mesmo”. Quando essa frase se torna comum, algo essencial já foi perdido. A sociedade aprende a adaptar-se ao que está errado. Ajusta horários para driblar o caos, cria atalhos para fugir da ineficiência, desenvolve estratégias para sobreviver ao sistema defeituoso. E chama isso de inteligência. Na verdade, é apenas sobrevivência emocional. É o mecanismo que evita o colapso psicológico diante da repetição do absurdo. O problema é que, ao adaptar-se, a sociedade deixa de exigir. Ao aceitar, deixa de pressionar. Ao normalizar, legitima. O hospital continua a falhar porque o cidadão já não se indigna, apenas se organiza para levar de casa o que falta. A escola continua a formar mal porque os pais já não cobram qualidade, apenas agradecem quando o ano termina. A corrupção continua a circular porque deixou de escandalizar; virou piada, comentário de esquina, ironia nas redes sociais. O fracasso, assim, deixa de ser exceção e passa a ser sistema. Há uma fadiga coletiva que se instalou. Cansa lutar todos os dias contra as mesmas falhas. Cansa reclamar sem resposta. Cansa esperar por mudanças que não chegam. Então, para não enlouquecer, as pessoas aceitam. Não porque concordam, mas porque desistiram de esperar algo melhor. Esse é o momento mais perigoso de qualquer sociedade: quando a indignação morre antes do problema. Os jovens crescem dentro desse ambiente. Observam adultos que se acomodaram, instituições que falham sem consequências, líderes que erram sem pedir desculpa. Aprendem, cedo, que reclamar não adianta, que exigir é inútil, que sonhar alto é ingenuidade. Tornam-se práticos, não no sentido construtivo, mas no sentido resignado. Aprendem a baixar expectativas para evitar frustrações. E um país que ensina os seus jovens a esperar pouco do futuro está, na prática, a desistir dele. O mais perverso é que a normalização do fracasso não gera protestos, não cria manchetes, não provoca rupturas imediatas. Ela age em silêncio, corroendo a base moral da sociedade. Quando alguém tenta questionar, é visto como exagerado, idealista, fora da realidade. A crítica incomoda porque expõe aquilo que muitos preferem ignorar. A indignação, quando aparece, é rapidamente ridicularizada. Diz-se que “sempre foi assim”, que “não vale a pena lutar contra o sistema”, que “ninguém muda nada sozinho”. Essas frases, repetidas à exaustão, são sinais claros de uma sociedade cansada de acreditar em si mesma. Mas nenhuma mudança real nasceu da aceitação passiva do erro. Nenhuma sociedade avançou fazendo as pazes com o fracasso. O progresso começa sempre com o desconforto, com a recusa em aceitar o inaceitável, com a coragem de manter a indignação viva mesmo quando ela parece inútil. Indignar-se não é reclamar por reclamar. É recusar a normalidade do errado. É manter aceso o senso de justiça quando tudo à volta tenta apagá-lo. É dizer, em silêncio ou em voz alta, que aquilo não basta, não serve, não é digno. Enquanto o erro continuar confortável, continuará no poder. Enquanto o fracasso for tratado como costume, continuará a governar. O dia em que a sociedade voltar a sentir vergonha do que não funciona será o dia em que a mudança deixa de ser discurso e começa a ser possibilidade. Porque o maior perigo não é falhar. É aprender a viver bem com a falha. E quando ninguém mais se indigna, o problema já venceu.

2025/12/3