
Lina Muchanga"
Num país onde milhões de cidadãos enfrentam dificuldades diárias para garantir uma refeição, o anúncio de que antigos Presidentes da República continuam a auferir salários elevados e benefícios luxuosos pagos pelo Estado não pode passar despercebido. Mais do que surpresa, gera indignação. Não se trata apenas de números, mas sim de prioridades. Enquanto uma parte significativa da população moçambicana luta contra a pobreza, o desemprego e o aumento constante do custo de vida, o Estado mantém e até reforça um sistema de regalias para uma elite política que já deixou o poder, criando um contraste difícil de justificar, tanto do ponto de vista moral quanto social.
O argumento do Governo, segundo o qual os valores seguem uma lógica legal baseada na remuneração do Presidente em exercício, pode até sustentar-se no plano jurídico. No entanto, importa questionar se legalidade é, de facto, sinónimo de justiça. Num contexto como o de Moçambique, onde hospitais carecem de medicamentos, escolas funcionam com inúmeras limitações e muitas famílias vivem em condições precárias, a manutenção de salários elevados e benefícios de luxo para ex-dirigentes parece cada vez mais distante da realidade vivida pela maioria da população.
Ainda mais preocupante é o conjunto de regalias associadas, que inclui viaturas de luxo renovadas periodicamente, viagens em primeira classe, subsídios diversos e assistência médica extensiva. Tudo isto financiado por um Estado que, em várias ocasiões, apela à contenção e ao sacrifício dos cidadãos. Esta situação levanta uma questão inevitável: que mensagem está a ser transmitida à sociedade? A ideia de que o serviço público é um compromisso com o bem comum ou a percepção de que se trata de um caminho para privilégios vitalícios?
Num momento em que o país enfrenta desafios económicos profundos, seria esperado do Governo um sinal claro de sensibilidade social e de responsabilidade na gestão dos recursos públicos. Rever estes benefícios não seria apenas uma decisão de carácter económico, mas também um gesto simbólico de respeito para com os cidadãos que sustentam o Estado com os seus impostos, muitas vezes à custa de grandes sacrifícios.
Moçambique precisa de políticas que aproximem os governantes do povo, e não que aprofundem ainda mais o distanciamento entre ambos. No fim de contas, a legitimidade das decisões políticas não se esgota na sua base legal, mas mede-se, sobretudo, pela sua capacidade de responder às necessidades reais da população. E, perante este cenário, permanece uma dúvida legítima: quem está, afinal, a ser priorizado?
2025/12/3
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula