
Edmilson Panguana"
A paragem hoje parece um ensaio geral para o apocalipse, com muito mais barulho e menos figurinos. Há uma harmonia quase cacofónica: o modjeiro grita como se estivesse a vender a alma, o passageiro reclama como se o motorista fosse o dono da refinaria, e o sol… bem, o sol está a fritar cabeças com um entusiasmo digno de uma churrasqueira. A piada de mau gosto é que estamos todos aqui a praticar o desporto nacional, o da “Olhada ao longe”, enquanto o chapa, aquele ingrato, está estacionado nas bombas, a namorar uma mangueira que solta gasóleo a conta-gotas. É um amor platônico: no qual o povo quer o chapa, o chapa quer o combustível, e o combustível… esse está de férias no estreito de Ormuz.
A chegada de um chapa na terminal do Albasine, em dias de seca nas bombas, não é um evento de transportes; é uma epifania bíblica. Quando aquela carrinha, com a pintura a descascar e a suspensão a pedir clemência, aponta a rotunda, o barulho da paragem muda. O murmúrio de reclamação vira coro de aleluias. É o messias sobres rodas que aparece, envolto numa nuvem de fumo negro, prometendo levar os fieis ao “paraíso” (para o caso, é apenas o Museu ou a Baixa, mas para quem está ali há três horas, é a mesma coisa). A ironia começa no dízimo: este Messias não quer a sua alma, quer apenas 15 meticais. O problema é que o paraíso está lotado e a salvação depende da agilidade das costelas de cada um para caber no estribo.
A Bicha, essa, já ganhou contornos geográficos absurdos. Está tão comprida que os últimos da linha já nem sabem em que bairro estão. Dizem que a cauda da bicha do Albasine já atravessou a fronteira de jurisdição e agora há residentes que terão de pagar o imposto predial no município de Marracuene, tal é a distância que percorreram… a pé, enquanto esperavam para andar de carro.
E, claro, como em toda a boa crise, surgem as teorias. No meio do barulho, há sempre o “analista de paragem” que encontrou o culpado. Para alguns, a culpa da demora do combustível é do governo; para outros, é da conjuntura internacional. Mas no Albasine, há quem jure que a culpa é do Terão. Sim, o Terão! O irão está longe, mas o “Terão”, aquele lugar místico onde dizem que “terão combustível amanhã”, “terão solução brevemente”, é o maior culpado de todos.
Enquanto o combustível não saí do “Terão” e a chapa não sai da bomba, o povo do Albasine vai ficando, ali, naquela fé inabalável de quem sabe que, no final do dia, o paraíso custa 15 meticais, mas a paciência… essa não tem preço (nem gasóleo). Quando o chapa finalmente encosta, a terminal transforma-se num ginásio rítmico, mas sem a parte do ritmo e com muitos mais cotovelos. É o momento do salto ornamental para o estribo: pessoas que parecem ter ossos de borrachas, dobrando-se em ângulos que desafiam a anatomia humana só para garantir que um terço de uma nádega fique apoiado num banco de ferro.
No meio deste caos, surge a figura do nosso herói, um estudante com a sacola, com foto de uma linda mulher estampada, de baixo do braço, a lutar contra a gravidade e a multidão. Ele não quer apenas entrar; ele precisa de uma dispensa divina. Agarra-se aos trapos que restam da camisete suada do cobrador, que naquele momento tem mais poder que o primeiro-ministro, e começa a ladainha:
-“Mano, por favor! Me ajuda a entrar, nem que seja no colo do motorista! O meu professor disse que se eu faltar hoje, não há amanhã para mim. É o Simpósio sobre o Dia da língua, mano! É a língua portuguesa, é a nossa herança!”
O cobrador, preocupado com a herança de 15 meticais que vai recolher e pouco se lixand… com a norma culta olha para ele como um olho no depósito e outro na confusão e responde:
- “A Xilungu? A Xilungu xanga mina yi ponteiro dza combustível Se o teu professor quer Simpósio, diz ele vir txovar o carro!”
Mas o nosso herói não desiste, vai fazendo a ginástica da súplica. Tenta convencer a senhora das laranjas a dar-lhe o lugar em nome da gramática. Ele argumenta que a língua é o que nos une, enquanto tenta desesperadamente unir o seu corpo ao interior do chapa. É uma ironia linguística deliciosa: ele quer ir discutir a estrutura da frase num simpósio, mas a única frase que consegue articular no momento é um vocativo desesperado: “Mano, me ajuda!”
No fim, ele consegue. Entra de lado, com o pescoço dobrado num ângulo de 45 graus, uma verdadeira “metáfora viva da flexibilidade sintática”. Vai para o simpósio falar de Camões e Mia Couto, mas a sua maior obra literária do dia foi escrita ali mesmo, no Albasine, no suor de quem forrou a fila para salvar o dia da língua, enquanto o chapa, ironicamente, mal conseguia “falar” com o motor porque o gasóleo continuava retido naquela fila mística do Terão.
2025/12/3
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula