
Luis Munguambe Junior"
Vocês sabem aquilo que nos distingue ou melhor, aquilo que sempre nos dizem que nos distingue. Chamam-lhe desenrasca: a capacidade de dar a volta às dificuldades com soluções rápidas, criativas, improvisadas. Crescemos a elogiar essa forma de viver: “Vós é que sabeis desenrascar!” ou “Aqui até sem tudo se desenrasca!”. Mas hoje é preciso perguntar: até que ponto essa cultura de sobrevivência constante já deixou de ser virtude e passou a ser obstáculo ao desenvolvimento real do país?
O desenrasca surge quando o sistema falha, quando o Estado não consegue resposta atempada para as necessidades básicas. E, sim, reconheçamo-lo: muitas vezes essa capacidade de improvisar permitiu que nos safássemos do pior. Vocês próprios já viveram isso: quando a N1 foi devasta pela água ou quando um serviço público não cumpre o seu papel, vocês improvisam. E isso, claro, tem valor. Mas aí está o risco: quando a capacidade de improvisar se torna o principal instrumento de governação, aquilo que devia ser contingência transforma-se em regra.
Olhem à vossa volta. Muitos dos problemas que enfrentamos não são apenas consequência de choques externos ou azar climático; são resultado de décadas de decisões tomadas sem visão de longo prazo, respostas reactivas em vez de proactivas. A infraestrutura que se constrói “à pressa”, as soluções que se improvisam no calor da pressão política, as respostas que só surgem depois do desastre e não antes. Tudo isso cria um padrão perigoso: gerir a crise em vez de prevenir a crise.
Por exemplo, quando grandes projectos de infraestrutura são pensados, quantas vezes vemos planos que parecem improvisados? Estradas sem manutenção, pontes apenas temporárias, sistemas de drenagem insuficientes que inundam sempre que chove forte, mesmo quando sabemos que isso é uma realidade recorrente, ano após ano. Sabemos que as chuvas intensas e as cheias em 2026 afectaram milhares de lares, destruiu casas e deslocou famílias inteiras, um evento que as autoridades descrevem como um dos piores dos últimos anos, comparável a desastres extremos anteriores. E ainda assim, continuamos à mercê de respostas de ocasião, em vez de prevenir os efeitos recorrentes.
O problema do desenrasca está sobretudo na forma como a cultura do improviso foi absorvida pelas instituições que deveriam planear, antecipar e estruturar o futuro do País. Quando uma crise económica ou social surge e surgem com frequência, a resposta que temos quase sempre é um pacote de medidas de curto prazo, conferências de imprensa com promessas e, depois, mais de improviso. Parece que preferimos remendar um problema velho a construir uma solução que dure. E é aí que algo mais profundo nos trava: quando o improviso é sistemático, ele normaliza a falta de planeamento. Fazemos remendos tão frequentemente que a ideia de prevenir passa a soar estranha. É como viver numa casa com telhado furado e só consertar quando chove, em vez de reforçar o telhado antes da época das chuvas. E assim, ano após ano, continuamos a improvisar. Passa-se o que passou em províncias afectadas pelas enchentes: a resposta é sempre “depois do facto”.
Esta cultura de soluções imediatas sem reflexão profunda tem efeitos estruturais. No sistema educativo, por exemplo, improvisa-se com currículos que não estão alinhados às necessidades reais do mercado e com formação superior que prepara para diplomas e não para competências que o País precisa . No sector agrícola, apesar de mais de 70% da população depender da agricultura, muitas intervenções ainda são de carácter reactivo, em vez de sustentadas por estratégias que valorizem o trabalho rural com inovação, tecnologia e acesso a mercados. E o que sucede quando se improvisa demasiado? O desenvolvimento simplesmente não acontece. Procuramos resultados rápidos, soluções que “salvem o dia”, mas não construímos capacidades para que as respostas sejam eficazes, sustentáveis e replicáveis. O chamado desenrasca acaba por nos manter no mesmo lugar sobrevivendo, mas longe de prosperar. Não se trata de negar a criatividade ou a resiliência que o povo moçambicano tem demonstrado. Trata-se de reconhecer que criatividade sem estrutura é apenas paliativo. E o desenvolvimento exige estrutura, disciplina, planeamento e visão. Precisamos de perceber que o desenrasca não pode continuar a ser o modelo de governação que substitui políticas públicas bem delineadas. O futuro terá de assentar em planeamento rígido, política clara e capacidade institucional reforçada não em improvisação contínua.
O desenvolvimento não é aquele que se improvisa de crise a crise. O desenvolvimento é o que se constrói com paciência, com dados, com estudo. É o que se faz antes das enchentes, nem sempre depois delas. É o que se planeia mesmo quando não há imprensa na porta. É o que se executa com profissionalismo e responsabilidade não com jeitinhos.
Moçambique tem potencial. Tem gente talentosa, recursos naturais enormes e uma juventude criativa. O que nos falta, muitas vezes, é a capacidade de transformar essa criatividade num modelo de desenvolvimento sustentável, longe da repetição cíclica de improvisos.
É tempo de reconhecer que o desenrasca nos ajudou a sobreviver mas que ele não pode ser a base sobre a qual construímos o nosso futuro. Se continuarmos a improvisar em vez de planear, a paralisar diante de problemas previsíveis e a responder com remendos temporários, então o nosso desenvolvimento continuará sempre distante do nosso potencial real.
Nós podemos mais. Mas só vamos perceber isso quando deixarmos de achar que improvisar é a nossa maior vantagem e começarmos a trabalhar para que a estrutura, o planeamento e a visão colectiva se tornem a nossa verdadeira identidade nacional.
2025/12/3
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